Indústria pornô

A verdade macabra sobre a indústria pornográfica revelada por ex-atrizes

O que a indústria pornográfica esconde dos seus consumidores, mas é revelado por quem já vivenciou os horrores da exploração sexual humana

04/08/2019 07h35
Por: Will R. Filho

A indústria pornográfica apresenta, sem sombra de dúvida, números impressionantes na web. Estatísticas apontam que cerca de 12% de todo o conteúdo de sites da Internet envolvam material adulto. Calcula-se que, a cada segundo, mais de 3 milhões de dólares estejam sendo gastos com pornografia, mais de 28.000 pessoas estejam visualizando algum site adulto e mais de 370 usuários estejam digitando termos relacionados ao assunto em motores de busca.

A maior quantidade de produção desse material acontece em Chatsworth, San Fernando Valley, Califórnia, nos Estados Unidos, respondendo por aproximadamente 85% de todo o conteúdo adulto criado no mundo inteiroO Brasil está em segundo lugar neste ranking.

O que poucas pessoas sabem é que esse mercado esconde um cenário verdadeiramente macabro de exploração sexual, tráfico de seres humanos - incluindo crianças - crimes dos mais variados tipos, doenças que deixam sequelas para o resto da vida e também mortes. Este artigo tentará revelar alguns fatos chocantes sobre este assunto, tendo como base uma matéria da Blasting News escrita por Daniel Nascimento, mas que agora será ampliada com mais detalhes pelo Opinião Crítica.

O caso de Shelley Lubben

A indústria pornográfica costuma tentar passar uma imagem de glamour, onde os participantes de filmes ganham bastante dinheiro, são felizes e “vão muito bem, obrigado”. Mas a verdade é que essas pessoas passam frequentemente por situações sérias envolvendo problemas de saúde, tanto físicos quanto psíquicos.

Uma das pessoas que mais se empenha atualmente em expor esse lado sombrio da indústria pornográfica americana é justamente uma ex-atriz pornô. Shelley Lubben, atualmente com 47 anos, casada e mãe de 3 filhas, fez sucesso na indústria na década de 1990, usando o nome de Roxy, estrelando mais de 30 filmes e ganhando prêmios.

Lubben abandonou a pornografia em 1994, quando contraiu herpes genital, uma doença que não tem cura, além de HPV (o vírus do papiloma humano), o que a levou ao câncer cervical e consequente remoção de metade de seu colo do útero.

Em 2007, Shelley fundou uma associação humanitária juntamente com seu marido, chamada Pink Cross Foundation, que ajuda pessoas com traumas relacionados à pornografia. Desde então vem expondo dados, números e situações alarmantes, que não são divulgados pela indústria pornográfica.

Shelley também publicou um livro, intitulado Truth Behind the Fantasy of Porn: the Greatest Illusion on Earth (A Verdade Por Trás da Fantasia do Pornô: a Maior Ilusão da Terra). No capítulo "Sob o Grande Topo" ela conta:

"A indústria multibilionária do pornô quer que você acredite na fantasia de que as atrizes pornôs adoram sexo. Eles querem que você compre a mentira de que nós gostamos de ser degradadas por todos os tipos de atos repulsivos. Filmes editados de forma criativa e embalagens bonitinhas são projetados para fazer uma lavagem cerebral nos consumidores".

"Mas a realidade é que as mulheres sofrem uma dor indizível por serem espancadas, estapeadas, cuspidas, chutadas e xingadas, como 'prostitutazinha suja' e 'banheiro de gozo'. […] A ex-atriz pornô Jersey também descreveu o tormento e o abuso que ela experimentou no set pornô", continua Lubben, citando a colega:

"'Os caras te socando em seu rosto. Você tem sêmen em todo o seu rosto, em seus olhos. Você é machucada. Suas entranhas podem vir para fora. É interminável. Você é vista como um objeto e não como um ser humano com um espírito. As pessoas não se importam. As pessoas usam drogas porque não conseguem lidar com a maneira como estão sendo tratadas'".

Problemas de saúde e morte precoce

Em seu site, Shelley revela que, somente entre o período de 2003 e 2014, cerca de 230 atores e atrizes morreram em consequência de AIDS, drogas, suicídio devido à depressão, mortes prematuras e homicídios, do total de aproximadamente 1500 que trabalham em San Fernando Valley, Califórnia.

Levando-se em conta o número total de atores e atrizes conhecidos que já faleceram, a média de vida de uma pessoa que faz filmes pornográficos é de apenas 36,2 anos, algo realmente perturbador. O uso de drogas é uma das causas principais, visto que o consumo, como revelado anteriormente, é um meio de poder lidar com o sofrimento durante as filmagens.

