Jogo Baleia Azul - Como os pais devem lidar com seus filhos? Recomentações


É com muita tristeza que escrevo esse texto. Estamos vendo nos noticiários e na internet, principalmente, como o assim chamado "jogo" da Baleia Azul tem se espalhado pelo mundo, trazendo desgraça e muito sofrimento para pais que possuem filhos suscetíveis a essas e outras investidas de pessoas motivadas por uma personalidade perversa, talvez psicótica e, portanto, moralmente doentia.

Pior do que isso é ver profissionais da saúde mental e pessoas leigas de vários segmentos desdenhando do poder destrutivo que tem os assassinos por trás do "jogo" Baleia Azul. Sim, os chamo de assassinos, pois a manipulação psicológica/emocional de quem por condições diversas, geralmente associadas à momentos de extrema fragilidade emocional, induzindo o outro a tirar a própria vida, é também uma maneira de responsabilização direta por sua morte.

Todavia, a intenção nesse momento é me dirigir aos pais e à sociedade em geral. Não pretendo abordar às questões legais e possíveis razões psicológicas/cultuais implícitas para o surgimento e disseminação do "jogo" Baleia Azul de forma ampla, mas tão somente fazer algumas recomendações que acredito serem urgentes e de vital importância para quem nessa hora parece não saber como reagir com seus filhos, assim como para pessoas, que, por ignorância, invés de combater esse tipo de conteúdo, terminam o promovendo ainda mais, na forma de uma curiosidade indevida.


Também não vou tratar a natureza do "jogo". Isto é; como ele funciona, etc. Acredito que se você veio até aqui sob esse título é porque já sabe o suficiente. Nosso foco será abordar como a relação entre pais e filhos podem evitar (ou contribuir) esse tipo de conteúdo. Entretanto, é fundamental que leia primeiro a contextualização abaixo:

Entenda o contexto social para saber como lidar com o problema


Vivemos numa geração que está sendo conhecida como a do "menor digital abandonado". Isto é nada mais do que casos de crianças e adolescentes que estão crescendo praticamente sob os "cuidados" da internet, sem a presença dos pais como referência em suas vidas. A explicação desse fato está, em parte, no contexto econômico e nos novos modelos familiares, "moldados" em acordo com a cultura vigente.

No contexto econômico, vemos que pai e mãe precisam trabalhar, pois dificilmente o custo de vida atual é suprido com apenas um orçamento. O problema disso é que o cuidado dos filhos começou a ficar em segundo plano. A relação materna, que na absoluta maioria das civilizações sempre esteve associada ao cuidado dos filhos, tem se perdido em decorrência não da mulher poder trabalhar, simplesmente, mas faz sim por fazer do trabalho, agora, sua maior prioridade, diminuindo a importância do seu papel junto aos filhos. Perceba que o problema não está no trabalho, mas no que se define por prioridade.

Da mesma forma, o contexto econômico também tem afetado a função paterna, visto que o homem deixou de ser o único provedor. A implicação disso não está na mera divisão das tarefas no ambiente familiar. Isso, por si só, é irrelevante. O problema está na perca de referencial. Na prática, se dois provêem, quem se responsabiliza pelo cuidado? Se dois cuidam, quem se responsabiliza pela provisão? É possível estabelecer uma relação de cuidado de forma suficiente quando dois se dedicam igualmente na provisão? Será mesmo que o cuidado repassado à terceiros (babás, creches, por exemplo) supre de forma satisfatória a relação de afeto desejada pelos filhos?

Ou ainda, é possível considerar que há uma boa relação de cuidado quando os filhos sentem que estão em segundo plano no tempo que os pais dedicam a eles? Ou seja, no final das contas, os filhos não sabem "quem é quem" na família, visto que a indefinição dos papéis dificulta que eles construam em suas mentes os modelos de organização familiar que deveriam lhes servir de referência.

Para agravar, nem só o contexto econômico influencia negativamente nesse processo. Interesses pessoais como, por exemplo, atividades de laser exclusivas de cada pai/mãe, como sair com amigos (enquanto os filhos ficam com os avós, babá ou em casa, sozinhos), academia, bares, jogos, etc., de forma exagerada, também entram em competição com à atenção devida ao cuidado dos filhos, servindo para eles como reflexo do "menor abandonado digital".

