"Geração selfie" - Quando a imagem esconde um pedido por aceitação e autoestima

Qual é o problema em tirar fotos de si mesmo e publicar nas redes sociais uma vez e outra? Será que o chamado "selfie" pode ser algo preocupante do ponto de vista psicológico, quando praticado em excesso?


Difícil conhecer alguém atualmente que não saiba o que significa "selfie", o simples gesto de tirar fotos de si mesmo ou de um grupo utilizando o aparelho celular. As fotos pessoais, também chamadas de autorretratos, tiveram um crescimento avassalador. Apenas em 2013 a busca pelo termo "selfie" aumentou 17000%, levando os organizadores do Dicionário Oxford elege-la como a palavra mais popular daquele ano.


Sem dúvida o selfie não é um problema em si. Não há nada de errado em tirar fotos de si mesmo para publicar em suas redes sociais.

Há pessoas que realmente gostam de tirar fotos e vivem fazendo isso sem qualquer fator emocional "patológico" implícito nessa prática, mas apenas pelo prazer de enxergar a sua imagem estampada numa tela qualquer.

Entretanto, o comportamento humano é resultado em grande parte do seu contexto, da cultura que pertence e como este reage à ela. Não é por acaso, por exemplo, o aumento de 17000% nas buscas pelo termo "selfie" apenas em 2013. Isso ocorre porque no mundo globalizado, onde as barreiras territoriais são facilmente vencidas pelos meios de comunicação, compartilhamos também as "modas" boas e ruins do planeta inteiro em fração de minutos.

Nesse universo conectado, observamos também que o selfie para muitos pode não ser apenas uma foto compartilhada, mas uma linguagem do comportamento de alguém que utiliza seu autorretrato para tentar demonstrar algo que não consegue "provar", ou alcançar, na vida real.

A imagem manipulável, editada, muitas vezes uma fotografia repetidas à exaustão até ficar com o ângulo "perfeito", pode ser nada mais do que alguém tentando conquistar através da foto as "curtidas" e "compartilhamentos" que para ele(a) tentam suprir a falta de aceitação e valor da vida real.

Selfie - Narcisismo, modismo ou gosto pessoal?


O narcisismo é uma definição utilizada a partir do final do século XIX para explicar o amor de uma pessoa pela própria imagem. Baseado no mito de Narciso, personagem da mitologia grega, teóricos como Sigmund Freud, o pai da Psicanálise, classificou a pessoa "narcísica" como alguém incapaz de enxergar o mundo além da própria imagem.

A psiquiatria adotou o termo narcisismo, passando a definir como um "transtorno" de personalidade pessoas que admiram excessivamente o próprio corpo (imagem) no Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais (DSM).

Tais pessoas buscam demasiadamente admiração, valor próprio e possuem dificuldade de enxergar outras coisas coisas como importantes, sendo capazes de adaptar todos os afazeres da sua vida ao objetivo maior de se verem sempre "aprovadas" por elas mesmas e pelos outros, de maneira que a imagem que enxergam no próprio espelho (leia-se: tela do celular) se torna uma preocupação constante.


O modismo, por outro lado, não é um "transtorno", mas uma aquisição de pensamento e/ou comportamento devido à influência da cultura e do grupo que a pessoa pertence. Neste caso, falamos aqui do grupo "sociedade", onde todos estamos inseridos. Todavia, apesar de vivermos no mesmo grupo "sociedade", nem todos compartilham das mesmas culturas, o que explica o fato de alguns não serem influenciados pelos modismos.

O gosto pessoal é fruto da personalidade de uma pessoa, geralmente sem excessos, constante, não costuma ser prejudicial. Um determinado comportamento ou pensamento movido pelo gosto pessoal caracteriza o "jeito de ser" de uma pessoa e a identifica entre os demais, não sendo algo visto como um "problema" ou inconveniência.


Quando o selfie se torna uma busca por aceitação

Entre modismos, narcisismo ou gosto pessoal, o selfie pode se tornar prejudicial independentemente da classificação que podemos atribuir a uma pessoa. O mais importante aqui não é o rótulo, mas o significado que o comportamento possui dentro de um contexto. Compreender, portanto, o contexto de vida de uma pessoa, é imprescindível para reconhecer o que pode ser fruto de uma personalidade narcísica, da moda ou de um gosto pessoal.


De modo geral, o selfie parece muito mais uma busca por aceitação social quando quem o pratica cria muita expectativa entorno da publicação.

Quando as curtidas, compartilhamentos e comentários se tornam mais importantes do que o simples fato de ter quisto compartilhar um momento da sua vida.

Quando a reação do público assume, para você, valor afetivo, ao ponto de fazer com que você queira cultivar sempre uma "imagem" ou um "padrão" aprovado pelos outros.

Nesses casos, onde o selfie assume valor afetivo, as fotografias geralmente distorcem a realidade. A imagem de alguma forma não corresponde a pessoa em sua vida real. Não se trata da "imagem" (tipo físico), necessariamente, mas do comportamento. A fotografia então surge como uma tentativa de querer transmitir para os outros a imagem de alguém que não existe na realidade, quer no tipo físico ou de personalidade, afetos, gostos, maneira de ser como um todo, etc.

As pessoas que praticam o selfie buscando chamar atenção através das fotografias, podem estar revelando uma "falta" de valor próprio, carência afetiva, insegurança, baixa estima, solidão. As publicações, muitas delas sem significado aparente, refletem a necessidade que essa pessoa tem de se comunicar com o "outro", o "alguém" que falta ao lado (ou nela mesma) para transmitir a sensação de segurança e estima do mundo real.

Por fim, pessoas assim precisam ser compreendidas e se você acredita que se encaixa nessa descrição, assuma uma postura de autocrítica e pense sobre os motivos que te fazem enxergar no selfie algo de valor afetivo de grande importância. No máximo, você vai descobrir se praticar o selfie é apenas um gosto, uma moda, característica narcísica da sua personalidade ou uma linguagem emocional do seu comportamento.



Por: Will R. Filho

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