Em seu livro, Lubben cita o relato do ex-ator pornô Christian XXX, que testemunhou a morte de atrizes durante cenas de sexo: "Eu estava filmando com uma garota que morreu durante uma cena de sexo comigo (ela havia abusado de OxyContin)", disse ele.

"Recentemente, uma menina teve overdose de GHB (droga de festa, clara e inodora, que não combina com álcool) no set. Vi uma garota ganhar o Prêmio AVN, e não apareceu para receber o prêmio, depois que caiu nas garras das drogas, o que a levou a perder pelo menos 22 kg e deixar a face da terra", completou o "ator".

As chances de se contrair alguma doença é 12 vezes maior entre atores e atrizes do que entre a população comum. Entre 66% e 99% das estrelas de filmes adultos possuem herpes, e, até agora, mais de 50 suicídios aconteceram desde o ano 2000 [essa matéria foi publicada originalmente em 2015].

Consequências da exploração sexual

Lubben continua em seu livro, explicando o papel das drogas e também dos medicamentos ingeridos pelas atrizes pornô: "Drinks oferecidos como vodca e batidas de Percocet anestesiam as mulheres o bastante para suportar atos sexuais ásperos de extrema humilhação", escreveu ela.

"Quando o álcool não é suficiente, a dor gira ao redor do vício; estrelas e astros pornôs são enviados aos médicos locais em conspiração com a indústria pornográfica para receber prescrição de Vicodin, Xanax, Valium e outros medicamentos contra a ansiedade para ajudá-los a lidar com o trauma", acrescenta.

A Dra. Gail Dines, professora de sociologia e estudos sobre mulheres no Wheelock College, que também preside o departamento de Estudos Americanos, informou ao jornalista John-Henry Westen em 2015 algo que explica o motivo pelo qual a pornografia é cada vez mais aceita e vista por muitos como "normal", apesar da realidade sombria em seus bastidores.

“O maior educador sexual de homens jovens hoje é a pornografia, que é cada vez mais violenta e desumana, e muda a maneira como os homens veem as mulheres", disse ela. “Sabemos que o tráfico está aumentando - o que significa que a demanda está aumentando. Isso significa que os homens estão cada vez mais dispostos a fazer sexo com mulheres que estão sendo controladas e abusadas por cafetões e traficantes".

Tráfico humano e exploração de crianças

Segundo a organização Fight The New Drug (FTND), “o pornô alimenta a demanda pelo comércio sexual” de uma forma que muitas vezes não é vista por quem vê pornografia. “Os traficantes aprenderam a embalar seu produto de uma forma que disfarça o fato de que os 'performers' são forçados a participar”, disse Clay Olsen, CEO da entidade.

Diferente do que os consumidores da indústria pornográfica imaginam, a maioria das mulheres que participam das cenas fantasiosas são vítimas do tráfico sexual ou forçadas a fazer atos repulsivos, como revelou Lubben. Dawn Hawkins, diretora executiva do Centro Nacional de Exploração Sexual dos EUA, disse:

“Os mais de 20 artistas com quem conversei ( alguns ainda envolvidos em pornografia) compartilham comigo histórias de que foram forçados e coagidos muitas vezes. Drogas, álcool, abuso físico, chantagem, ameaças, documentos legais falsos, sedução enganosa, promessas de fama e dinheiro e muito mais são usados ​​para fazer as meninas executarem o que e como os produtores desejam”.

Shelley Lubben ainda vai além. Em uma palestra para o público da igreja a qual frequenta atualmente, declarou certa vez: “Tenho centenas de horas de filmagens que eles (os produtores de pornografia) não vão mostrar a vocês... de garotas sendo estupradas no set (de filmagem), gritando, chorando e implorando para que eles parassem”.

A Organização Internacional do Trabalho informa que existem cerca de 4,8 milhões de pessoas forçadas a viver em situação de exploração sexual, sendo 99% delas mulheres. O dado ainda mais estarrecedor é que 21% delas são crianças. Além dos danos físicos gravíssimos, há também os psicológicos, ambos marcados pelo resto de suas vidas.

O tráfico sexual humano é o terceiro maior do mundo, perdendo apenas para o de drogas e de armas. É justamente através dos sites pornôs que esse mercado é alimentado. Doenças que vão desde à clamídia, gonorreia, sífilis, herpes, HIV, depressão e o prolapso do reto, são apenas algumas das consequências.

Combater essa indústria implica na conscientização acerca dela, divulgando a verdade dos fatos, a fim de que seja cada vez maior o número de pessoas dispostas à denunciar e não alimentar esse tipo de crime contra a vida humana.

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