Depressão pós-parto masculina é confundida com estresse e cansaço, diz pesquisa

Depressão pós-parto masculina é confundida com estresse e cansaço, diz pesquisa

Um novo estudo mostra que as pessoas têm quase o dobro de probabilidade de identificar corretamente sinais de depressão pós-parto em mulheres do que em homens.


A pesquisa, publicada no Journal of Mental Health e liderada pelo professor Viren Swami, da Anglia Ruskin University, envolveu 406 adultos britânicos com idade entre 18 e 70 anos.

Os participantes foram apresentados como estudos de caso de um homem e uma mulher, ambos apresentando sintomas de depressão pós-parto, um problema de saúde mental que afeta até 13% dos novos pais.


Este novo estudo descobriu que os participantes de ambos os sexos eram menos propensos a dizer que havia algo errado com o sexo masculino (76%) em comparação com o feminino (97%).

O estudo descobriu que 90% dos participantes descreveram corretamente o estudo de caso feminino como sofrendo de depressão pós-parto, mas apenas 46% disseram que o homem tinha depressão pós-parto.

Os participantes geralmente acreditavam que o homem estava sofrendo de estresse ou cansaço. De fato, o estresse foi apontado em 21% dos casos para o homem, comparado a apenas 0,5% para a mulher, apesar dos sintomas idênticos.


No geral, o estudo descobriu que as atitudes foram significativamente mais negativas em relação ao estudo de caso masculino em comparação com o feminino. Descobriu-se que os participantes relataram menor desconforto percebido em relação à condição do estudo de caso masculino, acreditavam que a condição masculina seria mais fácil de tratar, expressavam menos simpatia pelo homem e tinham menor probabilidade de sugerir que o homem buscasse ajuda.

O principal autor da pesquisa, Viren Swami, professor de Psicologia Social na Anglia Ruskin University, disse:  “Nossas descobertas sugerem que o público britânico é significativamente mais propenso a acreditar que algo está errado quando vê uma mulher exibindo os sintomas da depressão pós-parto".


“Pode haver várias razões para essa diferença de gênero. É possível que a conscientização geral sobre a depressão pós-natal paterna ainda permaneça relativamente baixa e possa haver uma percepção entre o público britânico de que a depressão pós-parto é uma 'questão feminina' devido a fatores específicos de gênero, como alterações hormonais induzidas pela gravidez e complicações no parto", disse ele.

“O que está claro é que muito mais pode ser feito para promover uma melhor compreensão da depressão pós-parto paterna, para que as pessoas não a descartem como simplesmente um cansaço ou estresse. Isso é particularmente importante, já que muitos homens que apresentam sintomas de depressão após o nascimento de seus filhos podem não estar confiantes em pedir ajuda", conclui.

Comentário:


O excesso de rotulação diagnóstica dos comportamentos e sentimentos do dia-a-dia é um problema que merece atenção. Se trata da chamada "patologização do cotidiano".

É importante a pesquisa, obviamente. Ela aponta questões que merecem atenção, mas que parecem causar mais alarde do que constatações plausíveis. Não seria, de fato, o estresse e o cansaço, bem como a apatia ou tristeza oscilações comuns na vida de quem é bombardeado por alterações de rotina típicas após um filho recém-chegado?

Essas oscilações não acompanham também a alegria, euforia e outros sentimentos prazerosos que com o tempo vão se sobrepondo naturalmente às dificuldades do cotidiano, simplesmente por ter um(a) filho(a)?

Será que ao dar ênfase a esses sintomas negativos, físicos e emocionais, não estaríamos elevando-os ao status de doença e classificação diagnóstica de forma desnecessária? O que diferencia, no atual contexto geracional, os sentimentos paternos pós-parto das gerações anteriores?

São perguntas que merecem reflexão. No caso das mulheres, a depressão pós-parto (quando existe) encontra, de fato, respaldo nas oscilações hormonais naturais da gravidez. Há, portanto, elementos biológicos concretos explicando esse diagnóstico, algo que consequentemente afeta o psicológico.

No caso masculino a ordem do "problema" parece estar envolvida muito mais com questões sociais, cultuais e circunstanciais pós-parto, algo que pode ser encarado com naturalidade por alguns, ou como patologia(s) por outros, dependendo também dos interesses envolvidos, certo?

Por: Jon Green / Universidade Anglia Ruskin
Comentário: Will R. Filho

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