Além disso, temos a influência da cultura vigente, que na atualidade, cada vez mais, desconstrói o conceito de família e sua importância vinculada às funções maternas e paternas como estruturas elementares da sociedade.

Como um filho poderá enxergar no seu pai um referencial positivo quando sua figura de cuidado e autoridade é menosprezada por discursos vindos da mídia, das universidades, das medidas políticas? Da mesma forma, como poderá enxergar em sua mãe uma referência de acolhimento afetivo e primeiro apego, como argumenta Melanie Klein e John Mostyn Bowlby, quando a própria função materna do cuidado (iniciada já durante a gestação) está sendo questionada por viés ideológico, e não científico?

No conjunto disso, temos como resultado nessa cultura vigente a família como algo dispensável, visto que sua existência, como alguns querem fazer pensar, se dá em decorrência de interesses meramente artificiais, como "dispositivo social", apenas, e não como entidades humanas de caráter - também - biológico e historicamente observável, refletindo ao longo de nossa existência uma organização de referências necessárias para o equilíbrio social.

O que isso tem a ver com nossos filhos? Tudo! Os filhos que não tem os pais como referência positiva (porque referência sempre existe, positiva ou negativa) e não enxerga a família como principal núcleo de apoio e sustentação emocional na qual possa se refugiar, sentindo-se acolhido, não terá como desenvolver sua própria identidade social de forma saudável. Invés disso, se torna inseguro, emocionalmente instável e confuso ante à quantidade de informações que para ele são apenas "dados", mas não elementos afetivos frutos do relacionamento com os pais/família.

Por fim, finalizando o entendimento do que entendo ser - parte - do contexto dessa geração, fica instalado uma crise de identidade em muitos filhos, agravada por uma época onde a oferta de cultura ruim (porque "cultura" não é sinônimo de coisa boa) contribui para o agravamento da crise. A romantização do suicídio, por exemplo, como visto na série 13 Reason Why, é um exemplo recente dessa "cultura", que quando associada a jovens frutos do contexto explicado podem resultar nas tragédias que temos visto, uma vez que atua como "reforço de contingência" (condicionamento).

Todavia, diversos fatores levam um jovem a querer jogar a "Baleia Azul". Cada caso deve ser considerado em particular. O contexto citado, porém, apresenta uma visão ampla da condição social que estamos vivendo, que certamente possui alguma relação com esses episódios. A seguir, vamos enumerar algumas recomendações para os pais, mas recomendo para os que desejam compreender melhor a "questão do contexto", que leiam também os textos a seguir:

"A morte das utopias e o reinado da solidão compartilhada"

"Violência na sala de aula é reflexo de uma crise de autoridade familiar, diz professora"

"Jovens em crise? A falta de referência na adolescência"

Recomendações para os pais sobre o "jogo" Baleia Azul


01 - Escute mais, fale menos e demonstre afeto

Conversar não é apenas sentar e falar, mas principalmente saber ouvir. Muitos pais menosprezam às experiências, pensamentos e desejos dos seus filhos. Às vezes, minimizam o seu sofrimento apenas por acreditar que os problemas deles são insignificantes perante os seus. Ora, é um erro comparar sua condição à do outro. Ambos, pais e filhos, passam por contextos diferentes na vida, de modo que os problemas assumem o tamanho do sofrimento que é proporcional à maturidade de cada um.

Não queira desdenhar do sofrimento do seu filho(a) apenas porque considera os seus muito maiores, pois a maturidade que ele possui (o filho) é proporcional à sua maturidade e CONTEXTO onde vive, levando em consideração a época e costumes de cada geração.

Sendo assim, aprenda a escutar. Os jovens dessa geração estão "lotados" de informações, bombardeadas pela mídia, e não saber como processar e lidar com todas ao mesmo tempo é uma das coisas que têm produzido sintomas como a ansiedade, "hiperatividade" e até mesmo a dita "depressão", também por não conseguirem digerir tudo isso.

Falar e se expressar é uma das formas de lidar com esse problema, mas para tanto os pais precisam demonstrar serem receptivos, acolhedores e PACIENTES, demonstrando interesse e afetividade para os filhos. Por interesse, me refiro a não esperar a iniciativa dos filhos, mas ter você mesmo(a) essa atitude, diária de preferência. Lembre-se que esta geração não é encorajada a enxergar nos pais (na família) o "porto seguro" onde deva confiar. Eles recorrem, antes de tudo, à internet, depois às amizades reais (quando existem).

