Peixe Pedra - Cuidados e Tratamento para as Vítimas (Niquim, ou Thalassophryne nattereri)

Como tratar ferroada do peixe pedra

No dia 01 de Maio (2015) passei pela experiência mais dolorosa fisicamente da minha vida. Não me recordo de já ter sentido uma dor tão absurda, quanto a dor provocada pelo veneno do Peixe Pedra, também conhecido como Niquim ou Thalassophryne nattereri, o peixe com o mecanismo venenoso mais avançado dentre todos os peixes conhecidos no mundo

Durante minhas longas horas de sofrimento, procurei informações querendo saber sobre o peixe pedra e principalmente como tratar o ferimento e aliviar a dor provocada por seu poderoso veneno, mas sem muito sucesso. Pouquíssimas informações claras e objetivas, relatos resumidos não me deixaram tranquilos. Por esse motivo, pouco mais de uma semana depois do meu encontro com essa criatura, escrevo esse texto para alertar banhistas e pescadores de todo Brasil sobre os riscos oferecidos pelo Niquim e como reagir em caso de envenenamento. Acompanhe:


Fui pescar na manhã do dia 01/05/15 na praia de Maria Farinha (PE), numa região conhecida como Pontal de Maria Farinha. Geralmente costumo pescar só, mas dessa vez estava acompanhado da delegada (para minha futura salvação). 

Veja abaixo a foto do local exato, circulado em vermelho:

Pontal de Maria Farinha - Na foto, o local exato onde encontrei o Peixe Niquim. Esse trecho é onde as águas do mar se encontram com às do rio. Local famoso por apresentar águas calmas, limpas e ser às margens do Hotel Amoaras Resort 
Estava pescando com dois molinetes e ainda um jererê para pescar siris. Por volta de 11:00h entrei na água com uma varinha de mão (de bambu) querendo pescar um "carapicú", para colocar no molinete como isca viva. Não peguei nada, até que quando já estava prestes a sair da água, sinto uma puxada, era um peixe!

Levantei a vara e vi que tinha um peixe estranho, parecido com um bagre, porém de cabeça muito larga, desproporcional para o tamanho do corpo e barbatanas arredondadas. Ele tinha aproximadamente 15 centímetros. Até então eu não sabia que peixe era aquele, imaginei que fosse uma espécie de bagre. Veja a foto abaixo:

Foto do perigoso Peixe Niquim (Peixe Pedra)

Observei o peixe e não enxerguei os tradicionais ferrões do bagre, geralmente projetados nas laterais e dorso, foi ai que cometi o trágico erro de segurar o peixe com a mão para tirar o anzol. Passei os dedos por baixo das nadadeiras laterais e "abracei" (com a mão) levemente a cabeça do peixe, até então tudo bem! 

Saindo da água um grupo de mulheres que estava na margem perguntou sobre a pescaria no local, tirei minha atenção por um segundo do peixe, folgando a "pegada", foi quando ele se curvou e cravou o ferrão na palma da minha mão. Imediatamente reagi largando o peixe e quase instantaneamente a mão "paralisou". Parecia que alguém tinha dado uma marretada na mão, esmagando todos os ossos. 

Ao perceber que o peixe era venenoso e já vendo estrelas, arrastei ele até a areia (ainda estava preso no anzol), já com a intenção de identificá-lo para um possível socorro médico. 

Veja abaixo a foto do ferrão do peixe pedra, que para um leigo fica escondido no dorso do animal:

Peixe niquim e os espinhos localizados no dorso e nas laterais do seu corpo. Quando entram em contato com a pele, os espinhos são projetados, liberando as toxinas. Fonte: Mônica Lopes Ferreira.

Dois ferrões, em algumas espécies de "peixe pedra" podem ser vários. Esses ferrões são como agulhas, "ocos", injetam veneno exatamente como uma mordida de cobra quando pressionados. Eles estão acoplados a duas glândulas responsáveis pelo armazenamento do veneno. Ficam localizados exatamente no dorso do peixe, passando despercebidos aos olhos de quem não conhece a espécie.


A dor é extremamente absurda! Calculo uma picada de marimbondo multiplicada por 10 (já levei). Pior do que uma ferroada de bagre (também já levei). Não conseguia mexer a mão, o braço pesava, a dor era intensa e só piorava. 

A gravidade do acidente não é o tamanho do ferimento, mas a ação do veneno que é injetado pelo peixe pedra

Pedi ajuda a esposa, pois eu já estava pálido e vendo pintas coloridas no ar (literalmente). Falei que tinha sido ferroado e pedi que cortasse as linhas dos molinetes e desmontasse o material, enquanto eu ainda tentava arrastar o peixe para um local seguro, com a finalidade de identificá-lo e ninguém pisá-lo. A patroa não teve força para desmontar as varas e resolveu pedir ajuda a outro pescador que prontamente ajudou e já identificou o peixe dizendo que era um "Peixe Pedra". Abaixo foto da minha mão minutos depois do acidente, já dentro do carro:

 
Dois pequenos furos e até então uma vermelhidão local. O inchaço estava começando.

O pescador não fez alarde, disse que assim como o bagre, a mão iria inchar, mas que eu deveria passar limão e "esfregar" a ferida para o veneno sair (risos). Eu mal aguentava tocar a mão, quanto mais esfregar!!! Ele certamente conhecia o peixe, mas nunca tinha sido vítima dele, rsrs!

Guardamos o material no carro e fomos para casa, com a esposa dirigindo (essa foi a minha salvação, ufa!!!). Mas e agora, o que fazer?

