Não é normal: sim, é normalíssimo

RIO DE JANEIRO [Wellington Costa] – Antes do candidato Jair Bolsonaro assumir o governo havia uma dúvida pairando no ar, um clima tenso de que no dia seguinte à sua posse entraria em marcha um plano de viés fortemente autoritário a desembocar em um grasso populismo fascista. Mas a “esperança venceu o medo”.

Bolsonaro superou todas as expectativas em contrário e tem se demonstrado um estadista que o Brasil jamais imaginou ter na cadeira do Executivo. Em primeiro lugar, o presidente eleito obteve através de uma inédita capacidade de diálogo, assentar-se com as principais lideranças dos partidos, de oposição e de situação, convencendo-os de que o povo brasileiro não aceitava mais a política pragmática.

O sitiamento do poder tinha que ser rechaçado para dar lugar a um perfil meritocrático. A reação foi simplesmente espetacular. Todos compreenderam com tranquilidade sem nenhum revanchismo. As reformas propostas pelo governo passaram com serenidade, não obstante à sua impopularidade como foi o caso da Reforma da Previdência. A base de apoio nas Câmaras legislativas revelaram um poder de articulação notável onde as votações ocorreram sem sobressaltos.

Outro passo sem precedentes dado pelo líder máximo da nação foi a relação com a imprensa. O jeito direto, grosseiro muitas vezes, eivado de palavrões, que marcou a sua vida pública e a campanha, foi revertido de maneira inexplicável. A assessoria de imprensa do atual governo pasteurizou as falas de Bolsonaro e a imprensa caiu de amores pelo Capitão.

Mesmo quando aqui e ali foi provocado, o presidente tem reagido com elegância e foi aos poucos ganhando o respeito da imprensa, que por sinal tem feito um trabalho investigativo excepcional a constranger qualquer tentativa de reedição do propinoduto na Câmara e no Senado.

Isso não seria possível se Gustavo Bebiano, já falecido infelizmente, no exercício do cargo de ministro-chefe da Secretaria-Geral da Presidência da República, não tivesse tomado a iniciativa, mesmo sem a aquiescência inicial de Bolsonaro, de marcar uma reunião com a família Marinho, dona das Organizações Globo, no gabinete presidencial.

Aquele encontro foi emblemático, sendo sucedido por outros com João Carlos Saad, dono do grupo Bandeirantes, com Sílvio Santos do SBT, Diogo Mainardi do Antagonista e, pasmem, com Luiz Frias do Grupo Folha e do Grupo Estado, controlado pela família Mesquita. Apesar dos ressentimentos de parte a parte, Bolsonaro desarmou o espírito belicoso do tempo da campanha que animou a atuação da imprensa.

Com um poder de persuasão que marcou grandes estadistas conservadores como Margaret Thatcher, Bolsonaro levou esses empresários ao entendimento de que a abertura de mercado e a desregulação econômica impulsionariam os seus negócios, dando-lhes maior independência dos contratos com o Governo Federal.

Outro ponto a ser comemorado. Bolsonaro montou um ministério de notáveis. Ainda que surjam intrigas palacianas, todos se apresentam alinhados com o governo, o que resultou em um desempenho fabuloso na economia, nas artes do país, no combate ao crime organizado, nas obras de infra-estrutura, na agropecuária e nas relações exteriores.

O aparelhamento petista foi destronado com maestria, prudência e sofisticação. O requinte das armas de Bolsonaro simplesmente o torna um inimigo insuperável. Quando é para falar ele se cala, quando é para se calar, suas respostas são letais. Essa alternância garante-lhe o elemento surpresa nas lutas que tem travado.

Embora não seja o seu maior desafio, o Supremo Tribunal Federal e o grupo de ministros que compõem a honrosa corte brasileira, ofereceu ao presidente Bolsonaro algumas barreiras delicadas, como a revogação da prisão em segunda instância que possibilitou a soltura do ex-presidente Lula. É o jogo democrático.

O Presidente aquietou a população indignada, respaldou a decisão mesmo que a contra-gosto, serenando inclusive a fervura do Congresso. A verdade é que o novo chefe do Executivo tem se notabilizado como o fiel da balança entre os três poderes da República. Claro, ele é um estadista. Não é normal, que ele proceda desta forma? Sim, é normalíssimo.

Ah, e a pandemia? Bolsonaro tirou de letra, com declarações sempre coerentes, transmitiu confiança e mobilizou governadores e prefeitos para que calibrassem economia e saúde, liberdades individuais e controle para a superação da crise. Feito histórico.