Ao longo desta semana ganhou repercussão nos noticiários um suposto estudo que teria apontado o risco de morte em pacientes que fazem uso da cloroquina para tratar o novo coronavírus.

No G1, por exemplo, a manchete diz: “Governo do AM suspende alta dosagem de cloroquina em pacientes com Covid-19 após estudo apontar risco de morte”. 

A rede pública Agência Brasil também noticiou, observando que “os resultados preliminares apontaram riscos à vida dos pacientes que receberam altas doses da substância [cloroquina]”.

Como era de se esperar, diversas mídias replicaram a informação, apontando o suposto risco de morte dos utilizadores da cloroquina para o tratamento do novo coronavírus, já que 11 pessoas morrerem durante a pesquisa.

O que não foi divulgado amplamente pela mídia, no entanto, é que os pesquisadores aparentemente utilizaram dosagens tão altas do medicamento que os mortos podem ter sido vítimas, na verdade, de overdose, segundo o Dr. Marcos Eberlin, considerado um dos maiores cientistas do Brasil.

“Corre por ai que um estudo em Manaus teria mostrado, conforme logo correram a anunciar na net, que a cloroquina é uma ‘droga assassina’. Mas usaram 3 vezes a dosagem máxima, 1.2 gramas por dia (isso mesmo, gramas), de cloroquina (a menos não tóxica, por que não testar a hidroxicloroquina, comprovadamente melhor?) e por 10 dias. Total = 12 GRAMAS”, explicou o professor.

Eberlin foi o autor de uma carta aberta assinada por mais de 30 cientistas ao então ministro da Saúde, Henrique Mandetta, pedindo o uso da cloroquina no tratamento da Covid-19. Com mais de 25 mil citações científicas em trabalhos pelo mundo, o químico criticou o estudo feito no Amazonas, o qual pode ser lido aqui.

“Usaram a mesma dosagem, independente do peso do paciente. O máximo é de ~6.5 mg/kg por dia. Ou seja, um paciente de digamos 50 kg correu um risco ainda maior, quase TRÊS VEZES MAIOR do que um paciente de 120 kg. Era só ler a bula!”, afirmou Eberlin em sua rede social.

“Usaram quase SEIS VEZES MAIS, e a dosagem da Prevent [que prescreve 400 mg por 5 dias, um total de ~ 2 gramas] é para o paciente ainda razoavelmente bem de saúde, nos primeiros sintomas. O estudo foi financiado, entre outros, por Senadores brasileiros. Sinistro, nunca recebi dinheiro de senadores para pesquisa alguma”, destacou o doutor.

Militantes por trás do estudo?

Outro fato que chamou muita atenção foi o perfil dos pesquisadores. Vale destacar que dos 81 pacientes monitorados no estudo, 11 morreram. Sete deles foram submetidos à alta dosagem de cloroquina, segundo os dados preliminares da pesquisa, informou o G1.

Os autores do estudo são: Mayla Gabriela Silva Borba, Fernando Fonseca Almeida Val, Vanderson Sousa Sampaio, Marcia Almeida Araújo Alexandre, Gisely Cardoso Melo, Marcelo Brito, Maria Paula Gomes Mourão, José Diego Brito-Sousa, Djane Baía-da-Silva, Marcus Vinitius Farias Guerra, Ludhmila Abrahão Hajjar, Rosemary Costa Pinto, Antonio Alcirley Silva Balieiro, Felipe Gomes Naveca, Mariana Simão Xavier, Alexandre Salomão, André Machado Siqueira, Alexandre Schwarzbolt, Júlio Henrique Rosa Croda, Maurício Lacerda Nogueira, Gustavo Adolfo Sierra Romero, Quique Bassat, Cor Jesus Fontes, Bernardino Cláudio Albuquerque, Cláudio Tadeu Daniel-Ribeiro, Wuelton Marcelo Monteiro e Marcus Vinícius Guimarães Lacerda.

Ao consultar o perfil de alguns deles nas redes sociais é possível observar o expresso apoio às políticas de esquerda e críticas ao presidente Jair Bolsonaro, o que levantou a suspeita entre os aliados do governo de que a pesquisa sobre a cloroquina teria sido enviesada ideologicamente. A imagem de capa dessa matéria traz a imagem de alguns desses autores, divulgadas nas redes sociais.

Um ativista dos Estados Unidos chamado Mike Coundrey tomou conhecimento do “estudo” e denunciou em sua conta no Twitter, gerando a repercussão inicial sobre o caso.

“Eles não apenas causaram uma overdose nos pacientes, mas os ‘pesquisadores’ tiveram a audácia de concluir o estudo dizendo: ‘A cloroquina é perigosa e não é eficaz no tratamento da COVID-19′”, afirmou Coundrey.

Outro lado

O Dr. Marcus Vinícius Guimarães de Lacerda, líder da pesquisa, em nome da equipe CloroCovid-19 emitiu uma nota afirmando que as acusações de superdosagem contra a condução da pesquisa estão erradas.

“Todos os requisitos éticos e legais foram rigorosamente seguidos. A interpretação equivocada do ativista [americano] e seus seguidores foi de que todas as mortes ocorridas no estudo se deveram ao uso das altas doses, sendo que nem todos os pacientes usaram a alta dose e todos eles tinham COVID-19 muito grave, vindo a falecer por conta da doença, o que ocorreu dentro da média mundial”, disse o pesquisador, segundo o EmTempo.

“Todos os registros estão disponíveis no centro, de acordo com as boas práticas clínicas, seguidas por toda a equipe de profissionais envolvidos no estudo”, enfatizou o pesquisador. 

Confira o vídeo abaixo: