Instituto internacional publica artigo pró-Bolsonaro: "Alguém que ousa falar a verdade"


O texto abaixo foi publicado pelo Acton Institute, órgão norte-americano que promove eventos, publicações e debates sobre temas políticos, econômicos e cultuais, responsável pelo periódico Journal of Markets & Morality, além de inúmeras obras.

O autor, Silvio Simonetti, Mestre em Relações Internacionais, fez uma análise curta, porém precisa do cenário atual da política brasileira, explicando como Jair Messias Bolsonaro representa hoje a ruptura conservadora da hegemonia cultural esquerdista em nosso país.

Leia na íntegra:

Escrevendo a um amigo sobre seu pessimismo em relação ao futuro da civilização ocidental, Jacob Burckhardt fez uma observação interessante. O historiador suíço acreditava que a história não era um processo linear e que ele podia ver que às vezes a Providência contém algumas surpresas para nós.

É com essa combinação de surpresa e pessimismo que devemos analisar as eleições presidenciais brasileiras nas quais Jair Bolsonaro, um populista candidato com tendências conservadoras, que fez da defesa dos valores cristãos tradicionais o ponto principal de suas promessas eleitorais, recebeu a maior fatia de votos na primeira rodada de votação em 7 de outubro.



O Brasil moderno nasceu em 1985 quando o regime militar deu lugar a um governo civil. Levados ao poder por um movimento civil-militar que derrubou o governo proto-comunista de João Goulart, os militares decidiram construir um governo baseado na “truculência” e desprezo em relação à liderança civil que os apoiou. Esse comportamento errático levou a erros de série. Para começar, eles politicamente destruíram o principal e mais popular líder conservador da história do Brasil, Carlos Lacerda, pelo simples fato de não aceitarem nenhuma competição.

O general Golbery do Couto e Silva, o idealizador do regime, criou uma teoria política chamada panela de pressão. De acordo com esta teoria, desde que a esquerda foi removida do poder e os guerrilheiros comunistas destruídos, algum espaço teve que ser deixado para o esquerdismo evitar a agitação social.

A área escolhida pelo general como uma saída era precisamente a cultura. Como resultado, depois que os militares finalmente deixaram o poder, todas as saídas culturais foram tomadas pela esquerda. Idéias de esquerda se tornaram hegemônicas nas universidades. Em 1964, a esmagadora maioria dos jornais era abertamente anticomunista. Em 1985, os únicos conservadores que trabalhavam em um jornal de grande circulação, o Estado de São Paulo, eram Lenildo Tabosa Pessoa e Gustavo Corção.



Surpreso com o enorme apoio popular ao exército em 1964, a esquerda decidiu repensar a estratégia da tomada de poder. Através da revista Civilization brasileira, que circulou livremente apesar do regime ditatorial, a esquerda começou a olhar para as idéias do marxismo expressas pelo pensador italiano Antonio Gramsci. Logo, as estratégias de dominação, também conhecidas como "longa marcha pelas instituições", tornaram-se o novo mantra da esquerda.

A esquerda brasileira compreendeu que a tomada de poder não ocorreria por meios violentos. Em vez disso, eles se voltaram para a sistemática infiltração de instituições - incluindo instituições religiosas.

Essa revolução cultural da esquerda brasileira foi extremamente eficiente. Os conservadores e os militares acabaram enfrentando uma guerra de vida ou morte sobre a qual não tinham uma compreensão estratégica de sua natureza. Os conservadores foram assim marginalizados do debate político, acadêmico, editorial e da mídia.

O ponto culminante desse processo de conquista do poder foi a divisão dos despojos políticos entre dois grupos de esquerda que se revezaram na presidência da república.