02 - Priorize seus filhos para que tenham seu "valor" como referência

Uma das questões que mais chama atenção de jovens em sofrimento emocional é a sensação de não estarem recebendo atenção suficiente de seus pais. Isso muitas vezes se manifesta na forma da frase "eles não me entendem...". Cuidado! Muitas vezes essa afirmação corresponde aos fatos, pois a compreensão requer intimidade, diálogo e confiança, coisas que nem sempre você transmite com o excesso de conversas superficiais, mas com sua PRESENÇA afetiva e moral em várias circunstâncias da vida familiar.

A sensação de não ser compreendido(a) e/ou ouvido(a) é o que leva muitos jovens a tomarem atitudes drásticas, apenas para chamar atenção dos pais e serem ouvidos. A automutilação, por exemplo, como alguns comportamentos e estilos visuais considerados "radicais" são, algumas vezes, uma forma de linguagem comportamental que visa comunicar aos pais (a sociedade) o estado emocional que tal pessoa se encontra.

A mensagem muitas vezes transmitida, embora não racionalizada pelos filhos (eles geralmente apenas sentem o desconforto. Sabem que há algo de errado, mas não compreendem), é muitas vezes um reflexo do que eles sentem como "falta de valor próprio". Isso, porque, quem dá esse valor é o olhar do "outro", nesse caso: os pais!

Se os filhos não sentem que estão sendo priorizados, consequentemente não se sentem valorizados. Dessa forma, eles buscam outros meios de buscar esse "valor" não conquistado, de várias formas. É ai onde entram as "modinhas" de grupos, tanto no mundo real como na internet, que podem ser positivas ou destrutivas. Elas, na prática, servem como substitutas do referencial afetivo que o jovem não encontrou em sua casa, lhe dando a sensação de ser "aceito" e "acolhido", ao se identificar com outros que vivem nas mesmas condições que ele.


03 - Cuidado não é oferta de material, mas de orientação e relacionamento

Alguns pais questionam os problemas dos filhos achando que estão sendo cuidados simplesmente porque possuem uma boa escola, boa casa, conforto, tudo o que desejam, etc. Um tremendo engano! O cuidado familiar não está associado a isso, apenas, mas principalmente à sua capacidade de orientação e relacionamento.

Perceba como a cultura vigente pode ser nociva para a concepção de cuidado familiar, pois ela tem dito que os pais não devem "orientar" seus filhos. Há, de forma implícita, um discurso que visa tentar retirar dos pais a autoridade sobre o cuidado dos filhos, especialmente no que compete às questões éticas e morais. Devido a isso, temos visto uma geração de jovens que não sabem o que é "frustração", porque tiveram pais que não aprenderam a importância de dizer "NÃO" aos filhos.

"Sim" e "Não" caminham juntos na orientação dos filhos e precisam estar em equilíbrio, de acordo com os preceitos éticos e morais da família. Quando isso fica em desarmonia, a relação do cuidado começa a se perder, pois cuidar implica, principalmente, em orientar. Todavia, como orientar sobre algo que não sabemos mais definir se é bom ou ruim, certo ou errado? Essa é a geração "metamorfose ambulante", cada vez mais refém do relativismo radical.

Para vencer isso, os filhos precisam de orientações e isso significa transmitir para eles o que é bom ou ruim, certo e errado, normal e anormal. A ausência dessas informações, de forma CLARA e sólida, é o que produzirá neles um mar de incertezas que poderá vir à contribuir com sua crise de identidade no mundo. Todavia, nada do que você disser fará sentido se não for resultado de uma vivência. Ou seja, você precisa se RELACIONAR.

A autoridade das suas palavras e a consequente transmissão de valores para os filhos não está na assertividade dos seus conceitos - apenas - mas, principalmente, na maneira como você os demonstra no dia-a-dia com seus filhos, ao lado deles. É a interação de "conceito + relacionamento" que produz o "valor", sendo isto a referência que seu filho vai ter- de você - ao longo de sua vida. Sem isso, ele será uma folha em branco servindo de rascunho para qualquer oferta de referência, positiva ou negativa.


