Após a marca de 100 mil mortos em decorrência do novo coronavírus, grande parte da mídia e da oposição política busca atribuir ao presidente da República, Jair Bolsonaro, a responsabilidade direta pelas vítimas. Todavia, há inúmeras questões atreladas às consequências da pandemia, inclusive orientações do ex-ministro da Saúde, Henrique Mandetta.

Nesta segunda-feira (10), por exemplo, o ministro interino da Saúde, Eduardo Pazuello, criticou a forma como a pandemia vinha sendo conduzida no passado, dando a entender que às orientações sobre o início do tratamento contra o coronavírus estavam erradas.

“Nós estamos todos os dias revendo nossos protocolos, procurando o que tem de melhor e alterando o que não estava dando certo. Diagnóstico e testagem é a base do tratamento precoce”, comentou. “Não está correto ficar em casa doente, com sintomas, até passar mal com falta de ar. Isso não funciona. Não funcionou, e deu no que deu. Nós há dois meses já mudamos esse protocolo.”

Alfinetada em Mandetta

Pazuello se referiu ao passado e (“não funcionou, e deu no que deu”) dado o pouco tempo de permanência do ex-ministro Nelson Teich, não resta dúvida de que ele se referiu a Mandetta, e não foi por acaso, observe:

Segundo o próprio site oficial do governo federal, ao falar sobre quando procurar uma unidade de saúde e fazer o exame para detecção do novo coronavírus, Mandetta disse o seguinte em março desse ano, com nosso destaque:

“Levar essas pessoas [infectadas] para dentro de um ambiente hospitalar, somente quando apresentam quadro respiratório grave. E não levar pessoas que estão com um resfriado, um quadro com bom estado geral, se alimentando, conversando, com febre baixa, que pode usar um antitérmico. Se houver piora no quadro clínico, aí sim ele é levado para um ambiente hospitalar.”

Agora, perceba que Pazuello já havia feito referência a essa visão do ex-ministro Mandetta em julho passado, durante uma entrevista para a revista Veja. Ele declarou, também com destaque nosso:

“No início, a população foi orientada a permanecer em casa mesmo com os sintomas da Covid. E era para ficar em casa até sentir falta de ar. E, quando você tivesse falta de ar, ainda diziam para segurar mais um pouquinho. Matamos quantas pessoas com isso?”

Erro de procedimento?

Em outras palavras, Pazuello acusou indiretamente o ex-ministro Henrique Mandetta de ter dado uma orientação errada para a população ao desestimular a ida ao hospital durante os primeiros sintomas da doença.

O empresário Carlos Wizard, então cotado para o cargo de secretário de Ciência, Tecnologia e Inovação do Ministério da Saúde, também fez essa observação:

“O antigo ministro [Mandetta] dava orientação para ficar em casa. Acontecia que a pessoa ficava em casa, não recebia tratamento, passava para a fase 2, a fase 3, quase morrendo buscava atendimento médico, era entubada, ia para UTI [Unidade de Terapia Intensiva]. É lamentável que tenhamos perdido milhares de vida por esse protocolo”, disse ele à agência Reuters, em junho, segundo o Nexo Jornal.

De fato, foi o que deu a entender ao dizer que os infectados deveriam ir ao hospital “somente quando apresentam quadro respiratório grave“. Agora, o que significa isso em termos médicos? Ora, Mandetta fez referência à Síndrome Respiratória Aguda Grave (SARS), que não por acaso batizou o coronavírus como SARS-CoV-2.

Ao falar da pandemia, veja o que diz à Associação Brasileira de Alergia e Imunologia em um documento sobre Orientações da ASBAI frente ao novo coronavírus:

“Já tivemos epidemia por um coronavírus, também de início na Ásia, em 2003. Ele tem comportamento semelhante aos vírus do grupo Influenza, no sentido em que pode causar um quadro respiratório mais grave, que chamamos Síndrome Respiratória Aguda Grave (SARS)

Agora, quais são os sintomas dessa gravidade? Segundo este artigo publicado pela Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo, se trata de “um quadro de insuficiência respiratória aguda, devido a intensa resposta inflamatória pulmonar, que ocorre frente a agentes agressores diversos.”

Como o leitor devidamente atento já pode ter observado, quando o infectado com o novo coronavírus evolui para um quadro respiratório grave, isto significa que a doença já avançou de forma preocupante, razão pela qual o tratamento precoce é, de fato, o mais recomendado, exatamente como defende Pazuello e também Paulo Lotufo, professor da Faculdade de Medicina da USP, segundo a BBC.

É por causa do tratamento precoce da doença que o Piauí possui um protocolo de atendimento de sucesso, como informou a Secretaria de Saúde do estado nesta matéria. O próprio governador, Wellington Dias, que é do Partido dos Trabalhadores (PT), reconheceu isso:

“Descobrindo quem está com coronavírus cedo, isolar a pessoa e aquelas com quem ela teve contato e começar o tratamento na fase inicial é o grande caminho. É próximo de zero o índice de morte daqueles que começaram o tratamento cedo, mesmo com idade avançada ou alguma comorbidade”, disse ele.

Vale destacar que foi em Floriano, interior do Piauí, que a ministra Damares Alves foi constatar de perto o “Protocolo de Madrid”, elaborado por uma médica local que atualmente atua na Espanha, apontado como de grande sucesso na região.

O Protocolo de Madrid também se baseia no tratamento precoce do coronavírus e vem sendo usado pelos médicos no hospital estadual do município, que administra a hidroxicloroquina e azitromicima e outros corticoides, segundo o Parlamento Piauí.

Mandetta: erro ou desinformação?

Diante desses fatos, parece não restar dúvida de que o ex-ministro da Saúde, Henrique Mandetta, errou ou estava desinformado ao recomendar a busca dos infectados por ajuda hospitalar “somente quando apresentam quadro respiratório grave“, visto que o tratamento precoce, já nos primeiros sintomas da doença, é fundamental para a cura.

Neste sentido, o questionamento feito por Pazuello em sua entrevista para a Veja, sobre a recomendação por aguardar maiores sintomas da doença em casa, faz muito sentido e revela algo que muda completamente o cenário de críticas sobre os verdadeiros responsáveis pelo número de vítimas da pandemia: “Matamos quantas pessoas com isso?”

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