Feder rebate críticas, mas desvia o foco sobre drogas e Escola Sem Partido

Cotado para assumir o Ministério da Educação, o Secretário de Estado da Educação do Paraná, Renato Feder, rebateu críticas feitas contra ele ao longo deste final de semana, mas sem negar de forma explícita os principais pontos que motivaram tais reações.

Em um livro publicado por Feder em parceria com seu amigo Alexandre Ostrowiecki, em 2007, chamado Carregando o Elefante – Como Livrar-se do Peso que Impede os Brasileiros de Decolar, existe por exemplo a defesa da legalização das drogas e a redução das Forças Armadas, conforme noticiado pelo Opinião Crítica.

Em uma sequência de twitters publicados na manhã deste domingo (05), contudo, Feder afirmou ter escrito o livro com apenas 26 anos de idade, indicando que 15 anos depois teria mudado de visão sobre o que escreveu no passado.

Todavia, Feder não foi específico sobre o conteúdo que motivou às críticas contra ele, algo que em tais circunstâncias seria o esperado da sua parte, visto que a questão das drogas se trata de algo importante na agenda do governo Bolsonaro.

Leia abaixo a íntegra da manifestação de Feder na sequência correta:

“Diante de muitas informações falsas divulgadas ao meu respeito, gostaria de esclarecer:

1. Desde janeiro de 2019, tenho me dedicado a melhorar a educação pública do Paraná, como secretário estadual de Educação, junto ao governador Ratinho Junior…

Sou graduado em Administração pela FGV e mestre em economia pela USP. Em 2003, assumi a Multilaser com 150 colaboradores e hoje ela tem cerca de 3.000 funcionários, tornando-se uma das trezentas maiores empresas do Brasil…

Em 2018, saí da operação da empresa para me dedicar à educação pública. Paralelo a isso, trabalho com educação há 20 anos, como professor de matemática, economia e diretor de escola filantrópica.

2. Não sou vinculado a qualquer instituição educacional privada e a nenhuma ONG…

3. É falso que tenha havido divulgação de livros com ideologia de gênero no Paraná. Não existe nenhum material com esse conteúdo aprovado ou distribuído pela Secretaria…

4. Não sou, nem nunca fui filiado a partido político, mas respeito à política como instituição legítima de discussão e resolução das questões da sociedade…

5. Sou a favor de uma educação que coloca alunos e professores no centro do processo. Um ensino que foca no aprendizado, no domínio da matemática, português e demais disciplinas…

6. Graças às professoras e aos professores do Paraná, e com o sólido trabalho do nosso governador Ratinho Junior, estamos implantando o maior programa de tecnologia educacional do País. Nossos alunos continuam aprendendo com qualidade, e não perderam nenhum único dia de aula…

durante a pandemia da Covid-19. Agora, em julho, iniciamos também oferta de aulas de programação de computador.

7. Escrevi um livro quando tinha 26 anos de idade. Hoje, mais maduro e experiente, mudei de opinião sobre as ideias contidas nele…

Acredito que todos podem e devem evoluir em relação ao que pensavam na juventude. Gostaria de ser avaliado pelo que eu penso e faço hoje, como um gestor público, ao invés de um livro escrito quinze anos atrás…

8. Tenho convicção de que a minha missão de vida é ajudar na educação do nosso país, sinto-me feliz fazendo esse trabalho e podendo devolver ao Brasil um pouco das bênçãos que recebi na vida…

Sou grato a equipe de profissionais que me apoiam no dia a dia e às famílias que confiam a nós seus filhos. Neste ano, em plena pandemia da Covid-19, batemos recorde de inscrição no Enem e mais 10 mil famílias transferiram seus filhos do ensino privado para o público…

Não existe melhor prova do que isso de que estamos em um bom caminho.”

Dois pontos

Primeiro, percebe-se que Feder demonstra estar mais maduro e ter mudado de visão sobre “as ideias contidas” no livro publicado em 2007, mas por qual razão ele não fez questão de ser objetivo e dizer claramente que é contrário à legalização das drogas?

Ora, “ideias contidas” em um livro são várias! Dizer que mudou sobre tais “ideias” é algo muito abrangente e soa como uma tentativa de querer desviar o foco do problema em si, a fim de evitar se comprometer com um posicionamento objetivo.

Segundo, Feder também foi acusado de ser contrário ao projeto Escola Sem Partido, o qual luta contra a doutrinação ideológica nas salas de aula. Percebe-se, também, que ele não se posiciona abertamente sobre o assunto, mas apenas dá a entender que “foca no aprendizado” curricular.

Todavia, ao dizer é a “favor de uma educação que coloca alunos e professores no centro do processo”, Feder está sugerindo que adota o pensamento do educador e ideólogo da esquerda Paulo Freire, o qual critica o modelo de ensino “bancário” e defende o processo ensino-aprendizagem que tem, entre outros, a participação efetiva dos alunos junto aos professores.

O modelo de Freire é criticado por direitistas não pelo fato de defender a participação dos alunos durante o ensino, mas porque não é isso o que acontece na prática. Os professores acusados de “doutrinar”, na verdade, utilizam o método como forma de manipulação ideológica e não como transmissão de conteúdos.

Conclusão

Feder sabe exatamente quais são os pontos sensíveis que motivaram às críticas contra a sua nomeação para a Educação. Todavia, mesmo ciente disso, ele não fez questão de se posicionar abertamente, e de modo objetivo, sobre esses pontos.

Em fez disso, o professor focou em suas capacidades como administrador, ressaltando números positivos e minimizando os aspectos de caráter ideológico que são tão caros para à agenda do atual governo e seus apoiadores.

Para os conservadores, não basta apresentar só números. Eles precisam estar acompanhados de uma visão de mundo. Quando Feder deixa de expressar essa visão de mundo, por exemplo, contrária à legalização das drogas e em favor do combate à doutrinação nas salas de aula, ele apenas reforça a preocupação acerca da sua possível nomeação.