O Apóstolo Paulo e o machismo na Bíblia - Deus é homem ou mulher?


Alguns dias atrás tive a infelicidade de ouvir durante uma classe de jovens em uma igreja evangélica batista, o professor dizer que o Apóstolo Paulo era "machista". Entre outras insinuações, o tal professor também questionou o fato de Deus ser associado a figura masculina, como um "homem" e não como uma "mulher", deixando implícito no seu questionamento a ideia de que tal referência seria devido a tradição patriarcal judaica e, portanto, supostamente "machista". Por onde começamos?

Foi minha primeira vez na sala. Aliás, não conhecia o professor e nem poderia ser chamado de membro da congregação, ao menos legalmente. Sendo assim, me limitei a dizer apenas que "discordo radicalmente da sua opinião", fazendo uma breve explicação, porém, sem entrar no mérito teológico, histórico e político por trás da falsa ideia de que o Apóstolo Paulo teria sido machista e que a Bíblia é um livro machista.


O discurso feminista como viés de interpretação bíblica



A visão do tal professor é um produto do discurso feminista dos últimos 30 anos. Alguns classificariam tal concepção como sendo uma "teologia feminista". Eu, porém, não vejo qualquer análise teológica nesse discurso, senão ideologia política.

Desde o momento em que o cristianismo foi posto como fonte de todo "moralismo" ocidental e principal responsável pela instituição da divisão de classe familiar, entre homem (patrão), mulher (meio de produção) e filhos (operários) em "A Origem da Família, da Propriedade Privada e do Estado", escrito por Friedrich Engels, o feminismo se apropriou desse discurso político-ideológico, ignorando todos os outros fundamentos do conhecimento científico humano.

Não foi diferente com a Teologia Cristã, que influenciada por esse discurso, importou para a interpretação bíblica a crítica histórica de Angels e Max, que tentaram desconstruir a doutrina bíblica sobre família e relacionamento entre homem e mulher.

Esse tipo de feminismo não tem relação com a luta justa das mulheres por direitos iguais na sociedade, por exemplo. A ideologia que abordamos é mais ampla e sua intenção envolve também a negação da natureza sexual.

A família segundo o modelo bíblico passou a ser combatida, pois, para tais ideólogos, ela significa o resultado de uma herança patriarcal, "machista" e "misógena" (desprezo pelas mulheres) dos judeus transmitida aos cristãos, consequentemente ao mundo inteiro. É com base nesse conceito raso acerca da história bíblica, da antropologia, biologia e da sociologia, que o professor mencionado acima ecoa o que para ele é um discurso "machista" do Apóstolo Paulo contra as mulheres.


Submissão não é subserviência e Cristo não é produto de um discurso


Assim como o dito professor, muitos acusam a concepção familiar bíblica de "machista" porque não compreendem o significado do termo "submissão". Pior ainda, os que criticam o ensino bíblico de "submissão" das mulheres aos seus maridos fazem isso de forma descontextualizada, desonesta e, portanto, distante do que a Bíblia realmente ensina sobre isso. Para entender, você - precisa - ler a passagem abaixo:

"Vós, mulheres, sujeitai-vos a vossos maridos, como ao Senhor;

Porque o marido é a cabeça da mulher, como também Cristo é a cabeça da igreja, sendo ele próprio o salvador do corpo.

De sorte que, assim como a igreja está sujeita a Cristo, assim também as mulheres sejam em tudo sujeitas a seus maridos.

Vós, maridos, amai vossas mulheres, como também Cristo amou a igreja, e a si mesmo se entregou por ela,

Para a santificar, purificando-a com a lavagem da água, pela palavra,

Para a apresentar a si mesmo igreja gloriosa, sem mácula, nem ruga, nem coisa semelhante, mas santa e irrepreensível.

Assim devem ["como também Cristo amou a igreja..."] os maridos amar as suas próprias mulheres, como a seus próprios corpos. Quem ama a sua mulher, ama-se a si mesmo.

Porque nunca ninguém odiou a sua própria carne; antes a alimenta e sustenta [ou seja: cuida, protege, supre!], como também o Senhor à igreja;

Porque somos membros do seu corpo, da sua carne, e dos seus ossos.

Por isso deixará o homem seu pai e sua mãe, e se unirá a sua mulher; e serão dois numa carne.
Grande é este mistério; digo-o, porém, a respeito de Cristo e da igreja.

Assim também vós, cada um em particular, ame a sua própria mulher como a si mesmo, e a mulher reverencie o marido." (Efésios 5:22-33)

O texto de Efésios é autoexplicativo. Os grifos em vermelho são apenas uma tentativa de "desenhar" o que já está evidente. Para quem conhece apenas um pouco a vida de Jesus Cristo, sua doação e sacrifício por amos a todos nós, é mais do que suficiente para refutar qualquer insinuação de "machismo" na passagem, visto que a relação de "submissão" posta por Paulo está 100% vinculada ao modelo de relacionamento de Cristo com a igreja.

