Desde a semana passada a chamada CPI da Lava Toga vem causando divergências entre os apoiadores do governo Bolsonaro. O final de semana virou um verdadeiro campo de batalha de narrativas entre os que enxergam na CPI uma medida necessária para investigar os abusos do Supremo Tribunal Federal, e os que agora acreditam ser uma armadilha a sua instalação. Mas, há um detalhe nisso tudo que parece estar passando despercebido aos olhos da maioria: o silêncio de Flávio Bolsonaro.

No centro do embate sobre a CPI da Lava Toga está o senador Flávio Bolsonaro, e por quê? Ora, porque muitos acreditam que a mudança de opinião dos “bolsonaristas” mais empenhados é uma forma de fechar os olhos para um possível acordão do senador com os ministros do Supremo, especificamente o presidente Dias Toffoli, como uma espécie de “troca” de favores.

Flávio Bolsonaro é acusado pelo Ministério Público do Rio de Janeiro de poder estar envolvido no “Caso Queiroz”, seu ex-assessor. Como o caso foi remetido para o STF, visto que o parlamentar possui foro privilegiado, a decisão de Flávio de não assinar (apoiar) a CPI da Lava Toga seria então uma forma de sinalizar apoio aos ministros do Supremo, para em contrapartida a investigação do seu nome do Caso Querioz não avance na Corte.

Outras especulações envolvendo os prós e contras sobre a CPI da Lava Toga também existe, como por exemplo, o fato de haver alguns nomes de políticos críticos ao governo apoiando a iniciativa. Muitos acreditam que a CPI pode se voltar contra a própria Lava Jato, sendo usada para atacar o governo. 

O silêncio de Flávio Bolsonaro

É verdade, sim, que a CPI da Lava Toga pode ser manipulada para ser usada com outras finalidades, como ocorreu com às 10 Medias Contra a Corrupção. Entretanto, usando ainda às 10 Medida como exemplo, percebemos que houve reação do governo, que vetou os pontos críticos inseridos por malícia.

Os demais elementos das 10 Medidas, considerados bons também pelo ministro Sérgio Moro, continuaram no texto. Na prática, portanto, a preocupação com o uso indevido da CPI da Lava Toga, ainda que justificável, não parece ser motivo de pânico, especialmente quando há vários apoiadores do governo em sua base de formação.

Será mesmo que a oposição teria tanta força para conseguir converter 100% em armadilha uma iniciativa originalmente boa que partiu da própria base de apoio do governo? Qual seria o papel dos senadores aliados ao presidente e à Lava Jato em tal CPI, nenhum?

O que resta como grande foco das atenções, de fato, é a figura do senador Flávio Bolsonaro, que mesmo diante de tamanho embate de narrativas, até o momento não usou suas mídias para expressar claramente a sua opinião. Sabendo que a base de apoio do governo está em atrito, em boa parte, por causa do seu nome, o senador parece não fazer questão de vir a público para acalmar os ânimos dos eleitores. Isso não é estranho?

A impressão é de que Flávio Bolsonaro assiste o circo pegar fogo, enquanto se esconde atrás da “sua” militância, que sem dúvida alguma está bem intencionada, visando protegê-lo em função de uma causa maior, que é o governo do seu pai. Mas enquanto isso, muitos saem feridos, desconfiados e sua força vai se perdendo, enquanto a verdadeira oposição cresce diante dessa divisão.

Por fim, esse texto não é uma análise sobre os méritos da CPI da Lava Toga (fica para outra ocasião), mas sobre o comportamento incompatível de Flávio Bolsonaro diante de um cenário de caos envolvendo o seu nome, e consequentemente a imagem do governo do seu pai.

Ao invés de chamar o protagonismo para si, Flávio usa a opinião de terceiros, como a do escritor Olavo de Carvalho, para se comunicar com o seu público, quando o que ele deveria fazer era romper com o silêncio acerca de tudo de polêmico envolvendo o seu nome, refutando os críticos e expondo seu pensamento diretamente para a população, exatamente como fez o seu pai ao longo dos anos.

Mas, como Flávio não faz isso e se camufla no silêncio, resta ao povo julgar por tabela a sua postura, a qual certamente se diferencia e muito com a do seu pai, o presidente Jair Messias Bolsonaro.