Opinião - Marina Silva: Indispensável para a democracia, mas insuficiente para governar


Acredito não ter dúvidas sobre a idoneidade e boas intenções da pré-candidata Marina Silva, assim como do seu potencial humano de lidar com questões sensíveis na sociedade como um todo.

Por trás da figura política, há uma pessoa cuja história e caráter parecem admiráveis, dignos de lhe fazer honrar um cargo de autoridade na vida pública. Quem já leu o livro "Marina - A vida por uma Causa", certamente possui uma noção mais precisa dessa opinião.


Todavia, tendo em consideração o caos político, jurídico e cultural em que vive o Brasil (e fora dele), especialmente após a deflagração da operação Lava Jato em 17 de março de 2014, revelando o maior esquema - institucionalizado - de corrupção do mundo, não vejo mais em Marina Silva a ousadia, "sangue frio" e firmeza necessários para lidar com todas essas demandas.

Para cada contexto um perfil diferente de gestor


Um bom analista de comportamento, quando vai fazer uma seleção de emprego para um cargo de liderança, ele considera vários fatores. Nem sempre qualidades pessoais e o nível de conhecimento de um candidato ao emprego são determinantes.

Uma das principais metas do analista é encontrar a pessoa certa para o contexto certo. A situação (demanda) é o que define o perfil do candidato selecionado. É por esse motivo que bons currículos não garantem a seleção em algumas circunstâncias, pois, na prática, a exigência do cargo é o que vai pesar na hora da contratação.


Em outras palavras, como analista, não poderei selecionar um intelectual para o cargo de operador de máquinas. Da mesma forma, não irei selecionar um operador para administrar o setor de inovação e tecnologia.

O Brasil também é parecido com uma empresa, tendo suas próprias demandas. Quem financia ela somos nós, os investidores e trabalhadores. O chamado "povo". Mas o sucesso ou fracasso dessa empresa depende também do perfil do seu administrador. De quem o povo vai eleger para o cargo de gerente.

O crescimento da economia norte-americana no Governo Trump, por exemplo, não se dá por acaso. Donald Trump é um excelente administrador e negociante, de perfil agressivo. Sua fortuna, enquanto empresário, faz jus à herança que recebeu da família, pois, do contrário, seu império não teria crescido, mas sim falido.

Isto não significa que é necessário ser um empresário (administrador) para gerir um país, mas ter algumas das qualidades que compõem esse perfil é fundamental. Quantas delas podemos ver em Marina Silva para o atual cenário do Brasil?

Mudança de contexto


De 2014 para cá, vimos que o maior problema do país é a corrupção (já sabíamos disso, mas a Lava Jato transformou isso em números, comprovando o fato). Dela, todos os outros como saúde, segurança, educação e economia são consequências.

A corrupção do Brasil é institucional e politicamente cultural, profundamente enraizada no modus operandi dos partidos e sua lógica de poder. Definitivamente, não há como enfrentar os problemas setoriais do país sem o combate agressivo à corrupção.


Marina Silva apóia a Lava Jato e o Poder Judiciário, mas ainda assim ela não manifesta uma postura incisiva contra os figurões da corrupção. Ela trata com respeito ou, no mínimo, muita cautela criminosos como Dirceu, Lula, Cabral, Cunha e outros.

Marina lida com passividade declarações afrontosas de partidos que nitidamente desprezam o poder público e ameaçam a estabilidade do país, quando deveria ser muito contundente e condenar de forma taxativa qualquer incitação ao caos. Sua delicadeza e excesso de polidez na seleção das palavras não produzem firmeza, que por sua vez não transmite confiança, o que é crucial na vida pública.

Já tentou imaginar o pronunciamento de Marina Silva em rede nacional, na situação hipotética de um Brasil na beira de uma guerra civil, tomado pelo crime organizado ou enfrentando greves e bloqueios constantes?

O mesmo acontece nos aspectos morais e éticos, algo que em nome do seu conceito de Estado laico, confunde a própria responsabilidade de se posicionar enquanto pessoa e possível governante, com o dever de representar seus eleitores. Sua proposta de plebiscito para questões como o aborto e descriminalização da maconha, por exemplo, é um sinal de fraqueza e não de democracia.

Querer falar em nome de um "povo" é o grande erro de Marina Silva. "Povo" é o termo abstrato utilizado por políticos populistas que tentam manipular o senso comum para fazer parecer que são admirados por todos, quando não são.


Não há político que agrade a todos. Não há gestão que alcance esse feito, fazendo com que todos sintam-se bem representados em seus princípios e valores. O voto por si só é seletivo e isso já diz muita coisa. O político consciente disso, antes do "povo", fala diretamente para seus eleitores.

Governar para todos não é o mesmo que agradar a todos. E quem elege o governante espera ser representado pelo voto. Mas, como ser representado em questões tão importantes para a sociedade quando o governante decide transferir a responsabilidade para um plebiscito? Há exceção, sim, mas há também assuntos inegociáveis para muitos.

Quais são os assuntos inegociáveis de Marina Silva?

A cautela e o raciocínio abstrato (e inteligente) de Marina Silva é excelente para uma sala de aula, em uma palestra, obra literária ou mesmo em cargos como o Ministério da Cultura, Educação ou Meio Ambiente (como já ocupou e fez um bom trabalho), mas seria o suficiente para gerir um Brasil tomado por ideologias e corrupção?

Penso que, definitivamente, Marina Silva é indispensável para a nossa democracia, mas no atual contexto de caos em que vivemos é insuficiente para governar o Brasil.


Por: Will R. Filho

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