Qual é o Preço de uma Vida sem História? - Aos filhos das "Favelas"

Na imagem da madrugada, milhares de "histórias" que não damos valor porque só enxergamos a paisagem.

Qual é o preço de uma vida? Não me refiro ao corpo que respira, um coração batendo sinalizando alguma coisa no meio de tudo. Me refiro a uma construção de sonhos, ideais, sacrifícios, dedicações, vitórias e fracassos. Qual é o preço da SUA vida? Até que ponto somos capazes de encerrar em nós mesmos a percepção que temos da história do outro? Até que ponto podemos encerrar em nosso "projeto de ideal" a dimensão que circunda a dimensão do outro?


As vezes durante a madrugada fico parado na varanda, olhando a paisagem distante no silêncio da noite. Pontos de luz, ruas vazias e muitas casas. Quase sempre uma reflexão inevitável me vem a mente: ali embaixo cada casa possui uma família. Cada família é composta por pessoas diferentes e cada uma com uma história de vida.  

Do alto consigo visualizar um bairro inteiro e, portanto, milhares de vidas. Vez e outra flagro gente solitária caminhando, carros e principalmente "bebuns" falando sozinhos o que para minha surpresa posso ouvir como se estivessem a poucos metros. Fico pensando como cada pessoa no meio de uma multidão tão imensa possui a capacidade de ser alguém especial pelo simples fato de existir e possuir uma história, ao passo que, por outro lado, como multidões de pessoas são desprezadas não pelo fato de não terem sua história, mas sim porque não são vistas como "especiais". Ou seja; não existem!

O bairro que vejo do alto "protegido" em meu "palácio de vidro" é considerado um dos mais perigosos da minha cidade. Embora eu não more nessa região, posso visualizá-lo quase por completo da minha varanda (...) e assim que cheguei na cidade, todos me recomendaram não circular por entre as ruas desse bairro, por ser famoso em "assaltos e tráfico". 

Essa é a imagem desse bairro que os "de fora" tem em suas mentes. Em outras palavras, esse bairro não possui uma história de PESSOAS nele, mas apenas de COISAS RUINS. Ele deixou de ser o lugar onde VIDAS habitam, constroem e se relacionam, para ser sinônimo do que não presta na sociedade. Neste sentido, a ideia de valor que damos a vida do outro não existe como dimensão histórica, e se o próprio sujeito não existe enquanto subjetividade de "ser", ou seja; potencialidade de vida, o que significa para nós um mísero coração batendo? NADA!

Talvez isso explique a razão do filho da área nobre quando é assassinado, ganhar as primeiras manchetes de jornais como fato trágico repetido à exaustão, enquanto o filho da "favela" ser apenas um número estatístico noticiado em nota de rodapé. O primeiro tem história, e o segundo, o que tem?

Tive a oportunidade de passar boa parte da minha adolescência caminhando pelas ruas de bairros simples, por ter amigos simples e ser alguém simples. As brincadeiras de rua me deram a oportunidade de entrar e sair disso que muitos chamam de "favelas". A contragosto dos pais, não tenho dúvidas de que essa experiência me ajudou a desconstruir os preconceitos transmitidos pelos "mais favorecidos", de que "favela" é lugar de ladrão, traficantes e drogados. 

Quem me dera hoje ter a companhia dos muitos amigos que tive nas ruas das "favelas". 

Tendo isso também como referência de vida, atualmente eu não poderia enxergar diferente esse bairro vizinho ao meu. Assim que precisei comprar coisas, achar serviços, etc. Fui circular nas ruas da "favela", deixando o veículo em um local próximo e seguindo a pé. Entrei e saí de ruas. Parei em comércios, fiteiros, "botecos", barbearias, quintandas... comprei coisas, comi, bebi, conversei com moradores locais. Me tornei parte do lugar, como de fato somos, em todos os lugares. Sempre que preciso de algo é lá que vou procurar primeiro, por ser ali o local onde encontro pessoas mais prestativas, uma vez que são menos possuídas pelas coisas e mais constituídas de gente.

Em poucos dias aquele bairro para mim passou a ter HISTÓRIA, porque nele me relacionei com PESSOAS. É por essa razão que quando olho da minha varanda a multidão de casas lá embaixo, enxergo vidas e não meramente uma paisagem. Vejo seu Zé, dona Conceição, Eduardo, Maria e tantos outros, por trás de uma distância que é apenas geográfica, e não cultural, muito menos humana, espiritual.  

O que vejo e escuto nas muitas formas de expressão do "outro" é apenas o desejo que temos de nos relacionar e sermos pessoas, tendo a capacidade de enxergar em cada um de nós a própria dimensão humana. A história que há por trás das paisagens contada pelos próprios autores, e não o que muitos dizem sobre eles.

Abraço e até a próxima... 



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