Mês amarelo: Logoterapia e a afirmação da vida diante do suicídio

”O ser humano não é produto das circunstâncias, mas produto de suas decisões.” Viktor Frankl

Viktor Emil Frankl (1905 – 1997) é reconhecido como um dos maiores psiquiatras da história, criador de um método terapêutico baseado na busca pelo sentido da vida, Logoterapia.

A escola da Logoterapia é a escola do sentido da vida. Esta corrente superou tanto a psicanálise de Freud como a teoria da ”Ciência da Natureza Humana” – de Alfred Adler. Viktor Frankl não menospreza os dois teóricos de Viena, pelo contrário, ressalta a importância dos dois numa época de rigor e purismo da ‘Era Vitoriana’, eles tentaram quebrar tabus.

Como cavalheiro pautado na ética, Frankl falava sobre os dois: ”Subi nos ombros dos gigantes e pude ver mais além” ( Hertz, pág 54). Mas os dois reduziram o ser humano a estímulos, desejos, poder e prazer pela dimensão bio-psíquica, e, por isso falharam no trato preventivo do sofrimento humano.

Enquanto Frankl avançava afirmando que o ser humano não era somente biológico e psíquico – ele também era noético, espiritual. Espiritual não no sentido religioso, mas de uma consciência que é criativa, que transmite amor, percebe sua velhice, têm humor, sentido de religião e de morte – e busca compreender o que está ao seu redor. O ser humano é complexo, não pode ser reduzido a estímulos, impulsos.

Aliás, Frankl afirmava que desejo e prazer são efeitos da jornada humana que é na realidade a busca de sentido. A jornada não está em realizar o prazer ou poder, mas em algo maior, transcendente, algo além de si mesmo. Neste ponto ele fala de religião e do amor como algo que não podem ser conhecido pela mente comum, é preciso algo de fora (suprasentido) que faça o ser transcender.

No seu livro ‘A Presença Ignorada de Deus’ – Frankl declara: ”Além do princípio do prazer e da vontade de poder; entre as aspirações, existe a busca das alturas”. Sobre o amor, ele diz: ”Somente o amor, e somente ele, é capaz na sua singularidade, ver como a pessoa é. Este conhecer em hebraico, têm o ato de amor e o ato de conhecimento designados pela mesma palavra”.

O conceito de amor frankliano é próximo do que nosso Senhor Jesus falou: ”Ame o próximo como a si mesmo”. Então se trata da relação do ‘Eu e do Tu, Eu e Deus, Eu e você’. Por isso o prazer espiritual (não religioso), fraterno ou erótico são efeitos das vivências das relações, jamais a jornada.

A Logoterapia elucida valores da natureza do ser humano, valores ligados à escolha humana, que podem prevenir o sofrimento mórbido que leva a depressão e o suicídio da pessoa, – claro, conectados a responsabilidade. são estes valores:

1-Valores da criação – a capacidade humana de criar na arte , no trabalho;

2-Valores de experiências – a maneira de sentir e de experimentar a vida, as relações;

3-Valores de atitude – Firmeza e posição no sim e não, no certo e errado, no bem e mal, no que é -, e no que não é, diante da alegria e do sofrimento.

Quando estes valores não são percebidos e aplicados, acontece um processo de despersonalização na unidade humana. Uma fragmentação da unidade do ser humano, bagunça a manifestação da sua tridimensionalidade:Bio, psíquico e noético. Este processo leva a sintomatização que conduz o ser humano a falta de sentido, ou falta de realização de valores que podem produzir o quadro de um potencial suicida. Às causas:

1-Vazio existencial – tédio seguido de sentimento de insatisfação;

2-Frustração existencial- Além de insatisfeitas, vazias e frustradas, sentem-se magoadas, vitimizadas, incapazes de definir metas. Resultado: Uma imersão depressiva;

3-Neurose Noogênica – (alma) área espiritual e sintomática, a vontade de sentido está obstruída, trazendo sentimento de vazio, não existe unidade, a pessoa está espalhada, e acontece um desespero descontrolado. Sem intervenção clínica, os resultados são as fugas em vícios – ou como última tentativa, o suicídio.

Os determinismos não definem as escolhas humanas, existe sempre sua decisão, a depressão pode ser vencida. Como bem disse Viktor Frankl: O homem é aquele que se liberta daquilo que o determina.

Existe sim a luz no fim da depressão, existe a vida chamando, desafiando você a enfrentar o sofrimento e abraçar o sentido da vida, da realização dos seus projetos, das relações com a família e amigos ou de um encontro com uma pessoa que será amada. Elizabeth Lukas responde: Que ouve este chamado da vida, deseja realizá-lo.

Frankl  ouviu este chamado. Ele perdeu seus pais e sua primeira esposa no campo de concentração nazista, mas casou-se novamente, teve uma filha, além de se tornar um psiquiatra renomado, conseguiu o seu título de doutor em filosofia, tornou-se professor da Universidade de Viena, fundador e presidente da Sociedade Austríaca de Medicina Psicoterapêutica. Recebeu também mais de 25 títulos honorários por suas ideias e trajetória -, escreveu vários livros, algumas obras já traduzidas para o Brasil.

A logoterapia é um método de tratamento estudado e respeitado pela comunidade científica e acadêmica e, sendo considerada a terceira escola de psicologia vienense, depois de Sigmund Freud e Alfred Adler.

Logoterapia se resume numa das frases de Frankl:

”Nós podemos descobrir o significado da vida de três diferentes maneiras: fazendo alguma coisa, experimentando um valor ou o amor, e sofrendo.”

A depressão é um assunto muito sério e deve ter atenção dobrada dos profissionais da psicologia, pastores, familiares e amigos. Existe também o fator espiritual religioso. Frankl também acreditava que o último sentido do ser humano é Deus, as sua abordagem judaica mistura uma ciência com a justiça pelas obras.

A teologia reformada acredita que o ser humano é mau e somente Cristo pode transformar seu coração e suas motivações, mas não nega a responsabilidade do homem no plano humano, na vida terrena e suas decisões -, jamais no plano da salvação espiritual. A Salvação pertence ao Senhor; Jonas 2.9.