Educação

Quais as razões para o desinteresse dos alunos em sala de aula?

"Ser um aluno estudioso é considerado inadequado no seu grupo, já que a moda é ser 'subversivo à ordem social'"

Ciência e Saúde

Ciência e SaúdeOpinião sobre variedades do campo científico. Por: Carlos de Paula Portela - graduado em psicologia, fez mestrado no Instituto de Psicologia da USP, doutorado no Instituto de Ciências Biomédicas (ICB) da USP e pós-doutorado na Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia (FMVZ) da USP.

29/08/2019 11h04Atualizado há 3 meses
Por: Dr. Carlos Portela
"Ser um aluno estudioso é considerado inadequado no seu grupo, já que a moda é ser 'subversivo à ordem social'"

O desinteresse dos alunos não está necessariamente ligado ao tédio do ambiente escolar, à estrutura da escola ou à didática dos professores, como um observador menos atento pode pensar.

Primeiro, as crianças estão notando que os adultos que as rodeiam são mais inseguros e têm medo delas. Isso as deixa confortáveis demais, a ponto de não aceitarem nem as regras nem a educação, tanto em casa quanto na escola. Com isso, professores são ultrajados e obrigados a conter carteiras voando na direção deles, ou a viver apavorados em meio a armas e drogas adentrando livres na escola.

A legislação não apenas desampara os profissionais que lidam com crianças, como facilita a impunidade dos infratores. Ir à escola é como ir a um espetáculo de agressividade, violência e desrespeito. Os alunos que não protagonizam essas cenas desinteressam-se pelo estudo ao assistir, atônitos, à resposta débil de vulnerabilidade dos professores.

Pra piorar, ser um aluno estudioso é considerado inadequado no seu grupo, já que a moda é ser “subversivo à ordem social” ou ser um revolucionário, contra algo do mundo dos adultos, seja lá o que for. Ser um bom aluno agora é pejorativo; tornou-se um passaporte para o bullying, isolamento e estigmatização.

E, mesmo que a escola esteja livre desse universo de gangues, as crianças de hoje têm sido contaminadas pelo imediatismo dos estímulos ao seu redor, de tal sorte que exigem prazer rápido para tudo. Pra piorar, a criança tornou-se um indivíduo solitário e mergulhado no mundo virtual.

Eu considero que isso possa fazer com que a criança afaste-se de relações sociais e não se sinta reforçada pela aquisição gradual dos saberes, vindos de um professor, em carne e osso. É óbvio que as cores, sons e a rapidez de aplicativos como “Minecraft” prendem mais a atenção de uma criança do que a fala pausada de um professor imóvel.

O mercado entendeu isso e por isso seduz as crianças para prendê-las ao celular, fazendo com que elas não suportem mais brincar juntas com bolas de gude, no quintal de casa. Na prática, toda essa tecnologia pode ter o efeito colateral de causar desinteresse pelos estudos.

Por outro lado, cabe lembrar que, embora hoje em dia exista um “mundo inteiro de possibilidades”, as crianças não são dotadas de estrutura psicológica para absorver tudo. Há tempo certo para se aprender sexo, política e economia internacional, efeitos de drogas, etc. Entupir uma criança com assuntos do universo adulto, como está acontecendo hoje em dia, pode tornar a criança confusa e ansiosa, além de afastá-la do mundo de fantasias, fundamental ao desenvolvimento infantil.

Mas escolas precisam se atualizar quanto à ergonomia, layout dos equipamentos, instalações, paisagismo e outras inovações, mas acho que isso esbarra nas condições econômicas precárias de certas regiões do país.

O que podemos fazer hoje é incorporar elementos pedagógicos facilitadores na sala de aula, não para demonizar os modelos antigos e sim, para torna-los mais atrativos. Destarte, deveríamos utilizar as diversas tecnologias e inovações em áreas ligadas à aprendizagem e à educação, como neurociências, psicopedagogia, etc., usando estudos com maior participação dos alunos, ensino à distância, interações e intercâmbios internacionais, conferências online, etc.

Porém, isso não significa que devamos estar à disposição das crianças para agradá-las o tempo todo, criando e recriando estímulos para mantê-las vibrando e interessadas. Na vida há rotinas sim, e os pequenos precisam aprender a esperar, tolerar a monotonia e aguentar frustrações.

Ainda sobre o desinteresse escolar, confesso que até hoje eu nunca vi um único estudo provando que o conteúdo escolar estaria ocasionando tédio ou inibindo a criatividade nos alunos. Isso me parece uma hipótese tendenciosa, algo alardeado por pessoas com propósitos políticos sobre a educação, principalmente aqueles que demonizam a escola, rotulando-a como “alienante” ou “instrumento do capitalismo”.

Na verdade, existe um sem número de variáveis, no mundo moderno, as quais permitem tecer conjecturas sobre o comportamento das crianças ao chegar à escola. Problemas de visão, de sono, posturais, uso de substâncias ilícitas, bem como abusos sexuais, alienação parental e separações em casa são alguns dos muitos motivos que levam à alterações no estado de humor, na atenção e no interesse de uma criança na escola.

Isso sem falar de inúmeros transtornos (ex: TDAH) que não são nem sequer diagnosticados. Quero dizer com isso que, mesmo que a criança alegue estar entediada na sala de aula, ela pode não saber identificar outros problemas que podem coexistir fora da escola.

Einstein pode não ter sido um aluno fantástico na escola, mas também não se tornou um ícone da inteligência estourando bolinhas ou fazendo selfies no celular. Ele estudou sim e muito, na Zurich do final do século retrasado, com as velhas metodologias a que todos tinham acesso.

Há pessoas brilhantes que estudaram em escolas rígidas e há pessoas brilhantes que nunca se sentaram em uma carteira escolar. Ser criativo ou questionador pode não ser resultado do modo como o sujeito enxerga suas aulas na escola e sim, ser um traço de sua personalidade. Para Donald Winnicott, a criatividade está atrelada aos primeiros cuidados em casa e não ao fato de ter ou não liberdade de escolher como, quando e o que aprender na escola.

No fundo o que revolta as crianças e as leva ao tédio é o fato de que elas, cada vez mais cedo, percebem que estão sendo cobaias num verdadeiro experimento social de adultos perdidos.

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