A Loucura como Linguagem - A Carência de Compreensão e Relacionamentos Sadios



Aquela pessoa "estranha" que todos nós já identificamos e julgamos, geralmente nas escolas e faculdades. Geralmente, alguém que pela forma de andar, se vestir, falar e se relacionar, nos parece diferente de tudo o que achamos "normal". Não por acaso, no consciente coletivo taxamos alguns desses indivíduos de "loucos". Diferente do que você pode imaginar, a loucura não é só um termo associado a saúde mental sobre quem sofre patologias graves, mas também uma pecha fomentada pela cultura de normatização do que é "comum" e não necessariamente exclusivo de quem sofre, mas de onde e com quem se relaciona.


Sem querer entrar no mérito teórico de questões delicadas e complexas, uma vez que este não é o espaço para tratar com rigor assuntos acadêmicos, mas sim de ensaiar minha própria loucura de estimação (...), tenho a liberdade de convidar o amigo(a) leitor(a) para refletir por alguns minutos o que tem sido uma espécie de ignorância coletiva em face a não compreensão dos sintomas de adoecimento individual em reação à norma. Difícil compreender?

O ser humano é relacional por natureza. Nascemos e não caminhamos poucos minutos depois por acaso. A dependência do outro, um cuidador, para que possamos sobreviver, desenvolver e criar autonomia é apenas uma comprovação biologicamente objetiva do quanto somos seres RELACIONAIS. Qualquer outra espécie nasce quase pronta para sobreviver, e mesmo elas carecem de um tempo de amadurecimento para que possam desenvolver certas habilidades. Todavia, o tempo de carência entre a espécie humana comparado às outras, no quesito sobrevivência, é infinitamente maior.

Não agimos por instintos de forma suficiente para sobreviver. Os instintos básicos (porque não possuímos instintos determinantes) que existem em nós carecem do outro, sempre, como forma de relação mantenedora e potencializadora do que em nós existe apenas como aparato de sobrevivência simples e não complexo. O recém nascido quando chora, depende da mãe para não só escutar o choro, como interpretá-lo, oferecendo a ele os recursos necessários de sua sobrevivência. O espaço de tempo entre o choro como linguagem e a fala como ferramenta de comunicação é abismal. É aqui onde nós podemos relacionar a loucura como linguagem.

A "loucura" nem sempre é uma condição patológica ou, se preferir, psicopatológica. Ela pode ser, principalmente, um "choro" não compreendido de quem não tendo achado como se expressar, e ser compreendido, chora angustiosamente, na forma de múltiplos sintomas físicos, cognitivos e comportamentais, expressando o que vivencia em um espaço onde o único sujeito da relação é ele(a) e seus conflitos.

Por essa perspectiva, a "loucura" é um sintoma coletivo, porque se parte da sua existência só é possível mediante a NÃO compreensão do outro, ela é uma "loucura" proporcional a qualidade das relações entre o sujeito e o meio. Não por acaso vivemos numa geração onde inúmeros sintomas de adoecimento afetivo, crises emocionais e "síndromes" tomam conta da população, na sua grande maioria, vinculadas a um quadro social conturbado em torno do sujeito que sofre.

No texto publicado aqui no blog, chamado "A Morte das Utopias e o Reinado da Solidão Compartilhada", (leia AQUI) descrevo parte do que deva ser o motivo para essa "loucura como linguagem". Em suma: uma crise de relação, referências e autoimagem. Sobre isso, faço um pequeno recorte do texto em questão:

Nessa "cultura global utilitária" desaprendemos a desenvolver relacionamentos saudáveis. Passamos a nos enxergar artificialmente como pessoas capazes ou não de atender as demandas do imediatismo. Se por um lado desejamos relacionamentos confiáveis, amizades, paixão, amor e respeito, por outro não estamos dispostos a "pagar o preço" de construir tais relações... 

Nesse modelo de "relações utilitárias" estão presentes as características que podem levar ou não uma pessoa adoecer, emocionalmente, de modo que as consequências desse adoecimento se traduzam em modos de comportamento, pensamento, seja isso partindo do contexto familiar, paterno, materno, ou profissional, no ambiente de trabalho/profissão, assim como na área religiosa, política, e muitas vezes no quesito amoroso/sexual.

Dos sintomas mais brandos ou socialmente aceitos, como ansiedade, depressão, estresse, compulsão, dependências (drogas, jogos, sexo, etc.) aos mais estranhos e tipicamente associados a "loucura", como delírios, alucinações, psicoses reativas breves e surtos, TODOS podem conter, em si, um componente cuja linguagem (o choro) deva ser compreendida como reação a uma dinâmica relacional possivelmente adoecedora. Por outro lado, tais sintomas são AGRAVADOS e consolidados como "loucura", quando dissociamos o indivíduo desse contexto e lançamos sobre ele um discurso adoecedor com base nos sintomas, e não em seus motivos.

Por fim, esse texto tem a finalidade de chamar atenção para o que vivenciamos na sociedade como forma de "loucura" endossada pelo discurso. Esse tipo de "loucura" é diferente da que os profissionais da saúde mental tem combatido nas últimas décadas através da reforma psiquiátrica. Ela é uma "loucura" alimentada pela CULTURA, e por essa razão, difícil de combater, pelo fato de que ao virar elemento da cultura, se normatiza, assumindo identidade e lugar "comum" na conjuntura social.

O estigma da loucura na utilização do próprio termo "loucura", bem como pelo tratamento desumano, está sendo superado, embora ainda exista. Porém, novas pechas estão substituindo os velhos conceitos, tais como "sujeito depressivo", "neurótico (ansioso)", "dependente", "esquizofrênico", "hiperativo", "compulsivo", assim como novos tratamentos estão ocupando o lugar dos anteriores, especialmente na forma de medicamentos inibidores e de contenção, no lugar das grades e camisas de força dos velhos manicômios.  

Por essas e outras, devemos ficar sempre atentos a evolução da saúde enquanto conceito e nunca deixar de enxergar, também, a "loucura" como uma linguagem particular, única, carente de quem lhe compreenda o sentido e a expressão.

Abraço e até a próxima...

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