Pesquisa: 60% dos professores sofrem esgotamento emocional nas escolas


Uma pesquisa feita com 15 mil relatos de professores, realizada pela Universidade Nova, em Portugal, a pedido da Federação Nacional de Professores (Fenprof) do país, revelou que mais de 60% dos docentes sofrem de exaustão emocional, um quadro clínico que em nada difere dos professores brasileiros.


Segundo a pesquisa, a exaustão é provocada por causas como a excessiva burocracia e a indisciplina dos alunos. No contexto brasileiro, podemos imaginar o quanto as condições precárias de trabalho, além do baixo salário, podem agravar significativamente a situação.

Através de um acordo de cooperação com os pesquisadores, as organizações sindicais distribuíram pelas escolas milhares de inquéritos com mais de cem perguntas sobre 'burnout', desgaste e 'stress' sócio-ocupacional, cansaço e mal-estar, mas também sobre dados sociodemográficos.

Mais de 65 mil professores revelaram "níveis preocupantes de exaustão emocional", uma das três características de 'burnout', revelou Raquel Varela, líder da equipe que conduziu a pesquisa, segundo informações do site português Diário de Notícias.


Para a investigadora, "a exaustão emocional apresenta valores elevadíssimos" entre a classe dos professores, atingindo mais de 60% dos inquiridos.

O estudo mostra que os docentes mais velhos são os que mais sofrem de exaustão, com forte incidência nos profissionais com mais de 55 anos.

O 'burnout' é causado por uma exaustão ou 'stress' profissional, despersonalização e diminuição da realização pessoal e profissional.

Os professores em 'burnout' têm a sensação de não conseguirem acompanhar os alunos individualmente nem as múltiplas tarefas burocráticas que lhes são exigidas na escola, contou.

"Particularmente todos os professores estão cansados. Há mais professores cansados do que professores em 'burnout', devido à extensão do horário de trabalho e a intensificação das tarefas dentro do horário de trabalho", sublinhou.

Falta de realização pessoal dos professores


Outro dado importante revelado na pesquisa é que 42,5% dos professores revelaram não se sentirem realizados profissionalmente, tornando esse "um setor com níveis preocupantes de realização", segundo Raquel Varela.


O confronto entre as expectativas e a realidade profissional do dia-a-dia é um dos fatores para os baixos níveis de realização profissional dos professores que se veem confrontados com uma "intensa falta de autonomia, pouca influência nos currículos e na gestão da escola".

Um trabalho "muito vigiado, muito repetitivo e onde os professores sentem que não conseguem dar resposta às necessidades dos alunos e da sociedade" são outros dos problemas identificados.

Já os índices de despersonalização são relativamente baixos, segundo Raquel Varela que explicou à Lusa que a despersonalização se verifica quando o professor deixa de ver os alunos como indivíduos, mas sim "como uma linha de montagem", passando a haver um afastamento emocional.

No entanto, a pesquisa mostra que, "para a maioria dos professores, os alunos continuam a ser importantes. Apesar do elevado grau de exaustão emocional, os professores gostam dos alunos", sublinhou.

Comentário:

O trabalho dos professores exige aprimoramento emocional e intelectual constantes. Isso já é, por si mesmo, cansativo. Conseguir atender essa demanda em um contexto onde o seu trabalho é dificultado por excesso de cobranças, falta de segurança, desvalorização econômica e precariedade de recursos é praticamente impossível.


É interessante notar que a pesquisa revela a importância que os docentes deram ao relacionamento com os alunos. Aqui está o "X" da questão, o que explica o fato de muitos continuarem se submetendo a tais condições. Ao mesmo tempo, isso revela que o esgotamento emocional não é fruto de uma insatisfação com a profissão, mas sim com o meio que não lhe favorece.

Essa realidade trazida para o contexto brasileiro se torna espantosa, por exemplo, quando acrescentamos o aumento da violência escolar, inclusive contra os professores. Nesse caso, medidas socioeducativas como a Lei Harfouche podem ajudar, mas é preciso valorizar muito mais a docência no país e substituir nossa cultura do "pão e circo" pelos livros.


Comentário: Will R. Filho

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