Protestos foram legítimos, mas o cuidado com a saúde deveria ter sido maior

O domingo foi de protestos pelo Brasil em apoio ao presidente Jair Bolsonaro. Apesar das recomendações do Ministério da Saúde quanto à necessidade de prevenção contra o novo coronavírus, incluindo um pedido do presidente pelo adiamento dos atos, boa parte da população ignorou os riscos e decidiu se manifestar contra decisões do Congresso Nacional e do poder judiciário.

Se do ponto de vista democrático os protestos foram legítimos e fizeram jus à democracia, por outro, representaram um risco para toda a população. Os argumentos de quem defendeu a necessidade dos protestos não se sustentam diante de uma análise objetiva e sem paixões políticas. Vejamos alguns:

“Ninguém falou nada no carnaval” – Durante o período de carnaval o mundo ainda não havia se dado conta da gravidade do novo coronavírus. O Brasil, por exemplo, ainda não havia registrado qualquer número alarmante em seu território e o epicentro de contaminação do vírus ainda se localizava na China.

“E os ônibus, metrôs, lotações?” – Os transportes públicos não são escolhas, mas sim necessidades. A manifestação nas ruas é uma escolha e, portanto, não se compara ao dia-a-dia dos milhões de trabalhadores que precisam sair para trabalhar em veículos lotados. São situações completamente diferentes.

“Centenas de pessoas morrem por outras causas e ninguém dá atenção” – É verdade, muitos morrem diariamente por outros motivos e doenças, mas será que com a mesma velocidade? O grande problema do coronavírus, apontado por especialistas, é a rápida disseminação.

Isto significa que milhares de pessoas podem se infectar em poucas horas, ou dias, exigindo do poder público uma capacidade de atendimento em saúde impossível de alcançar se nada for feito para retardar a velocidade de contaminação. Assim, pacientes que exigem uma UTI, por exemplo, os mais idosos e debilitados, podem não ter atendimento, vindo ao óbito.

Diferentemente de outras doenças que também matam, o novo coronavírus ainda está em estudo. Não é possível prever como o organismo dos pacientes curados, por exemplo, irá reagir daqui há alguns meses ou anos, nem mesmo se o vírus poderá sofrer uma nova mutação e se fortificar. Há casos de remissão na China, indicando que o patógeno pode ficar incubado mesmo sem se manifestar.

A Itália é um exemplo concreto do que pode acarretar em um país se nada for feito para conter o avanço rápido da contaminação do novo coronavírus. O número de mortos no país aumentou 250 nas últimas 24 horas, o maior aumento diário já registrado em qualquer país, e as medidas até agora não apontam sinais de desaceleração no número de mortes, que subiram 25% em um dia para 1.266, disse o chefe da Agência de Proteção Civil na sexta-feira, segundo a EBC.

O sistema de saúde italiano está beirando ao colapso, visto que muitos precisam de atendimento, somado aos milhares que já estão internados por outros motivos. Como resultado, outros países como a Espanha, França e Estados Unidos já se adiantaram em tomar medidas radicais de isolamento, incluindo o fechamento das suas fronteiras.

“O Brasil é mais importante” – Sim, mas o Brasil depende da sua população viva e saudável. Não adianta invocar o combate à corrupção como algo acima de tudo, mas colocando o país em risco de colapsar na saúde e economia. Se por causa de uma contaminação generalizada o país precisar parar, todo o esforço para tentar retirar o país da crise econômica vai por água abaixo.

Por fim, e Bolsonaro?

Sem dúvida o presidente Bolsonaro teve a melhor das intenções em sair do seu “isolamento” para cumprimentar os manifestantes. Ele se colocou em meio ao povo para lhe demonstrar apoio, uma postura típica de liderança, o que é louvável. Todavia, essa não foi uma atitude coerente e sábia do presidente.

Nesse quesito os críticos possuem razão: Bolsonaro desautorizou o pedido do seu ministro da Saúde por prevenção e se contradisse em questão de horas, visto que na quinta-feria, 12, o mesmo fez uma transmissão em rede nacional pedindo prevenção e também o adiamento das manifestações.

O ideal seria, por exemplo, fazer um vídeo elogiando o ato democrático e voluntário dos manifestantes, mas alertando sobre os riscos envolvidos na ação, apelando por cautela e prudência. Dessa forma Bolsonaro não estaria se colocando contra o povo, mas também não estaria agindo contra todas as recomendações do Ministério da Saúde e da Organização Mundial de Saúde.

Politicamente falando, o resultado das manifestações de hoje e, principalmente, da reação de Bolsonaro, se caso agravar consideravelmente o avanço do coronavírus no país, é que isso servirá de forte munição para a oposição acusar o presidente de irresponsabilidade.

A única saída para este cenário de acusações é o sucesso na contenção do vírus. Ou seja, se não houver, de fato, uma explosão de contaminação no país nas próximas semanas. Caso contrário, mesmo que o recado de cobranças da população tenha sido dado ao Congresso Nacional e ao poder judiciário, o número em potencial de vítimas fatais por causa do coronavírus irá pesar muito mais.