Por que um cristão não é de esquerda, direita, liberal e nem conservador?


O cristão biblicamente coerente não se vê representado por nenhuma ideologia. Desse modo, para ele são inúteis os termos "direita"ou "esquerda", bem como "conservador"e "liberal".

É por isso que não lhe faz sentido, também, o termo da famosa corrente teológica chamada "Missão Integral" (o resultado no meio protestante da católica "Teologia da Libertação"), visto que ao entender o evangelho de Cristo como autossuficiente e completo, não há outra alternativa na sua pregação, senão o compromisso de ser integral por natureza. Qualquer alusão a uma "missão integral", portanto, é uma crítica à suficiência da mensagem bíblica.

Essa é a perspectiva do Dr. Russell Shedd em "A Justiça Social e a Interpretação Bíblica", onde denuncia a alienação de alguns que se prostituíram intelectualmente, abandonando a genuína pregação das escrituras face a uma interpretação meramente política da condição humana. Sobre isso, ele comenta:

"Na Bíblia, a justiça social tem sua 'raison d ’etrena' relação entre o homem e Deus e na revelação transmitida ao homem registrada nas Escrituras.

Deus é quem garante os fracos, protegendo-os contra o insaciável “desejo de poder” dos fortes. As estruturas ordenadas por Deus para Israel através e Moisés, tinham como um de seus principais objetivos esta imparcialidade de Deus refletida nas instituições que governavam a vida do seu povo da aliança."

Mas entendemos também que há uma necessidade de representatividade social e política, o que faz com que pessoas se identifiquem com perspectivas "A" e "B". Todavia, para o cristão biblicamente coerente, não existem "lados", mas sim Verdades, visto que esta transcende a existência de qualquer lado.


Por essa razão, a Verdade que o cristão biblicamente coerente deve se ocupar, hora pode se parecer com o lado "A", outra com o lado "B", porque isso depende dos atores e circunstâncias envolvidos em ambos os lados. É uma questão de contexto.

O Deus revelado na pessoa do "favelado" Jesus Cristo, por exemplo, é exatamente o mesmo que ordenou a Salomão a construção de um templo magnífico repleto de joias preciosas, e colocou em posição de riqueza figuras como José, Jó e Davi. Isso porque, na essência, a mensagem de Deus, quer no tempo da lei ou no tempo da graça, não assumiu lados ideológicos conforme às expectativas humanas. Deus frustrou todos os conceitos dos que imaginaram poder enquadrá-lo em uma categoria ideológica.

Bem diferente disso, a mensagem de Deus sempre foi baseada na Verdade, algo confirmado por Cristo em sua oração, como está escrito: "Santifica-os na tua verdade; a tua palavra é a verdade" (João 17:17)

Ao pedir a Deus que santificasse seus discípulos na Verdade, referindo-se aos escritos bíblicos, ("palavra"), Cristo deixou claro que o testemunho bíblico é a regra de fé e prática definitiva para o cristão. Isso diz respeito não a uma concepção "religiosa", como alguns podem pensar, mas a uma cosmovisão, o que significa preceitos éticos/morais, a vida social como um todo.

David T. Koyzis, autor de "Visões e Ilusões Políticas", doutor em Filosofia pela Universidade de Notre Dame, defende o mesmo que o Dr. Shedd já citado acima. Para ele, o evangelho não se enquadra em qualquer categoria ideológica, filosófica, política, porque é a Verdade revelada de Deus. Koyzis vai mais longe e trata as ideologias como uma forma de idolatria, apresentando como cada vertente política pode constituir uma visão ideológica idólatra; “as ideologias são inevitavelmente religiosas", diz ele.

Deus não está ao lado de classes sociais


Desse modo, Deus não escolheu os pobres para estar ao seu lado e serem representados pela "esquerda", muito menos os ricos e conservadores para serem de "direita". Deus decidiu estar ao lado do que é certo, porque essa é a concepção ética do que entendemos como Verdade e Ele é a própria Verdade. Sendo assim, Deus está ao lado do injustiçado, oprimido e excluído, não porque eles possuem alguma preferência, mas porque injustiça, opressão e exclusão são coisas erradas diante dEle.

Saber discernir isso, esses contextos e seus atores é fundamental para que um cristão não se prostitua com ideologias e, assim, deixe de seguir a Verdade que transcende toda e qualquer concepção humana fazendo com que a justiça e o que é certo se perpetuem, sempre.

Neste sentido, a concepção de Verdade bíblica supera qualquer ideia sobre o significado de ser "conservador" ou "liberal", por exemplo, já que são apenas rótulos ideológicos incapazes de traduzir a amplitude do que significa seguir a Cristo como a Verdade absoluta de Deus.

Finalmente, para esse cristão a Verdade bíblica é o único foco capaz de lhe dizer qual "lado" deve estar, de modo que tudo que contraria seus preceitos devem ser por ele não apenas descartados, como denunciados.

Esse cristão até pode se identificar com rótulos, grupos sociais, pois como dito acima, há uma necessidade de representatividade cujos termos linguísticos, políticos e ideológicos cumprem a função de distinguir ideias, valores, etc. Todavia, ele tem o dever de se preocupar em não se ver aprisionado por nenhum deles, uma vez todos são falhos e insuficientes perante o evangelho de Cristo.

O cristão que não entende isso é inevitavelmente seduzido por alguma ideologia, visto que deixou de enxergar o mundo sob  às lentes da Verdade bíblica. Ele se reduz, fica menor e limitada sua compreensão. Escolhe um lado para chamar de seu e deixa de vivenciar a proposta do evangelho, quer para o "esquerdista progressista" que acredita lutar em favor do pobres, ou do "direitista e conservador" que pensa falar em nome de Deus, mas não o reconhece através das suas ações.

Pense nisso.
Por: Will R. Filho

COMPARTILHAR

Edição:

Somos uma mídia independente, oferecendo conteúdo com perspectiva cristã através de comentários sobre notícias do Brasil e do mundo. Para apoiar, compartilhe nossos textos e curta a página no Facebook.

Anterior
Proxima