Psicóloga famosa no Brasil cita a Bíblia para comprovar que acreditar em Deus faz parte da natureza humana


Se falamos em bom uso da liberdade, é porque, na realidade, existe só uma direção geral para o eu-pessoal consciente e livre: a escolha dos caminhos que conduzem ao pleno desabrochar do ser humano. Na prática, isso significa uma contínua opção na escolha de valores, metas, sentido existencial.


Qualquer erro nessa escolha inverte o processo de humanização e joga o homem em direção à animalização. Pois o inconsciente, embora voltado diretamente para proporcionar o agrado ao nível psicofisiológico, globalmente está orientado para o atendimento psicoespiritual do homem.

É o que conhecemos na filosofia por “orientação teleológica” do ser humano: a orientação de cada nível inferior de sua estrutura para o nível imediatamente superior. E para zelar por essa ordem interna no ser humano existem no próprio inconsciente funções de autocensura e autopunição, que desencadeiam a sua ação automaticamente toda vez que o eu-pessoal permite uma inversão dos valores.

Isso é um mecanismo de defesa do nível noológico, pois a inversão de valores, na hierarquia interna do ser humano, é sinônimo de processo de autodestruição do homem.

De acordo com este raciocínio, fala Chauchard, Doutor em Medicina e Ciências e considerado o maior neurofisiólogo do mundo: “Curioso paradoxo: no momento em que os filósofos modernos rejeitam a metafísica, as noções de essência e de natureza, nesta mesma ocasião os biólogos se tornam defensores da noção de natureza humana, daquilo que é ser  homo sapiens.” E prossegue, mais adiante, referindo-se a essa essência: “Há uma moral natural que depende de nossa constituição orgânica. Recusá-la é ignorância que, por sua vez, é uma falta de higiene…” (Chauchard, O Domínio de Si).


De fato, é uma falta de higiene – no sentido de que conduz à falta de saúde – negar a ética natural intrínseca do homem, pois isto leva à inversão de valores. E quando há inversão de valores, as funções inconscientes de autocensura e autopunição expressam-se por meio de sintomas de desequilíbrios psicossomáticos, os quais tendem a ser resistentes à medicação e a outros processos de tratamento.

Criam-se outros grandes sofrimentos, como o medo da morte e a angústia existencial e tantos similares. Assim a nossa terapia evidencia, a partir da experiência, certas verdades sobre a natureza humana que sobreviveram através do tempo e atravessaram milênios.

Pela autocensura inconsciente, nós próprios nos fiscalizamos com muito mais rigor do que o faz qualquer instituição externa de ordem social ou religiosa. E, se não nos apercebemos deste controle exercido em nós pelo eu-pessoal, é porque não estamos acostumados a fazer a introspecção para procurar a causa de muitos dos nossos sofrimentos e angústias, porque preferimos não tomar conhecimento dessas causas, que exigiriam de nós mudanças de atitudes.

No entanto, tais mudanças em função do nosso “bem real” é que nos devolveriam a nossa autêntica liberdade. O próprio Cícero, orador e filósofo do Império Romano, embora pagão, compreendeu esta verdade, a ponto de conceituar tal conduta moral como sinônimo de exercício de liberdade.
Verifica-se, portanto, que o ser humano não é apenas definido claramente em sua constituição intrínseca sob o aspecto mineral, vegetativo e animal, mas também em sua estrutura psicoespiritual.

A sua necessidade ontológica de realizar-se, caminhando em direção à sua plena realização, a qual, por sua vez, resulta da transcendência para os outros e para Deus, não é uma imposição moralista ou religiosa externa ao homem, mas emergente da própria natureza integral de seu ser.

Por outro lado, os valores básicos que se evidenciam naturalmente do homem, para a surpresa de muitos, são semelhantes e estáveis e não relativos à aprendizagem social. Resumem-se, entre outros aspectos, na premente necessidade do homem em julgar-se bom, em sentir-se útil, em achar importante o equilíbrio entre direitos e deveres, em sentir-se feliz pela doação ou pela autotranscendência e em perceber que deve evitar o mal.

O que foi por nós observado encontramos explicado em Santo Tomás e em outros estudiosos do homem e de seus fenômenos moral-religiosos, sociais ou antropológicos. Essa ética presente no homem pode ser resumida ainda no código dos Dez Mandamentos encontrados no Antigo Testamento das Sagradas Escrituras.

Jean Stoezel, professor da Universidade René Descartes de Paris, publicou, em 1983, um livro sobre um levantamento de opiniões realizado em nove países da Europa sobre valores do tempo presente. O questionário, mais tarde analisado por computador, atingiu doze mil pessoas selecionadas dentro de critérios da pesquisa científica e inter-relacionava as mais diversas variáveis.

As respostas finais, embora evidenciassem algumas digressões superficiais, revelavam, no entanto, que, na realidade, o homem de hoje conserva em seu íntimo as mesmas diretrizes de valores moral-religiosos e sociais de todos os tempos, mesmo sobre questões de sexo, família e casamento. As variações para uma moral mais permissiva não estão relacionadas com o mundo moderno, com a época, mas apenas com a idade, ou seja, o jovem, hoje mais permissivo, retorna com o passar do tempo aos conceitos básicos e tradicionais desses valores.

Observe-se, portanto, que semelhante impulso ético natural, embora geralmente conhecido e divulgado de forma normativa e impositiva, é, na realidade, não uma exigência externa, mas uma exigência interna do homem para consigo mesmo.

O eu-pessoal, nesta sua função de coordenador do consciente e inconsciente, busca sua referência na transcendentalidade do homem, na sua abertura para o Absoluto, para o encontro com Deus.

O fenômeno religioso natural ao homem é comprovado. Conhecemo-lo revelado por Jung e, hoje, antropólogos tais como Rudolf Otto, Vander Leew, Wach e outros comprovam não só que todo homem é naturalmente religioso, mas que a forma de compreender Deus é similar através da história dos homens.

Essa experiência, portanto, pode ser sintetizada através de características comuns, apesar da enorme variedade de religiões existentes. Tal possibilidade de síntese prova, acima de tudo, o que já foi aqui mencionado: que o ser humano, como qualquer outro ser, é ontologicamente definido e tem uma estrutura e constituição intrínseca, estável, a qual inclui o aspecto psicoespiritual e ético-religioso.


Renate Jost de Moraes
"As Chaves do Inconsciente" - Agir, 12ª edição

COMPARTILHAR

Edição:

Somos uma mídia independente, oferecendo conteúdo com perspectiva cristã através de comentários sobre notícias do Brasil e do mundo. Para apoiar, compartilhe nossos textos e curta a página no Facebook.

Anterior
Proxima