Adélio Bispo e sua “desordem”- Uma crítica sobre a conclusão do laudo judicial

Em decisão judicial, Adélio Bispo, autor do ataque com faca ao presidente Jair Bolsonaro é considerado inimputável, isto é, mediante laudo psiquiátrico ele foi considerado ‘isento de pena’ tendo sua prisão convertida em internação por tempo indeterminado. O laudo segue em segredo de justiça, porém na metade deste mês foi divulgado que ele aponta para um diagnóstico de transtorno delirante persistente. Mas o que a sociedade pode entender dessa conclusão?

Que Adélio é louco, que ele “viu” e “ouviu” coisas que o “desorganizaram” de modo a agir impulsivamente? Vamos lá, primeiramente é preciso explicar que o manual psiquiátrico referido, oThe new American Classification For Mental Disorders DMS-V, possuí uma linguagem psicopatológica fortemente influenciada pelo viés pragmático da tradição americana.

Reparem que o termo ‘dizorder’, algo que está fora de ordem, indicaria antes de tudo um déficit de adaptação social, isto é assim porque os manuais americanos seguem uma lógica diagnóstica que visa destacar o grau que o sintoma exerce em prejuízo da adaptação da vida produtiva e social. Ou seja, apesar do DMS-V possuir seu mérito e valor no sentido de avaliar a readaptação dos doentes mentais e com isso contribuir para o calculo da dosagem e do tipo de remédio a ser indicado, entretanto ele peca por desviar-se das questões relativas às intenções subjacentes ao sintoma e à investigação sobre “o que é” a doença mental e sua origem. 

Assim, em uma visão psicanalítica, um “transtorno delirante” pode indicar a preponderância de uma esquizofrenia, ou seja, uma personalidade que se enquadra na estrutura da psicose. Nessa perspectiva, o sintoma, isto é, o delírio, longe de ser entendido como um “déficit adaptativo” possui sim um sentido vinculado às motivações inconsciente, aos traumas e as influencias que constituem uma parte da história do sujeito, em outras palavras: o delírio não é uma desordem, mas um tipo singular de organização, portanto de ordem.

Quando compreendemos por esse ângulo, somos levados a perceber que indivíduos psicóticos não são necessariamente perigosos, mas apenas que os seus modos de produção de sintomas estão a serviço do narcisismo primário, querendo dizer, de etapas do desenvolvimento emocional primitivo que se repetem através do Ego, grosso modo: o individuo acredita que há uma conspiração alienígena contra ele, e em razão dessas apercepções delirantes motiva-se a construir um bunker no quintal de sua casa – em uma possível leitura psicanalítica os alienígenas são expressões de um conflito emocional infantil, na qual certas vivências traumáticas tiveram status de uma intrusão ou “invasão alienígena” – Há uma estrutura, uma lógica e uma ordem subjacente ao sintoma

Outra coisa importante, o teor paranoide que confere persecutoriedade ao delírio, em geral, impelem os doentes a fugirem de qualquer sinal, real ou imaginário, que reapresente o seus temores na realidade externa, os esquizofrênicos tendem ao isolamento social e é por isso que a esquizofrenia era conhecida por “demência precoce”.

Curiosamente, observamos que Adélio organiza-se para ir de encontro a Bolsonaro, e não para fugir ou se esconder do candidato à presidência que em seu delírio é o membro de uma ordem secreta de domínio global. A postura destrutiva de Adélio seria mais compreensiva se Bolsonaro, por acidente ou intencionalmente, abrisse a porta do Bunker de Adélio. Sabemos também que Adélio não agiu sozinho e não estava presente no momento do ato “por acaso”.

Eu arrisco dizer que devemos considerar a seguinte hipótese: um componente psicopático de premeditação lúcida e racional nas ações de Adélio, e, no caso do laudo apenas ressaltar o “transtorno delirante” (esquizofrenia) como uma dizorder, então é o caso de se investigar o componente psicopático presente na ação de Adélio não como pertencente à personalidade de Adélio, mas pertencente a quem lhe forneceu uma ordem, isto é, um sentido ao seu delírio de modo a convergi-lo em uma ação especifica na realidade externa.

No caso dos terroristas islâmicos não é diferente. Talvez essa investigação revele que a aparente “desordem do Bispo” esconda, na verdade, uma ordem da torre, do cavalo e, quem sabe, até de algum rei inimigo…

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