Irmão de Bolsonaro diz que ele pescava de canoa e vendia peixes na praça, em Eldorado


Nos limites do Vale do Ribeira se encontra Eldorado, a cidade no qual o presidente eleito, Jair Bolsonaro, foi criado pescando e buscando ouro no rio com seus amigos de infância, que lembram dele como um jovem curioso, brincalhão e aplicado na escola.

Bolsonaro chegou com 10 anos a esta remota cidade no sul do estado de São Paulo, rodeada de reservas naturais e que se sustenta de pequenos cultivos de banana e palmito e um turismo ainda incipiente.



Neste local foi criado o futuro chefe de Estado brasileiro, em plena ditadura militar e perto então de uma área de treinamento da Vanguarda Popular Revolucionária (VPR), uma guerrilha de extrema esquerda que lutou contra o regime.

Os vizinhos que conviveram com o presidente eleito lembram dele como um "menino normal" de "família humilde", desmontam a imagem de machista, racista e homofóbico que carregou durante a campanha eleitoral e rejeitam a ideia de que represente uma ameaça à democracia por ser um nostálgico da ditadura.

Seu pai ganhava a vida como dentista prático, ou seja, sem formação oficial. Com esse trabalho, alimentou Jair e seus cinco irmãos, outros dois homens e três mulheres (um sétimo morreu pouco depois de nascer).


Vários deles vivem ainda em Eldorado. O mais velho, Angelo Guido Bolsonaro, cuida de uma modesta loja de produtos eletrônicos (Eletrônica Bolsonaro) situada em frente a uma delegacia.

"Sou consciente de que por quatro anos não vou ver meu irmão", afirmou resignado Angelo Guido.

Angelo lembra que Jair passava bastante tempo no rio que rodeia a cidade, o Ribeira de Iguape, buscando o ouro narravado nas lendas locais, mas do qual nunca viu um rastro.

Também pescava com rede e canoa e, se o dia fosse produtivo, vendia uma parte na praça da cidade. Nessas aventuras, era acompanhado de Haroldo Sebastião Coutinho, que hoje tem 68 anos e nunca pensou que seu amigo de infância fosse se tornar presidente.

'Bastião', como era chamado por Bolsonaro, descreve o amigo de infância como "muito observador" e "estudioso", e, ao mesmo tempo, que gostava de brincar com seus companheiros e pôr apelidos em todo mundo.


"Naquele tempo era assim, hoje se fala bullying, mas era uma brincadeira, de boa", contou o homem que foi também companheiro de classe de Bolsonaro no colégio Dr. Jayme Almeida Paiva, onde o presidente estudou durante toda sua adolescência no turno da noite.

Seu professor de Física e Química era Valdemir Roque Vegini, já aposentado aos 72 anos e que recorda do jovem Bolsonaro como um aluno como os outros, mas destacado.

"Era um menino que perguntava bastante, não eram perguntas de 'pergunto por perguntar', ele queria aprender, percebemos sua vontade de querer mais. Foi um ótimo aluno de notas 9, 8 e 10. Respeitoso", detalhou Vegini à Efe.

Valdemir acredita que Bolsonaro "tem tudo para ser um bom presidente", o que para ele, como seu antigo professor, representa "um orgulho tremendo".

O atual diretor da escola, Domingos Felix Pontes, de quem o pai de Bolsonaro tirou um molar quando era criança, guarda em uma gaveta o último e amarelado boletim de notas do capitão da reserva do exército.

A melhor nota foi de Matemática (9,6) e a pior (7,6) na matéria denominada OSPB (Organização Social e Política Brasileira), que transmitia a ideologia conservadora do regime militar e exaltava o nacionalismo.

"Aparentemente, se o comparamos com os alunos que temos hoje, não seria o melhor da escola, mas estaria entre os bons alunos", assegurou Pontes.

Dali, o hoje governante eleito saiu para ingressar na Academia Militar das Agulhas Negras, em Resende, no Rio de Janeiro, já que nesses anos fazer carreira no exército era visto como algo bom e um emprego garantido para "uma cidade que não tinha nada", comentou o professor.

Antes de se alistar, Bolsonaro, conhecedor das trilhas da região, ajudou os soldados na busca pelo capitão Carlos Lamarca, que desertou como militar para se transformar em guerrilheiro da VPR.

Segundo Valdemir, que também deu aula às suas três irmãs, Bolsonaro defendeu depois o ambiente político "no qual ele sempre esteve", mas acredita que "entre o dizer e o fazer existe uma distância grande".

"Tenho certeza que não vai usar o exército para manter a ordem. Não há necessidade porque o Brasil não precisa disso hoje", completou.

Bolsonaro prometeu a seu irmão Angelo e a seu amigo Haroldo que sua primeira viagem depois que assumir a presidência, no próximo dia 1º de janeiro, será para Eldorado, que já costumava visitar uma vez por ano para se reunir com família e não perder as raízes da cidade que lhe viu crescer.


Por: Carlos Meneses Sánchez / EFE

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