04 - Alimente sentido para a vida dos seus filhos

Todo ser humano vive em torno de algum sentido. Mesmo quem nunca parou para pensar nisso, um dia irá se perguntar qual é o sentido da sua vida. Nós, como seres racionais, não vivemos em função do "nada". Precisamos alimentar nossos sonhos e expectativas, e por não vivermos em função de "instintos", mas apenas por impulsos fisiológicos básicos, fica à critério dos "sentidos" a grande motivação pela vida. Não é por acaso que em acordo com esse conceito Viktor Emil Frankl elaborou a "Logoterapia", abordagem essa da Psicologia que explora a busca do sentido como forma de lidar com dilemas humanos.

É nesse contexto que entra, por exemplo, a importância das religiões, da realização profissional, da superação física, por exemplo, através de algum esporte, da inovação e criatividade através das artes como a música, pintura, literatura ou tecnologia, etc. Em tudo isso é possível encontrar algum sentido para nos motivar. Destes, penso que o maior e mais fundamental é sem dúvida o "sentimento religioso", que não trata de uma religião enquanto sistema organizado, mas sim de uma noção implícita em todo ser humano de que existe uma razão pela qual devemos fazer o que é certo ou errado.

Todavia, a busca pelo sentido, especialmente o religioso, tem sido desvalorizada em nossa cultura, comprometida pelo imediatismo e pelo que chamo de "ser utilitário" em face aos avanços do globalitarismo.

A concepção de realização, como algo além da mera aquisição de posses e conquistas, está sendo perdida. O materialismo, de fato, e o desprezo por heranças históricas de caráter imaterial, assentados em tradições culturais, éticas e morais milenares, estão sendo diminuídos ante uma cultura cada vez mais impessoal, onde as "utopias" e "sentidos" humanos são desvalorizadas perante o "aqui e agora".

Sendo assim, o que é a morte ou a vida? O que nos faz insistir numa vida de sofrimento, quando a morte parece ser uma ótima proposta de solução para uma vida que já não possui sentido? Percebe como é fácil para uma pessoa, especialmente jovens em sofrimento emocional, acharem no suicídio um meio "justo" para abandonarem essa vida, quando acreditam que ninguém ou nada mais podem lhe ajudar?

Portanto, alimente sentido a vida dos seus filhos. Incentive e dê condições para que pensem além do "ter" e do "aqui e agora", de preferência, sendo você mesmo(a) a fonte de "valor" que serve para eles de referência sobre como devem encarar o mundo. É Deus o seu sentido? Então transmita isso a eles, ensinando-os a importância disso na maneira como vive. Invés de procurar desconstruir o que é motivo de esperança para seus filhos e o mundo, colabore para sua fundamentação. Da mesma forma, faça o mesmo com o que para você for motivo de "sentido", ainda que isso represente uma busca contínua em torno dessa compreensão.

Conclusão

Como podemos ver, não dá para abordar a problemática do "jogo" Baleia Azul por uma perspectiva, apenas, por isso optei fazer uma reflexão de caráter cultural-sociológico, visando oferecer uma visão mais ampliada do contexto por trás desse e outros "jogos" semelhantes. Há vários, sejam games ou filmes, seriados e até desenhos. Todos parecem apontar para a mesma origem e todos devem ser combatidos.

Gostaria de frisar, em resposta alguns, que "jogos" desse tipo nunca existiram. Não podemos confundir contextos culturais. Até onde sei, a morte nunca foi tratada como "brincadeira" nas culturas antigas, na forma de incentivo ao próprio suicídio ou de outros. Salvo a violência e assassinatos de "entretenimento" por razões políticas, CONTRA a vontade dos participantes, qualquer coisa parecida ao sacrifício humano sempre esteve associada a ritos religiosos e de passagem.

No mais, se você achou útil o texto peço que compartilhe e ajude a orientar outras pessoas.


Por: Will R. Filho


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28 de maio de 2017 13:01

Não existe maneira mais conveniente de se resolver um conflito do que culpando o Outro pelos meus pensamentos e atos , Invez de me implicar neles e se responsabilizar pelo que eu faco. E verdade meu inferno e sempre o Outro

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