Cuidados caseiros imediatos contra ferroada do Peixe Pedra


01 - Ainda na praia, lave a ferida com a água do mar e verifique se há pedaços do ferrão. Se tiver, dê um jeito de retirar o mais rápido possível, pois ele contém veneno. Passe o dedo suavemente sobre a ferida e veja se não há alguma saliência sólida que indique a presença de algo parecido com "espinho". Use uma pinça, se necessário;

02 - O mais rápido possível, esquente água no fogo e mergulhe o local ferido com o máximo de temperatura que você conseguir suportar. O veneno é termossensível, por isso o calor além de lhe dar alívio imediato, também irá "dissolver" o veneno. Eu, particularmente, quase cozinhei minha mão umas três vezes (risos);

03 - Faça uma pasta de alho e passe sobre o local, deixe agir até sentir mais alívio.

Eu não segui os procedimentos acima durante às primeiras horas, pois além de não ter esse conhecimento até então, também acreditei que assim como o bagre, o único problema do acidente era a dor e o inchaço, que apesar de absurda eu deveria suportar, pois acreditava que deveriam passar com o tempo. Por esse motivo passei a tarde em casa, tomando apenas um analgésico e não me preocupando em pesquisar sobre o peixe. 

Ao chegar a noite, minha mão continuava inchando e a dor não melhorava, foi quando pesquisei e descobri que o Niquim pode ser mortal, dependendo da dosagem do veneno (profundidade do ferimento) e do organismo da vítima, assim como, em alguns casos, pode necrosar o local da ferida e haver até amputação do membro afetado, caso o veneno não seja tratado corretamente. Veja abaixo fotos de vítimas em casos mais trágicos:

Necrose e inchaço provocados pelo veneno do Niquim, dependendo da dosagem do veneno e do tratamento aplicado logo após o acidente.

Além da dor excruciante e do edema, a vítima pode ter febre, calafrios, fraqueza, náuseas, vômitos, dor de cabeça e até convulsões. (só tive a dor e o inchaço - Deus teve piedade de mim! \o/ ) Ao ver isso liguei para o CEATOX (Centro de Assistência Toxicológica - 0800.722.6001), em Recife. Eles me encaminharam para a UPA (Unidade de Pronto Atendimento) mais próxima. 

Chegando na UPA, tomei injeção de Fenergam e um analgésico na veia, para começar.... Depois tirei um Raio X, para certificar que não havia resquícios do ferrão. Ao retornar para avaliação, fui receitado para tomar mais uma injeção de Benzetacil e ficar tomando por 10 dias, Cefalexina, de 06 e 06 horas, Ibuprofeno e Diclofenaco, de 08 e 08 horas (haja fígado meu amigo!!!). Resultado após três dias:

Após três dias, na segunda feira a mão ainda estava inchada e com dores. Os movimentos dos dedos estavam completamente limitados, não conseguia apertar nem segurar objetos.

Hoje é dia 11/05/15 e estou 80% recuperado. A mão não está inchada e a inflamação desapareceu, mas o dedo médio não fecha completamente e ainda apresenta dores. 


Habitat do Peixe Pedra e Precauções


O Niquim pode ser encontrado em todas as praias do Brasil, especialmente nas regiões Norte e Nordeste. É um peixe sorrateiro, que fica geralmente enterrado e mimetizado (disfarçado, igual camaleão) conforme às características do local a sua volta, passando despercebido aos olhos dos predadores e banhistas. 

Ele pode ser encontrado em terreno arenoso e de cascalho, mas sua preferência é por áreas lodosas, em corais ou próximo a eles, áreas de mangue e estuários. É mais encontrado em águas rasas, sendo por isso geralmente pisado pelos banhistas. Veja abaixo um excelente vídeo mostrando o tipo de terreno e a camuflagem do peixe pedra:



Como podemos ver no vídeo acima, o Niquim se enterra e fica completamente disfarçado. Um banhista, mesmo enxergando o local onde pisa, não consegue visualizar o animal, podendo pisá-lo com facilidade e sofrer um grave envenenamento. Sendo assim:

Obs. 01 Evite tomar banho em locais com essas características, próximo a corais e terreno lamacento. Se for, utilize calçados com solado resistente à ferrões, não só dessa espécie, mas também de ouriços e arraias;

Obs. 02 Evite deitar na areia do mar e tocar o chão com as mãos, manipulando corais, algas ou mesmo animais desconhecidos;

Obs. 03 Procure áreas de banho frequentadas por banhistas diariamente e sem relatos de acidente com animais. Evite regiões isoladas e pouco conhecidas, até porque em caso de envenenamento será difícil pedir ajuda (se a ferroada for no pé a vítima não consegue andar!). 
Finalmente, fica registrado aqui o meu relato. Mais do que isso, espero que sirva também como utilidade pública, para que outras pessoas não tenham que passar pelo mesmo sofrimento ao tentar manusear esse peixe, sem conhecer o suficiente ou simplesmente pisá-lo por acidente ao tomar banho em locais que servem de habitat para o Niquim (como o Pontal de Maria Farinha).  

Se você é um "praieiro(a)", pescador ou conhece pessoas que são, peço que compartilhe esse texto e ajude a tornar as informações sobre o Peixe Pedra mais conhecidas.





REFERÊNCIAS:

LOPES-Ferreira, M. - Thalassophryne nattereri (niquim): fazer veneno à terapia São Paulo, 2000. (Tese de doutorado - Instituto de Ciências Biomédicas / Universidade de São Paulo)

http://www.scielo.br/pdf/rsbmt/v38n6/a06v38n6.pdf

http://www.funpecrp.com.br/gmr/year2009/vol8-3/pdf/gmr640.pdf

http://www.canalciencia.ibict.br/noticias/005_Entrevista_Monica_Ferreira  

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