Para quem ainda não entendeu, Paulo está deixando claro que a submissão e reverência da mulher ao marido está ASSOCIADA a um marido que lhe trata da mesma forma como Cristo trata a sua igreja. Se você acha que isso é um erro, não é a Paulo que você critica, mas a Cristo! Na prática, você está dizendo que o sacrifício de Cristo pela igreja (todos nós), sua entrega e amor, são "machistas".

O conceito de submissão posto por Paulo não é o mesmo que subserviência. Cristo se entregou por amor, independente de ser aceito, reconhecido e amado. Da mesma forma, a igreja se entrega à Cristo por amor, ao reconhecer o valor do seu sacrifício. Portanto, não existe submissão obrigatória (subserviência), mas sim voluntária, como forma de reconhecimento de uma autoridade manifesta da forma de quem se doa em favor do outro ("ama a si mesmo").

Paulo confrontou a verdadeira cultura machista da época de Jesus


A crítica comum de quem fala por viés ideológico é que Paulo, ou o Novo Testamento (Bíblia cristã), reproduziram a cultura machista da época, onde as mulheres eram diminuídas na sociedade. Ora, diante da passagem que lemos acima fica evidente que essa crítica não se sustenta. No contexto do Apóstolo Paulo, fortemente influenciado pela filosofia greco-romana, o homem jamais seria condicionado a "amar como a si mesmo" a sua mulher (risos).

O conceito de unidade, por exemplo, posto como "...e serão dois numa só carne", é algo averso a cultura vigente na época de Jesus, onde a mulher se resumia na maioria dos casos a um acessório, símbolo de poder político e mero dispositivo de reprodução. Aliás, o "amor" como ideal da relação matrimonial passa a tomar lugar no cristianismo, sendo uma condição para a união, o que não fazia sentido na época. Se você atualmente possui um conceito sobre "amor", agradeça a doutrina cristã!

Essa unidade ("...e serão dois numa só carne") pode ser entendida perfeitamente como igualdade de valor, deixando claro que para Deus não há diferença entre o homem e a mulher. Isto é; segundo a Bíblia, a mulher possui exatamente o mesmo valor que o homem, algo incomum para a época.

Para o filósofo Aristóteles, por exemplo, citado como referência até os dias atuais, a mulher não passava de um "homem incompleto", tal como para Platão, Pitágoras e outros, que não reconheceram o devido valor da figura feminina, até filósofos mais recentes, como Immanuel Kant e Friedrich Nietzsche, para quem a mulher foi comparada com animais.

Portanto, o Apóstolo Paulo tinha plena consciência de como as mulheres eram vistas em sua cultura. Prova disso é a citação que fez dos filósofos Apimênides e Arato, em Atos 17, numa ocasião (Areópago) que também serve como evidência do seu conhecimento sobre a cultura da época. Dessa forma, é incontestável que sua doutrina em Efésios 5:22-33 confronta os costumes vigentes e estabelecem um modelo de relacionamento entre o homem e a mulher segundo a vontade de Deus e não conforme a tradição dos homens.

Deus não pode ser homem, nem mulher


Durante os questionamentos, o dito professor insinuou que a referência a Deus como figura masculina seria um indício do "machismo" na Bíblia. A imagem que temos de Deus como "homem" seria, no discurso implícito dele, uma herança do patriarcado judaico. Será que isso procede?

Em primeiro lugar, é um equívoco banal atribuir à Deus qualquer referência dos sexos masculino e feminino, simplesmente porque em nenhuma parte da Bíblia Deus se apresenta como tal. Em segundo, o erro que parte dessa crítica é devido a falta de compreensão da função linguística na transmissão da narrativa bíblica, especialmente na forma como ela se apresenta.

Nenhum autor bíblico apresenta Deus como sendo "homem" ou "mulher". A narrativa bíblica, no entanto, diz que o próprio Deus se apresentou aos Profetas como "Assim diz o Senhor...", ou; "Eu Sou o Senhor...".

Por que Deus não se apresentou como "Senhora"? Ora, se tivesse, o que mudaria na narrativa bíblica? Nada! Isto significa que não haveria problema algum se Deus tivesse se apresentado como uma "Senhora", invés de "Senhor", visto que esses termos não traduzem a natureza de Deus, mas sim uma representação linguística da sua pessoa. Se fosse "Senhora", muito provavelmente os homens da atualidade também estariam questionando o motivo pelo qual Deus não foi citado como "Senhor" (risos).

A natureza de Deus não se resume a nossa definição de humanidade, visto que Ele transcende a criação. Ao ser questionado por Moisés, por exemplo, em Êxodos 3:14, Deus se apresentou como "EU SOU O QUE SOU". Na raiz do hebraico, isto significa "AQUELE DE ONDE TUDO VEM", ou "AQUELE ONDE TUDO É".

