O Desafio de Escrever o que Não Querem Ler!


Não é fácil escrever sobre o que não querem ler. Opiniões críticas não são intelectualmente confortáveis, muito menos politicamente corretas, porque a crítica quando verdadeira é, de fato, munida de modismo e modelagem cultural, uma vez que sua análise se sobrepõe a esses ditames. 


A própria linguagem da crítica por razões, meramente, penso, de hábito literário, é um desafio a ser traduzido a grande maioria. O que resta muitas vezes ao crítico é a sensação de isolamento, muito embora sempre existam àqueles "sete mil" que não se dobram ao convite do "senso comum". 

Toda escrita é uma linguagem que se comunica com o outro. Muitas vezes esse outro tem nome e endereço, mas na absoluta maioria, possui apenas uma capacidade possível de compreender o que é dito na forma escrita pelo autor. 

A crítica, quando dita, geralmente rompe com o esperado e o padrão, não porque espera existir e ter significado por esse viés, mas porque o fenômeno em si mesmo oferece essa possibilidade, suscitando no autor uma percepção que espera ter, na crítica, um "ouvido que lhe ouça", e compreenda sua razão de existir.

Neste sentido, o simples fato de escrever para quem NÃO QUER LER a crítica é um desafio que, possivelmente, motiva a própria crítica, pois, de outro modo, a crítica que visa romper com o esperado e revelar, nos fatos, as nuances do que não é percebido, só tem sentido quando consegue alcançar o outro na sua "ignorância" dos fatos que julga serem absolutos, verdadeiros, irrefutáveis. 

Ora, ter por ignorância o que é diferente da crítica é mais um elemento da crítica, que não se pauta pela mera diferença de percepções acerca de um fenômeno, mas sim pelo modo como a natureza do fenômeno é percebida. Isso também faz parte do escrever para quem não quer ler, uma vez que desafia o conforto mental que lhe alicerça num relativismo onde não há "verdades" que não sejam às próprias, muito embora o que dizemos ser "próprias" não passem de um produto da relação do que é, também, do outro.

Finalmente, imagino que a maior consideração sobre o que significa escrever o que NÃO QUEREM LER diz respeito a capacidade de escrever, exatamente, o que é autêntico, seja isso resultado de um modelo cultural ou das percepções acerca desse. 

O compromisso com sua autenticidade é, antes de tudo, uma condição primaz para apreensão dos fenômenos que dão margem a uma escrita "imparcial", própria, que seja arregimentada nas forças do "comum" tidas como críticas, incorretas, muito embora não passem, apenas, duma tradução menos prostituída da verdade.

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