Mudança radical em 3 meses na postura de Moro indica contradição ou mentira

Quando escrevi o livro “Por Que As Pessoas Mentem? – As Verdades Sobre A Mentira“, jamais imaginei que hoje pudesse estar fazendo uma breve análise sobre a mudança radical de postura do ex-ministro da Justiça, Sérgio Moro, considerado um ícone do combate à corrupção no Brasil.

Mas, infelizmente, os fatos que vieram à tona no país desde o dia 24 de abril até a entrevista que Moro concedeu no programa Fantástico no último domingo (24) me deixaram profundamente inquieta, pois vi logo no começo que algo não se encaixava, e então surgiu o pensamento: o ex-ministro estaria mentindo?

Em meu livro explico que a mentira, segundo a Psicologia, é definida como o falseamento da verdade, utilizada como mecanismo de defesa. Vemos muito isso na criança, sempre que ela se vê ameaçada de sofrer algum castigo, lança mão do recurso da mentira a fim de se proteger.

Quando Sérgio Moro anunciou a sua renúncia em 24 de abril, não formei nenhum julgamento prévio. Apenas fiquei apreensiva e aguardei a sua fala. Porém, quando soube que ele havia divulgado prints de conversas privadas para o Jornal Nacional, da Rede Globo, no mesmo dia da sua renúncia, o sinal de alerta surgiu.

Lembra do comportamento da criança que se vê ameaçada e mente para se proteger? Até então, nada concreto. Apesar de atípico, poderia ser apenas um comportamento natural de alguém que vê na publicidade dos fatos uma forma de promover a sua versão da história.

Entrevista em janeiro de 2020

Sérgio Moro, no entanto, continuou dando entrevistas (incluindo para a revista Times), mostrando adotar um comportamento bastante “publicitário”, diferente da imagem que eu e certamente muitos outros tinham dele antes da sua renúncia.

O que parecia um comportamento normal, começou a se desenhar para mim o típico comportamento de quem, diante de uma narrativa inventada, procura reforçar ao máximo a sua versão, a fim de que todos possam se convencer do que disse não por ser verdade, mas pelo condicionamento.

Uma entrevista concedida por Moro em 27 de janeiro de 2020, no entanto, me deu condições de concluir duas possibilidades: o ex-ministro mentiu e continua mentindo descaradamente, ou se contradiz de forma banal acerca de tudo que fala sobre o presidente Jair Bolsonaro.

Primeiro, veja o que Moro disse no Fantástico, domingo: “Essa agenda anticorrupção – e me desculpem aqui os seguidores do presidente, se essa é uma verdade inconveniente -, mas essa agenda anticorrupção não teve um impulso por parte do presidente da república pra que nós implementássemos.”

Agora, veja o que o mesmo Moro disse para a Jovem Pan em janeiro: “Vou apoiar o presidente Jair Bolsonaro, ele quer a reeleição. O presidente está dando apoio às políticas da pasta [de Justiça e Segurança Pública]. Ele está honrando o compromisso que assumimos juntos.”

Espera, como assim Bolsonaro “está honrando o compromisso que assumimos juntos”? Definitivamente, o Moro da Globo é um e o da Jovem Pan é outro! Temos duas versões da mesma pessoa, falando de forma contraditória sobre o mesmo assunto e no incrível espaço de apenas três meses. Menos, na verdade.

Moro elogiou “avanços”

Acha que isso basta? Não. Em janeiro, na mesma entrevista para a Jovem Pan, Moro também elogiou os “avanços” conquistados pela aprovação do pacote anticrime. Veja:

“A lei Anticrime tem muita coisa importante (…), inseriram questões que não eram da minha concordância. Mas tem coisas que são contornáveis por interpretação do juiz. Essa é uma lei importante para o país que tem mais avanços do que retrocessos.”

Mais uma vez temos aqui um Moro que fala de “avanços” do governo por meio de um projeto aprovado que visa, entre outros, combater a corrupção, mas na entrevista para a Globo em 24 de maio vimos um Moro dizendo que essa agenda “não teve um impulso por parte do presidente da república”?

Em janeiro, o “outro” Moro ainda demonstrou confiança na reeleição de Bolsonaro, defendendo os aspectos que ele mesmo avaliou como positivos do governo, observem:

“Ele vai terminar o mandato, provavelmente vai ser reeleito, vai terminar o outro mandato, e a democracia vai continuar igual. A imprensa podia dar uma folguinha e destacar o lado positivo do governo.”

Mente ou se contradiz?

Diante desses fatos podemos concluir que o Brasil agora conhece Moro em duas versões. A questão é: qual delas estaria mentindo? Ou será que o ex-ministro apenas se contradiz em pleno ato de inocência ou amnésia temporária?

Ou será que é possível alguém mudar tão radicalmente de opinião em menos de três meses, ao ponto de apresentar visões tão divergentes que justificariam a sua própria renúncia ao cargo de ministro da Justiça? Isso não te parece absurdamente estranho?

A experiência e a intuição me dizem que não se trata de inocência, muito menos mera contradição. Mas não posso cravar um julgamento.

Não posso dizer, por exemplo, que Moro está mentindo de forma proposital para tentar justificar a falência de um projeto pessoal que sucumbiu diante de um governo que não se deixou intimidar, por exemplo, pela suposta obrigação de indicá-lo a uma vaga no STF.

Prefiro deixar essa conclusão para o Brasil, pois a sequência dos fatos parecem falar por conta própria, ou não?