Psicanalista faz apologia ao “poliamor” e psicóloga rebate: “Decadente sua postura”

A famosa psicanalista Regina Navarro Lins, autora de vários livros, fez uma série de publicações em sua rede social refletindo sobre a monogamia e o “poliamor”, modelo último que apregoa a possibilidade de uma relação amorosa/sexual ser mantida por várias pessoas ao mesmo tempo.

Segundo Regina Navarro, “no Poliamor, uma pessoa poder amar seu parceiro fixo e amar também as pessoas com quem tenha relacionamentos extraconjugais ou até mesmo ter relacionamentos amorosos múltiplos em que há sentimento de amor recíproco entre todas as partes envolvidas”.

Em outra publicação, ela acrescentou: “O Poliamor pressupõe uma total honestidade no seio da relação. Não se trata de enganar nem magoar ninguém. Tem como princípio que todas as pessoas envolvidas estão a par da situação e se sentem confortáveis com ela.”

Mas, para a psicóloga Marisa Lobo, também autora de vários livros, entre eles “Famílias em Perigo”, à apologia feita pela psicanalista ao poliamor se trata de um retrocesso.

“Meu repúdio a sua tentativa de normatizar ‘poliamor’ que é a sexualidade poliformicamente perversa, tão pretendida pela feminista esquizofrênica Shulamith Firestone. Tantas coisas importantes para serem discutidas, como a violência contra mulher, suicídio, é decadente sua postura”, rebateu Marisa.

Segundo Marisa, “é fácil usar uma rede social para disseminar uma baboseira dessas, tentando fazer a sociedade aceitar. Não suje a imagem da psicanálise com seus devaneios. Aprovar socialmente todas as formas de ‘mor’ é irresponsabilidade, perversão.”

Estudo antropológico contraria o “poliamor”

Não vamos exaurir o assunto nesse texto, mas podemos fazer algumas pontuações para demonstrar que a ilustre psicanalista Regina Navarro Lins está equivocada quando faz parecer que o “poliamor” seria algo libertador.

Um estudo intitulado “The puzzle of monogamous marriage” (O quebra-cabeça do casamento monogâmico), dos autores Joseph Henrich, Robert Boyd e Peter J. Richerson, publicado em 2012 pelo The Royal Society, contraria a noção de que o poliamor seria uma evolução nas relações humanas.

O estudo conclui exatamente o contrário do que faz parecer Regina Navarro. “O pacote moderno de normas e instituições que constitui o casamento monogâmico foi moldado pela evolução cultural impulsionada pela competição intergrupal – um conjunto de processos denominado seleção de grupo cultural”, diz o texto.

Os autores concluíram que o abandono gradual da poligamia/poliandria (entendida aqui como uma variante e propiciadora do poliamor) nas diversas civilizações ao longo dos séculos foi uma consequência natural com base nas necessidades de competição econômica, mas também de melhor relação afetiva.

“Pesquisadores da biologia à história há muito observaram o enigma do casamento monogâmico e sugeriram que tais normas se espalharam por causa de seus efeitos benéficos para o grupo”, diz o estudo.

Entre os benefícios está a diminuição da violência entre os membros da relação grupal, como estupro e assassinato. Isso, porque, na relação grupal (poligamia/poliamor/poliandria) os conflitos afetivos se tornam muito maiores, já que eles refletem o número maior de pessoas envolvidas no mesmo contexto.

“Esses efeitos resultam em (i) taxas mais baixas de crime, abuso pessoal, conflito intrafamiliar e fertilidade, e (ii) maior investimento dos pais (especialmente masculino), produtividade econômica (produto interno bruto (PIB) per capita) e igualdade feminina”, concluem os autores.

Aspectos morais e filosóficos

Além do argumento antropológico contra o poliamor, visto que a história nos mostra que o abandono desse modelo de relação foi uma evolução natural da civilização por questões econômicas, primeiramente, e afetivas também, existe os fatores morais e filosóficos envolvidos.

Todos os defensores de relacionamentos amorosos “abertos” costumam se referir ao passado para fundamentar suas opiniões, ao mesmo tempo em que atribuem o modelo atual de união afetiva, baseada na monogamia, à cultura judaico-cristã, o que não é totalmente verdade.

O que tais pessoas costumam ignorar é a experiência da própria humanidade ao longo da história. Ou seja, a visão singular que cada indivíduo possui com base nas próprias experiências. Isso, porque, os defensores desse relativismo radical geralmente se baseiam apenas nos exemplos negativos, supervalorizando casos trágicos, por exemplo, de opressão e assédio moral nas relações, a fim de sustentar suas tese.

Todavia, o número de pessoas que entendem a importância moral por trás da relação amorosa entre duas pessoas e vivenciam isso de forma positiva é muito maior do que o pequeno grupo de ideólogos que, muitas vezes motivados por frustrações pessoais, disseminam ideias que em nada são revolucionárias, mas sim primitivas.

A verdade é que a noção de amor e monogamia vai muito além do interesse puramente sexual, físico ou econômico. Essa noção, sim, foi fundamentada pela cultura judaico-cristã, mas não por acaso adotada pelo mundo. Ela encontra respaldo na experiência de vida das próprias pessoas.

Neste sentido, é importante frisar que o interesse sexual por várias pessoas não se confunde com a noção de relacionamento monogâmico ideal, onde o amor é o sustentáculo da relação. Este é outro assunto, de natureza muito mais biológica e de aprendizagem, o qual requer outro olhar e abordagem.