Uma cena lamentável, para não dizer vergonhosa, protagonizou o médico infectologista David Uip, coordenador do trabalho que combate a pandemia do novo coronavírus no estado de São Paulo. Em coletiva de imprensa nesta manhã, o especialista tentou se justificar por não ter revelado se tomou ou não cloroquina durante o seu tratamento contra o vírus, mas terminou se complicando ainda mais.

Ao lado de João Doria, governador de São Paulo, Uip se dirigiu em resposta ao presidente Jair Bolsonaro, que na terça-feira publicou uma mensagem questionando o médico. “David Uip tomou, ou não, HIDROXICLOROQUINA para se curar?”, questionou o presidente em sua rede social

“Quero falar uma coisa para o senhor presidente. Presidente, eu respeitei seu direito de não revelar o seu diagnóstico. Respeite meu direito de não revelar o meu tratamento”, disse. “Senhor presidente, me respeite. A minha privacidade foi invadida”, afirmou o médico.

O problema, no entanto, é que Uip parece não ter se dado conta do cargo que ocupa, muito menos da responsabilidade que possui diante dos seus “pacientes”, o que significa dizer toda a população de São Paulo. Ao alegar invasão de privacidade para não dizer se tomou ou não a cloroquina, o médico deixa de revelar aos seus próprios pacientes (população) qual foi o método que usou para se curar.

Não há a menor coerência no argumento de David Uip em alegar “privacidade”. O contexto de pandemia, onde centenas de pessoas já perderam suas vidas, sendo a maioria do estado de São Paulo, não permite esse tipo de alegação, especialmente por se tratar de alguém que presta serviço público na saúde, tendo justamente como objetivo combater o vírus do qual ficou curado.

Sua resposta em rede nacional ao presidente Bolsonaro apenas escancarou, novamente, uma postura egoísta e medicamente politizada da sua parte, e não de quem está realmente preocupado em debater se a cloroquina é realmente eficaz ou não, a fim de ajudar no tratamento de outras vítimas do vírus.

Na prática, é como se o médico não quisesse revelar ao seu paciente, doente da mesma enfermidade que um dia lhe acometeu, qual foi o remédio que usou para ficar curado. Isso não é privacidade, mas canalhice, egoísmo ou qualquer outro adjetivo capaz de classificar uma atitude como essa.

No final das contas, o que fica patente é que o médico David Uip parece estar politizando mesmo a pandemia, talvez influenciado por João Doria, visto que uma possível confirmação do uso da cloroquina reforçaria a posição do presidente Jair Bolsonaro quanto ao uso desse medicamento.

Talvez não seja por acaso que São Paulo amarga hoje o maior número de mortes em decorrência do Covid-19, ao mesmo tempo em que é o território onde mais se apela para o isolamento radical. Está mais do que na hora dos paulistas abrirem os olhos para essa possibilidade, pois sem dúvida é uma questão de vida ou morte!