Até os franceses criticam o excesso de doações para catedral: "Jogada de marketing"


Na semana passada uma das matérias aqui do Opinião Crítica causou cerca polêmica ao fazer comparação entre às doações feitas para a Catedral de Notre-Dame, em Paris, após ser atingida por um incêndio, com a tragédia ambiental ocorrida na África, no mês passado, provocada pela passagem do ciclone Idai.

Apesar de algumas críticas, rapidamente a matéria opinativa viralizou, alcançando o top cinco das mais lidas da semana, onde permanece até hoje. Caso não tenha lido, veja: "Não foi uma catedral, mas apenas 1000 mortes e 1,6 milhão de crianças ignoradas pelo mundo".


Decorridos alguns dias desde o incidente em Notre-Dame, várias mídias começaram a publicar matérias apontando para o mesmo raciocínio do Opinião Crítica, destacando o grande volume de doações em poucas horas após o incidente, o que despertou a crítica de muitos, inclusive dos próprios franceses.

"Jogada de Marketing"


O grupo "Colete Amarelo" é um movimento que ganhou corpo na França desde outubro passado, formado por pessoas insatisfeitas com a política atual do governo, semelhante ao do Brasil, que, embora não denominado e apartidário, se mobilizou entre 2014 e 2016 em protesto pela saída do governo petista, até o impeachment de Dilma Rousseff.


A última manifestação do Colete Amarelo foi no sábado (20) e teve como uma das pautas justamente o volume de doações para a Catedral de Notre-Dame.

“O que aconteceu com a Notre-Dame é trágico e a maioria dos ‘coletes amarelos' estão tristes com incêndio na catedral. Mas, ao mesmo tempo, há pessoas que estão nas ruas há cinco meses reclamando por mudanças e ouvindo que o governo não tem dinheiro”, afirmou Jérôme Rodrigues, segundo a RFI.


Outro ativista do movimento, Frédéric Mestdjian, reforçou o raciocínio do colega: “O que mais choca as pessoas é que, de um lado, conseguiu-se mobilizar todo esse dinheiro rapidamente para uma causa importante, mas material. Enquanto isso, há uma verdadeira emergência humana para a qual recebemos a resposta de que não há dinheiro”.

 Frédéric Mestdjian explica que não se trata de questões culturais e religiosas, como parece para muitos, mas também de interesses fiscais, já que o governo francês anunciou uma redução de até 75% no imposto de renda para quem fizesse doações de até 1000 euros, e 66% acima dela. Ou seja, os bilionários seriam os mais beneficiados, visto que a declaração de impostos deles supera e muito a casa dos milhões.

“O movimento dos ‘coletes amarelos’ não representa os ricos. Ou seja, há menos interesse em financiar a ajuda a eles. Em relação à catedral, há um interesse fiscal e também de imagem. É uma jogada de marketing desses doadores”, disse ele.


“Faz cinco meses que há pessoas sendo mutiladas nas manifestações, como eu, que perdi um dos meus olhos. Ou cerca de vinte amigos meus que tiveram membros arrancados. Ninguém fala sobre isso, nenhum euro foi desbloqueado para nos ajudar. Somos vítimas dessa crise social, com emergências médicas, psicológicas, financeiras. Enquanto isso, tem gente liberando montantes enormes para comprar pedra e madeira”, lamentou Rodrigues, outro ativista.

O fato é que nessa hora muitos irão querer se apropriar da condição para fazer valer suas perspectivas, quer sejam políticas, culturais ou religiosas. O importante é não deixar se perder a maior visão de todas, que é a humana, e quanto a isso sem dúvida há um desequilíbrio na balança de valores morais que pensaram o destino dessas doações, especialmente quando comparadas a outras tragédias.

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