O Partido dos Trabalhadores e o PSDB nasceram entre os intelectuais da Universidade de São Paulo, mais precisamente no CEBRAP (Centro Brasileiro de Análise e Planejamento), um think-tank financiado pelo Partido Social-Democrata do Brasil e Fundação Ford. Entre os membros dessa organização estavam o sociólogo, teórico da Teoria da Dependência, fundador do PSDB, e o futuro presidente Fernando Henrique Cardoso (FHC), além de uma dúzia de intelectuais radicais que se juntariam aos teólogos da libertação e sindicalistas para criar o PT.

Nos 24 anos seguintes à vitória de FHC nas eleições de 1994, o PT e o PSDB tornaram-se as únicas opções eleitorais. Embora os dois grupos sejam divergentes em algumas questões, eles concordam com os principais objetivos da revolução cultural gramsciana: a destruição da família tradicional e dos arranjos sociais tradicionais, ao mesmo tempo em que promovem o aborto e a ideologia do politicamente correto.

Embora a população brasileira permanecesse majoritariamente ligada a valores considerados conservadores, o sistema político havia sido moldado para garantir a hegemonia esquerdista. Foi o exemplo perfeito do que o teórico político alemão Robert Michels descreveu: “A organização é que dá lugar ao domínio dos eleitos sobre os eleitores, os representantes sobre o povo”.

As mudanças políticas pelas quais o Brasil vem passando nos últimos anos devem muito ao avanço da internet, das redes sociais e da tradução de escritores conservadores para o português. Aqui reside um paralelo entre os movimentos populistas contemporâneos que se levantaram contra o establishment político.



[O] Brexit e outros movimentos anti-sistema ganharam força em parte devido a questões econômicas, mas também porque romperam o bloqueio imposto pela esquerda para criar redes de apoiadores que não tinham medo de serem demonizados pela mídia. Essa revolução contra-cultural rompeu a esquerda no debate político. Mesmo aqueles que não concordam com tudo o que Bolsonaro diz podem ver nele alguém que ousa falar a verdade.

A primeira onda de protestos no Brasil pós-1985 ocorreu em junho de 2013. Começou com um movimento de extrema-esquerda exigindo transporte público gratuito na cidade de São Paulo, mas rapidamente evoluiu para um movimento de massas contra o sistema político como um todo. A esquerda, especialmente o PT, tentou mobilizar o movimento para expandir seu poder, mas esqueceu que o PT era o próprio sistema.

Em pouco tempo, pessoas que nunca tiveram participação política ativa começaram a se engajar principalmente através da internet. Muitos jovens conservadores perceberam que havia todo um mundo político que eles não conheciam; Assim, começaram a construir redes informais de comunicação para a distribuição de informações.

Esses conservadores aprenderam a imitar as táticas da esquerda, que comprovaram ter dominado durante a crise política que culminou com o depoimento da ex-presidente Dilma Rousseff em 2016, devido a uma mistura de corrupção e colapso econômico. A onda que varreu o Brasil na eleição presidencial destruiu eleitoralmente o PSDB. O partido que dividiu o poder com o PT e serviu como meio pelo qual a esquerda dominou o eleitorado conservador foi reduzido à irrelevância.

Precisamente no momento em que a esquerda começou a perder sua hegemonia cultural, a figura politicamente incorreta de Bolsonaro, um capitão do exército aposentado, conseguiu catalisar o sentimento de rebelião de parte significativa da população brasileira contra o sistema político que se formou pela esquerda nos últimos 40 anos. Ele é, antes de tudo, uma mudança real na vida política brasileira em direção a uma sociedade mais decente.

Em suma, a eleição brasileira sugere que, entre outras coisas, a dominância cultural da esquerda deixada pelo Brasil foi destruída, e a direita está renascendo. O próximo passo será verificar se os conservadores brasileiros e os liberais clássicos podem consolidar seus ganhos cultural e politicamente.


COMPARTILHAR

Edição:

Somos uma mídia independente, oferecendo conteúdo com perspectiva cristã através de comentários sobre notícias do Brasil e do mundo. Para apoiar, compartilhe nossos textos e curta a página no Facebook.