Morte por overdose esconde casos de suicídio não catalogados, dizem especialistas


Das dezenas de milhares de pessoas que morrem de uma overdose por opiáceos nos Estados Unidos a cada ano, algumas morreram por suicídio.

"No entanto, a maioria das estratégias para reduzir as mortes por overdose de opióides não inclui a triagem para o risco de suicídio, nem abordam a necessidade de adaptar intervenções para pessoas suicidas", escreveu Drª. Maria A. Oquendo, ex-presidente da Associação Americana de Psiquiatria, professora e presidente do Departamento de Psiquiatria da Escola de Medicina Perelman, da Universidade da Pensilvânia, e Drª. Nora Volkow, diretora do Instituto Nacional sobre Abuso de Drogas, em um comentário publicado no New England Journal of Medicine, em abril.



“Não tem havido muita atenção na ideia de que muitas dessas pessoas podem estar fazendo isso intencionalmente”, disse Oquendo ao Psychiatric News . "O que eles precisam é de um tipo muito diferente de intervenção - uma que aborde sua ideação suicida subjacente".

No comentário, intitulado “Suicídio: um contribuinte silencioso para mortes por overdose de opióides”, Oquendo e Volkow observaram que os suicídios por overdose de opióides aumentaram de 2,2% em 1999 para 4,3% em 2014, com os maiores aumentos ocorrendo entre pessoas de 45 a 64 anos. de idade. (Sem uma nota de suicídio, o conhecimento da causa da morte, conforme determinada pelo legista ou médico legista, é baseada na autópsia, na informação coletada na cena da morte e em evidências circunstanciais, observaram os autores).



"A distinção entre mortes não intencionais e volicionais pode ser prejudicada entre pessoas com OUD [transtorno de uso de opiáceos], cuja motivação para viver pode ser corroída pelo vício", escreveram Oquendo e Volkow.

“Tal erosão pode ter uma variedade de efeitos, desde o engajamento em comportamentos cada vez mais arriscados, apesar da falta de intenção suicida consciente de franca ideação e intenção suicida. Todo este espectro pode levar a mortes por overdose de opiáceos, mas pouca atenção tem sido dada à sua contribuição para a mortalidade por overdose”, completam.

Estudos anteriores mostraram que pessoas com OUD têm um risco aumentado de ideação suicida e mais probabilidade de tentar o suicídio em comparação com pessoas que não procuram tratamento para OUD.



"Mesmo as pessoas consideradas mortas por uma 'overdose não intencional', freqüentemente tinham fatores de risco suicidas: depressão, transtornos por uso de substâncias e problemas financeiros", escreveram Oquendo e Volkow.

Enquanto elas elogiaram os esforços atuais para mudar as práticas de prescrição de opióides e expandir o acesso a tratamentos assistidos por medicação para OUD, elas observaram que mais pode ser feito para educar os médicos sobre a necessidade de rastrear o risco de suicídio em pacientes com condições para as quais os opióides são prescritos, especialmente por dor crônica e naqueles com transtorno por uso de substâncias.

Além disso, recomendaram a padronização da triagem e do encaminhamento ao tratamento para o risco de suicídio em pacientes que se apresentam nos departamentos de emergência por overdose, além da mehoria no modo como as mortes por overdose de medicamentos são classificadas.



Oquendo acrescentou que são necessários estudos adicionais “para entender por que essas pessoas são tão vulneráveis ​​psicossocial e biologicamente”. “Pesquisas destinadas ao desenvolvimento e validação de ferramentas de rastreamento para ajudar a caracterizar o risco de intenção suicida, melhoraria a identificação de pessoas que estão em maior risco”, escreveu Oquendo e Volkow.

As autoras também sugeriram que campanhas de educação para aumentar a conscientização pública e reduzir o estigma associado ao suicídio e ao vício em drogas podem tornar as pessoas mais dispostas a procurar tratamento.

"Essas duas epidemias estão misturadas e as soluções para enfrentar a crise de opioides exigem que nós adaptemos as intervenções para evitar mortes por overdose de opiáceos devido à intenção suicida", concluíram.

Comentário:

A percepção das autoras e a linha de pesquisa do estudo é excelente e muito pertinente. Elas, de fato, reconhecem uma realidade constante entre os usuários de drogas, legais e ilegais. É comum a ideação suicida em algumas momentos da dependência química, especialmente quando o quadro é grave, onde o indivíduo já buscou ajuda e não obteve sucesso em seu tratamento.



A triagem e o desenvolvimento de ferramentas que possam ajudar na identificação de pessoas em maior risco de ideação suicida, sem dúvida passa pelo trabalho de todos os profissionais envolvidos com a saúde mental, especialmente os psicólogos.

Boa parte dessa abordagem passa pela compreensão da dependência química. Suas causas, sobretudo, fenomenológicas. Sem esse entendimento, dificilmente o profissional terá condições de entrar no campo sensível onde reside a motivação para o uso da droga.


Fonte: APA
Comentário: Will R. Filho

COMPARTILHAR

Edição:

Somos uma mídia independente, oferecendo conteúdo com perspectiva cristã através de comentários sobre notícias do Brasil e do mundo. Para apoiar, compartilhe nossos textos e curta a página no Facebook.