Camille Paglia diz que feministas modernas são ignorantes cientificamente


Em 2012, a revista Época entrevistou a feminista, ativista LGBT e ateia Camille Paglia, que já foi considerada uma das maiores intelectuais da atualidade. Mas ela também é odiada por muitos ativistas, devido a separação que faz entre ideologia e ciência.

Camille, por exemplo, já criticou a promoção da ideologia de gênero e a forma como o transexualismo tem sido tratado, explicando que os transgêneros são um sintoma de colapso cultural, durante uma entrevista aqui mesmo no Brasil.



Agora em 2019, na ocasião do Dia Internacional da Mulher, vale muito a pena reler a entrevista de Camille onde ela critica o feminismo atual, explicando implicitamente que o movimento, na verdade, não representa mais os reais interesses das mulheres. Leia uma parte abaixo:

ÉPOCA – Hoje, muitas mulheres escolhem voltar à vida doméstica e abandonam a carreira em prol da família. Essa tendência é um avanço ou um retrocesso?



Camille Paglia – Muitas feministas de minha geração se opuseram com fervor a essa tendência de as mulheres voltarem a se dedicar exclusivamente ao papel de mãe, mas eu não concordo com essas feministas.

Desde o fim da década de 1960, há uma depreciação de quem quer ser mãe e mulher. Para mim, feminismo é a luta por oportunidades iguais para as mulheres. Ou seja: remover qualquer barreira que atrapalhe o avanço na educação superior e no mercado de trabalho.

O feminismo deveria encorajar escolhas e ser aberto a decisões individuais. As feministas estavam erradas ao exaltar a mulher profissional como mais importante que a mulher mãe e esposa. Uma geração inteira de profissionais americanas adiou a maternidade e, quando finalmente decidiu engravidar, não conseguiu encontrar parceiro ou teve problemas de fertilidade.



ÉPOCA – O adiamento da maternidade foi uma consequência negativa do feminismo?

Camille – O feminismo não tem sido honesto sobre a realidade biológica que as mulheres têm de enfrentar se quiserem unir maternidade a ambições profissionais. Nesse caso, a natureza entra em conflito com o idealismo moderno da igualdade sexual.

As feministas asseguraram às mulheres que haveria tempo suficiente para elas terem filhos mais tarde, com 40 anos ou 50 anos, depois de alcançarem o sucesso profissional. Quanta ignorância científica!



Há muito tempo sabemos que os riscos para a mãe e para a criança são maiores quando se tem mais de 35 anos. Segundo a perspectiva médica, a mulher é mais fértil e tem mais facilidade para criar os filhos quando está na casa dos 20 anos.

Tornar-se mãe ou pai nessa idade é bastante diferente de aos 40 anos. Meus pais me tiveram quando estavam com 21 anos, enquanto meu pai ainda estava na faculdade. Eles eram mais espontâneos e divertidos do que 15 anos depois, quando meu pai se tornou professor e tinha uma rotina pesada de tarefas a cumprir.



ÉPOCA – Em muitos países, inclusive no Brasil, as mulheres são maioria nas universidades e constituem boa parte da força de trabalho, mas pesquisas sugerem que elas nunca se sentiram tão infelizes. Quais são as causas da tristeza?

Camille – As mulheres ganharam muito com a emancipação feminina. Acima de tudo, a possibilidade de trabalhar fora e de ser financeiramente independente, sem a humilhante subordinação ao pai ou ao marido.

As mulheres provaram que podem ser tão bem-sucedidas quanto os homens, mas seres humanos são mais do que apenas profissionais. É mais complicado para elas do que para eles integrar sucesso profissional à felicidade emocional e sexual.



ÉPOCA – Por que as mulheres sofrem para se sentir realizadas?

Camille – Como uma mulher poderosa, acostumada a ter total controle no escritório, pode fazer a transição para a vida doméstica, em que o marido não quer ser tratado como empregado? Qual é o perfil ideal de parceiro para essa mulher?

Um homem com uma postura quase de um filho: respeitador, subserviente, que obedece ternamente a cada ordem, ou um rival confiante e altamente sexual, que exige que ela abandone a postura dominadora?



Essa tensa e delicada dança entre homem e mulher não pode ser atribuída, de maneira simplista, à misoginia (o ódio contra as mulheres) ou ao machismo (uma forma exagerada de orgulho das características masculinas).

A infelicidade que muitas mulheres sentem hoje resulta em parte da incerteza delas sobre quem são e sobre o que querem nesta sociedade materialista, voltada para o status, que espera que a mulher se comporte como homem e ainda seja capaz de amar como mulher.

ÉPOCA – O feminismo não havia rejeitado as diferenças emocionais entre os gêneros?



Camille – A partir dos anos 1960, o movimento feminista tentou apagar qualquer menção às diferenças de comportamento causadas pelos hormônios. Elas foram consideradas irrelevantes para o desenvolvimento feminino.

Qualquer pessoa que se referisse aos hormônios estava supostamente reduzindo as mulheres a animais irracionais. Mas homens e mulheres sentem e expressam emoções de maneira diversa, porque os hormônios atingem o cérebro dos dois sexos em níveis diferentes.

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