A "onda calvinista" no Brasil não tem relação alguma com o calvinismo - Entenda


Não existe "onda calvinista" no Brasil. Essa ideia é um equívoco que parte da ausência de uma leitura conjuntural do contexto religioso em nossa época. Esse texto visa apresentar de forma objetiva os motivos pelos quais podemos entender esse fenômeno por outra perspectiva.


Alguns teólogos estão afirmando que no Brasil está havendo uma "onda calvinista". Ou seja, que cada vez mais pessoas, especialmente os jovens, estão sendo atraídas para a corrente de pensamento baseada na interpretação bíblica do teólogo francês João Calvino (1509 - 1564), um dos principais nomes da Reforma Protestante que este ano completa 500 anos de história.

Entretanto, a identificação com a chamada "teologia reformada" pode ser explicada por outros aspectos, visto que a maioria dos cristãos evangélicos que dizem se identificar com líderes e obras calvinistas não conhecem com profundidade os pressupostos dessa vertente teológica, especialmente os conflituosos. Portanto, diferente do que muitos imaginam, a "onda calvinista" é muito mais uma reação de "deslocamento cultural" de uma população religiosa com base na deterioração das suas bases culturais, do que à adesão racional de uma perspectiva doutrinária.


Em outras palavras, infelizmente houve no Brasil (no mundo) das últimas décadas o enfraquecimento (doutrinário) de alguns segmentos religiosos de tradição histórica que reúnem boa parte dos cristãos evangélicos. É o caso, por exemplo, da igreja Batista, Metodista, Luterana e da pentecostal Assembleia de Deus. Isso ocorreu devido à prostituição intelectual de muitos líderes face ao relativismo radical infiltrado nessas igrejas, originado principalmente do ativismo político-ideológico de teologias liberais.

Outro aspecto negativo que ajudou influenciar essa fragmentação doutrinária e consequente perca de identidade foi o "mercantilismo religioso".

Não foi apenas por aspectos político-ideológicos que muitos prostituíram sua fé, mas também por interesses comerciais. Transformando a pregação do evangelho em "produto", a abertura de igrejas em investimento e o ministério pastoral em mero "trabalho", o verdadeiro ensino de Jesus Cristo deixou de ser anunciado, substituído por mensagens de autoajuda, filosofia positivista e outros interesses. Dessa forma, muitos convertidos não tiveram uma formação sólida na doutrina dessas igrejas, porque foram/são vistos muito mais como "clientes" do que como partes do corpo cristão.

Assim, o enfraquecimento do corpo doutrinário desses segmentos produziu/produz algo comum no aspecto social e muito bem argumentado pelo sociólogo Stuart Hall, que é a "crise de identidade" em suas populações, deixando-as desamparadas de "sentido" e "referência" nos momentos que mais precisam de ajuda, provocando a tal "onda" que nada mais é do que uma busca por identidade religiosa como forma de sustentação moral diante das incertezas.

O motivo pelo qual esse fenômeno de migração de identidade religiosa se dá/deu no sentido "calvinista", no entanto, pode ser multifatorial, mas é possível entender que a maior ênfase nas "cinco solas" como elemento central da doutrina e comum entre todos os segmentos protestantes, parece ser o maior deles, visto que isso ocupa de forma suficiente o lugar de referência dogmática que todo fiel necessita para lhe servir como norte na experiência de fé. Perceba que nos outros segmentos é justamente a falta de ênfase e clima de "relativismo" acerca desses fundamentos como pilares da Reforma que têm produzido a "crise de identidade" em boa parte dos fiéis, o que já não é comum no meio calvinista.

Finalmente, esse fenômeno é ruim por um lado, mas bom por outro. Ele não tem relação alguma com o que tais pessoas entendem sobre o que é ser "calvinista" ou "arminiano", o que é triste, pois revela que a natureza do problema diz respeito a uma fragilidade no contexto doutrinário de várias igrejas, fazendo com que muitos busquem o que parece mais seguro em um contexto de crise. Esse é o lado ruim.

Entretanto, o lado bom é que esse momento deve permitir que os líderes dos segmentos protestantes façam uma reflexão acentuada sobre os motivos dessa fragmentação de identidades e consequente "deslocamento", para que não apenas a Igreja de Cristo se fortaleça como um todo, corrigindo seus erros, mas também para que o Brasil saiba que o evangelho não consiste de interpretações humanas, mas da exclusiva revelação de Deus.

Por: Will R. Filho

COMPARTILHAR

Edição:

Somos uma mídia independente, oferecendo conteúdo com perspectiva cristã através de comentários sobre notícias do Brasil e do mundo. Para apoiar, compartilhe nossos textos e curta a página no Facebook.

Anterior
Proxima