A indicação do desembargador Kassio Marques Nunes para o Supremo Tribunal Federal (STF), feita pelo presidente Jair Bolsonaro na última semana, desencadeou uma série de críticas contra o seu governo, dessa vez vindas da sua própria base de apoio, tendo em vista o nome desconhecido do jurista no meio conservador, mas claramente elogiado pelo “centrão” político.

O fato de não ter indicado para o STF alguém “terrivelmente evangélico” não constitui o maior motivo das críticas contra o presidente, mas sim por não ter indicado alguém que seja reconhecidamente conservador, a exemplo do que fez o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, ao indicar a jurista Amy Coney Barrett.

Segundo alguns analistas, Bolsonaro estaria usando o seu poder de indicação para dar um passo de “paz” em direção aos ministros do STF críticos do seu governo, ou mesmo favorecendo a si mesmo ao colocar um nome que, supostamente, poderá barrar eventuais investigações de corrupção envolvendo seus filhos, como o senador Flávio Bolsonaro.

A primeira hipótese é a mais viável, visto que não há nada de concreto contra o senador. Bolsonaro estaria, sim, tentando ser politicamente estratégico, visando amenizar a oposição contra o seu governo ao agradar o “centrão” e parte dos ministros do Supremo, provavelmente de olho na aprovação de propostas enviadas ao Congresso, como a Reforma Tributária.

Ocorre que, neste caso, o presidente estará sinalizando um recuo crucial sobre algo da sua agenda de campanha, que é a guerra cultural. Pautas como aborto, ideologia de gênero, união homossexual, descriminalização das drogas, porte de armas, liberdade religiosa, maioridade penal e outras são caríssimas para os conservadores e cristãos em geral.

Colocar no STF um ministro sintonizado com a visão conservadora acerca dessas pautas constitui uma rara oportunidade de ouro nas mãos de qualquer presidente, o que Bolsonaro estará desperdiçando caso Kassio Nunes se mostre em suas decisões alinhado com o liberalismo moral.

Assim, aparentemente, pensando em uma melhor governabilidade, o presidente Jair Bolsonaro poderá estar sacrificando um importantíssimo avanço na frente da batalha cultural em nome da viabilidade administrativa, o que, embora não seja suficiente para dizer que a guerra moral está sendo abandonada, é motivo de muita preocupação.

Não podemos dizer que Bolsonaro se tornou um mero administrador, realmente. Mas podemos dizer que o mesmo dá passos arriscados ao flertar com o establishment, dado o grande poder de persuasão que a velha política possui.

Ainda que o presidente faça uma boa administração, do que adiantará se ela cair nas mãos da esquerda nas próximas eleições? Ora, na prática, o presidente estaria apenas entregando um país economicamente arrumado, mas moralmente deficiente e com grandes chances de afundar novamente.

Portanto, é importante que o presidente corrija o seu curso nas próximas decisões, deixando claro a defesa das posições que o elegeu em 2018, pois caso contrário é certo que a sua base de apoio ficará deteriorada até 2022, especialmente se outro nome forte e conservador surgir até lá, o que não seria suficiente para ganhar, mas apenas para dividir.