Bispo nomeado pelo Papa é acusado de abusar sexualmente de seminaristas


Um bispo argentino que rapidamente renunciou seu cargo na diocese em 2017, citando razões de saúde, apenas para ser nomeado pelo Papa Francisco para uma posição administrativa superior no Vaticano, está agora sob investigação por abuso sexual, disse o Vaticano em uma declaração na última sexta-feira (4).

Alessandro Gissoti, diretor interino da Sala de Imprensa do Vaticano, disse hoje que as acusações contra o bispo Gustavo Zanchetta surgiram nos últimos meses, cerca de um ano depois do Papa Francisco ter criado uma posição para ele como "assessor" do escritório de administração financeira da Santa Sé.



O bispo Zanchetta renunciou de sua diocese de Orã no noroeste da Argentina em 2017, afirmando que “um problema de saúde me impede de realizar a missão pastoral que me foi confiada”. Ele acrescentou que gostaria de renunciar ao seu posto “o mais rápido possível”, de modo a receber tratamento em outro lugar. "Por favor, perdoe-me por ter falhado ou enganado vocês", escreveu Zanchetta.

Após sua renúncia, Zanchetta passou algum tempo na Espanha antes de ser nomeado conselheiro da Administração do Patrimônio da Santa Sé, que supervisiona os vários bens de imóveis e outras propriedades do papado. Segundo um porta-voz papal, Zanchetta foi nomeado para o cargo administrativo por causa de suas habilidades profissionais. Durante a investigação, Zanchetta tirará licença do seu trabalho no Vaticano.

Segundo Gissoti, na época da renúncia de Zanchetta, houve acusações contra ele de autoritarismo e relações tensas com membros do clero. No entanto, nenhuma acusação de má conduta sexual surgiu na época. O bispo Luis Antonio Scozzina, que atualmente preside a antiga diocese de Zanchetta, tem vários testemunhos sobre Zanchetta que ainda precisam ser revisados.



Segundo El Tribuno, o jornal de Salta, uma província no norte da Argentina, três seminaristas acusaram Zanchetta de abuso sexual e depois deixaram o seminário. Dez outros seminaristas foram intimidados a permanecer em silêncio sobre o abuso que haviam testemunhado, disse o relatório.

De acordo com relatos da mídia, alguns dos acusadores de Zanchetta foram submetidos a suas represálias e foram transferidos. “Sabendo da gravidade de todos os tipos de abuso, o bispo está disponível para qualquer um que queira apresentar uma queixa para iniciar o procedimento correspondente para a justiça canônica, enquanto recorda o direito de todas as vítimas de abuso a buscar a justiça ordinária", disse um comunicado do atual bispo de Orã, uma província empobrecida que faz fronteira com a vizinha Bolívia.

O suposto abuso, segundo depoimento prestado à nunciatura papal em Buenos Aires, ocorreu em festas organizadas por Zanchetta, onde ele ofereceu álcool às suas supostas vítimas. Segundo os relatos, os seminaristas eram menores na época. Zanchetta fundou um seminário em Oran, onde seis seminaristas foram admitidos. Esse seminário deve ser fechado.



Zanchetta estava sob uma nuvem de acusações antes mesmo de ser nomeado bispo de Orã. De acordo com El Tribuno, Zanchetta foi acusado de abuso de poder e delitos financeiros durante seu tempo como bispo de Quilmes, uma cidade perto de Buenos Aires.

Vários sacerdotes e leigos expressaram oposição na época à sua nomeação para a diocese de Oran. Foi o próprio Papa Francisco, um colega argentino, que elevou Zanchetta ao cargo em Oran. Zanchetta foi um dos primeiros bispos nomeados pelo papa, um colega argentino.

Zanchetta apressadamente deixou seu rebanho em Oran sem uma missa de despedida costumeira em 29 de julho de 2017, depois de retornar do Vaticano, onde ele havia oferecido sua renúncia ao Papa Francisco. Partiu para Corrientes, a várias centenas de quilômetros de distância, e foi hóspede do arcebispo ali até que o papa aceitou a renúncia três dias depois.

O bispo Zanchetta não foi removido da diocese de Oran. Foi ele quem renunciou. O motivo de sua renúncia está ligado a sua dificuldade em administrar as relações com o clero diocesano e as relações muito tensas com os sacerdotes da diocese. Na época de sua renúncia, havia acusações de autoritarismo contra ele, mas não havia acusação de abuso sexual. O problema que surgiu então estava ligado à sua incapacidade de governar o clero.



Após sua renúncia, ele passou um período de tempo na Espanha. Depois do período na Espanha, considerando a sua capacidade de gestão, foi nomeado conselheiro da APSA [Administração do Património da Santa Sé] (cargo que não confere responsabilidade governamental ao dicastério).

Nenhuma acusação de abuso sexual havia surgido no momento da nomeação como conselheiro. As acusações de abuso sexual datam deste ano. Com base nessas acusações e nas notícias recentemente divulgadas pela mídia, o bispo de Oran já reuniu alguns testemunhos que ainda estão por vir para a Congregação dos Bispos. Se os elementos a prosseguir forem confirmados, o caso será encaminhado para a comissão especial dos bispos. Durante a investigação, Mons. Zanchetta se absterá do trabalho.

Comentário:

Os escândalos sexuais envolvendo a Igreja Católica já beiram o absurdo. Isso, porque, não se trata de apenas alguns indivíduos de má índole que se corromperam ou que, na verdade, sempre foram corrompidos moralmente, e que por acaso ingressaram no ofício religioso, mas sim de centenas de casos atribuídos aos líderes da instituição, muitos dos quais próximos do Vaticano.

Uma pesquisa recente realizada pelo Instituto Gallup, nos Estados Unidos, revelou que apenas 37% dos americanos confiam no clero católico. Esse é o menor número já registrado desde 1997, quando o órgão iniciou suas pesquisas sobre o tema. É fato notório que essa queda de confiabilidade se deve aos escândalos sexuais.

O Papa Francisco já demonstrou tratar com seriedade o assunto, cobrando dos líderes a denúncia dos casos existentes. Pelo visto é preciso fazer muito mais, talvez criando mecanismos de investigação e controle interno mais rígidos do que os atuais, especialmente no que diz respeito à vocação sacerdotal.


Comentário: Will R. Filho

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