Essa é uma passagem singular em toda Bíblia, visto que a narrativa apresenta a definição do próprio Deus. É o próprio Criador dizendo o seu nome e, portanto, deixando claro que as menções como "Senhor" não passam de uma função linguística visando a identificação com o contexto humano. O mesmo podemos observar em Jesus Cristo, ao ser chamado "Filho de Deus", assim como em suas referências a Deus como "Pai". Ou seja, não tratam da sua natureza (porque ambos são a mesma Pessoa), mas sim da identificação com o nosso contexto linguístico e social, uma forma de nos aproximar de algo que está muito além da nossa total compreensão.

A ordenação familiar é uma necessidade e não um discurso


Por fim, tudo que foi explicado acima depende, também, da sua compreensão acerca do que significa ordenação familiar. Isso é nada mais do que a concepção de uma organização de funções na família, onde cada integrante possui um papel. Isso não tem absolutamente - NADA - a ver com desigualdade, diferença de valor, etc. Tem a ver - exclusivamente - com organização, e pode ser observado em tudo que está a sua volta.

Do formigueiro que atravessa sua casa à presidência de um país, o princípio de ordenação com vista ao funcionalismo é algo evidente.

A vida na terra não existiria se não estivesse fundada no princípio de ordenação, por exemplo, do que é conhecido na química como "Ponto Triplo". Em outras palavras, o equilíbrio climático - perfeito - entre os estados sólido, líquido e gasoso, na forma das geleiras dos polos norte e sul, dos gases na atmosfera e dos continentes, é o que mantém você respirando. Algo que não existe, por exemplo, em Marte.

A família não é diferente da complexa ordenação que existe no universo, no "ponto triplo" ou na aparente simplicidade de um formigueiro. É sobre esse conceito de ordenação que a Bíblia estabelece a família, estabelecendo características diferentes para homens e mulheres, para que exista equilíbrio na sociedade, ambos se completem e a humanidade se estabeleça.

Isso nada tem a ver com mais-valia. Para Deus, homens e mulheres são iguais em valor. A diferença está na função familiar, onde cada qual é singular em seus atributos, de forma que essa harmonia e complementaridade é reflexo de uma natureza bem mais ampla e diz respeito a manutenção da própria sociedade.

Portanto, o patriarcado é fundado nessa concepção e isso não é exclusividade do povo hebreu. A grande verdade é que a absoluta maioria das culturas humanas (e animais!) são/foram patriarcais.

Timothy Taylor, em "A Pré-História do Sexo", demonstra claramente esse fato antropologicamente evidenciado, enquanto o matriarcado, embora sugerido, é questionado por falta de evidências claras (as chamadas estatuetas de Vênus são evidências imprecisas, segundo o autor). Dessa forma, quando falamos em ordenação familiar, não tratamos apenas de um conceito bíblico, mas de algo cientificamente fundamentado em diferentes perspectivas.

Conclusão

O machismo existe! Esse texto não é uma tentativa de negar a realidade. Infelizmente, muitos homens utilizam de forma equivocada preceitos religiosos, morais e até científicos como forma de oprimir, desprezar e maltratar mulheres. Todavia, não podemos confundir a distorção humana com a doutrina bíblica. A Bíblia surgiu também como uma necessidade de orientar o ser humano contra esses erros históricos, culturais, frutos do seu pecado. As leis do Antigo Testamento testemunham isso.

Por fim, diferente das culturas passadas e atuais, a Bíblia coloca a relação entre o homem e a mulher em uma sincronia de propósitos, capaz de resultar numa união que não tem a ver com interesses políticos, econômicos, culturais, mas apenas com o que todos nós buscamos e de alguma forma sentimos na forma do que chamamos de "amor".

Para o cristão que reconhece o sacrifício de amor feito por Jesus Cristo na cruz, não é difícil compreender que se um casal se inspira no modelo de relacionamento de Cristo com a igreja, nenhuma forma de injustiça, opressão e desigualdade existe. Muito pelo contrário! Existe a entrega mútua de ambos, um ao outro, pelo reconhecimento do valor que cada um possui dentro da instituição familiar.

Você pode discordar! Nada te impede de pensar o contrário. Todavia, a problemática não está, necessariamente, em seu questionamento, muito menos na autenticidade do texto bíblico, mas na disposição que você tem de encarar os fatos de forma coerente. Até que ponto sua análise está sendo embaçada por alguma ideologia? Até que ponto você está disposto(a) a reconhecer que alguns textos traduzem como ensinamentos simples o que pessoas não sabem aplicar na prática? Essa pode ser a diferença entre chamar Paulo de "machista" ou um verdadeiro Apóstolo de Deus.


Por: Will R. Filho


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6 de junho de 2017 22:00

vai se fuder rapa , a biblia é uma merda de livro , e voces são um atraso de vida em pleno 2017 , pior que voces só os mulçumanos , não adianta tentar justificar o injustificavel

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