Doutor em História critica a esquerda por ignorar caos na Venezuela: "Cenário de indigência intelectual"


Uma Esquerda que não sabe o que defende, nunca fará autocrítica.


Certa Esquerda brasileira não perde tempo em se ridicularizar. É impressionante o gosto que ela tem em se desmoralizar em razão de minutos ao dia. Parece disputar palmo a palmo com as figuras mais grotescas do cenário artístico (leia-se comédia pastelão, programas de auditório e de humor). É possível que hoje em dia nem Miss faça declarações tão impertinentes quanto as lideranças de parcela graúda da esquerda nacional.

Os comentários e teses – estaria mais para bordões  - sobre a questão venezuelanas são eloquentes. E mais um exemplo triste, pra não dizer macabro, do cenário de indigência intelectual que grassa nos seus quadros intelectuais.

Decidida a não discutir um miligrama do que se passa naquelas terras, com um mínimo de senso crítico e com rigor teórico, tal corrente política prefere recorrer exclusivamente a clichês e bravatas capengas, datadas. Mais grave: o uso de espantalhos, antes atributos de certa direita histérica, é recorrente. A chalaça toma o lugar da análise.


A grave crise pela qual passa o país Venezuela, com repercussões sociais, políticas e econômicas evidentes, não parece ser motivo para um esforço de compreensão do regime chavista, a sua política econômica, as relações comerciais externas, o projeto econômico para o pais, a existência de uma política industrial, as relações com os grupos sociais, as formas de democratização do Estado (se é que existem) etc. O momento exige apenas um estudo profundo e honesto sobre os limites, desafios e impasses do regime vigente na Venezuela, buscando fugir das retóricas institucionais, detendo-se exclusivamente a avaliar o efetivo compromisso de seus dirigentes com uma sociedade socialista.

Mas não.

Certa Esquerda toma apenas como ponto de partida a pieguice. Adota como princípio de análise a total rendição à retórica do Governo Maduro, como se ele fosse a expressão da verdade revolucionária, como se a mais reles tentativa de questioná-lo se constituísse num crime inafiançável para quem realmente estivesse comprometido com a revolução socialista. Maduro mesmo ainda vivo, já parece ter sido embalsamado simbolicamente, sendo exposto pomposamente na câmara ardente dos heróis da Esquerda Mundial. Confrontá-lo parece ser um ato exclusivo de reacionários quinta-colunistas, ávidos por desqualificar o paraíso socialista forjado um pouco acima da Linha do Equador.

Nem mesmo há uma crise. Que crise? Ela só existe nas mentes colonizadas pela imprensa, parcial e burguesa, paga (direta ou indiretamente) pelo Imperialismo estadunidense.

E aí tocamos no cerne da “análise” das nossas esquerdas: a crise venezuelana não passa de mais uma investida do Imperialismo de Trump para tomar o petróleo bolivariano e destruir as conquistas da revolução de Chavez, o passarinho. Pressupõe-se, portanto, que os EUA querem destruir a Maduro para poderem usufruir algo que o regime bolivariano - por ser socialista e marcadamente nacionalista - impede de usufruir: o ouro negro.

O modelo mental é tão coeso e inexpugnável que ele cinicamente dá de ombros para certas evidências, que teimam em denunciar o engodo da formulação que toma o chavismo e seus herdeiros em guardiões da revolução socialista.

O que faz um bastião do Socialismo – estou falando da Venezuela – vendendo o seu mais precioso bem, o petróleo, para o Império mais ardiloso e selvagem do capitalismo, os Estados Unidos?(i)

Sim, a Venezuela do Regime Chavista é o terceiro maior fornecedor de Petróleo aos EUA. 30% do petróleo venezuelano é comprado pelos “imperialistas do Norte”. Como explicar isso?

Como explicar que a PDVSA (Petróleos de Venezuela) possui uma empresa, a Citgo, que atua nos EUA, responsável pela comercialização do combustível em território norte-americano, e com isso,
rendendo impostos e ganhos para o mesmo?

Como se explica que em 2011, o Governo de Chávez tenha vendido títulos da dívida da PDVSA ao banco Goldman Sachs (com sede no mesmíssimo “Império do mal” estadunidense) em condições vantajosíssimas para os norte-americanos?

O que poderia explicar que numa sanção dos EUA contra a Venezuela - como a tomada por D. Trump no início de agosto - ela consista no bloqueio de bens e dólares – vou repetir: bens e dólares! – de funcionários do Executivo e do Judiciário (Bolivarianos, suponho) todos investidos e enterrados nos EUA? (Isso mesmo, não se trata de bens e dinheiro investidos em Cuba, Coréia do Norte ou Venezuela, mas nos United States of America.)

Em suma, é realmente impressionante que a esquerda se mobilize para a defesa de um regime tão grotesco. Que no fundo faz a festa e a alegria dos imperialistas yankees.

A recusa dessa esquerda em analisar seriamente o que ali se passa, e daí tomar partido de maneira mais consistente, espelha a sua própria indigência, a sua pobreza de perspectiva, o seu fracasso, em suma.


Por: Dr. Leonardo Soares dos Santos
Historiador, professor do NEEP/UFRJ/UFF/Campos e um dos editores-chefe da Revista Convergência Crítica, ligada ao Núcleo de Pesquisa e Estudo em Teoria Social (NEPETS).


(i) Ver a reportagem do El País sobre o assunto, clicando aqui.

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