Pensamento Rotulado, Vida Aprisionada - Cristo não é Rótulo!



Não perca seu tempo ao estabelecer rótulos, para si ou para outros. Conservadores ou Progressistas? Direita, Centro ou Esquerda, Calvinista ou Arminiano, Capitalista ou Comunista? Os rótulos aprisionam, resumem numa nomenclatura toda dimensão de possibilidades que, de outro modo, poderiam delinear novas características positivas a sua pessoa. É compreensível a necessidade do ser humano de criar definições, assumir posicionamentos, se enquadrar em partidos, mas será mesmo essa a melhor forma de fazer frente ao que acreditamos ou discordamos? Até que ponto as rotulações que fazemos uns dos outros interferem negativamente em nossas relações?


O que se evidencia nas formas de atuação social, isto é; na política, religião, artes, economia, é uma luta de representatividade. Os indivíduos querem meramente representar, obter participações onde possam ser vistos, ouvidos, aplaudidos. Pouco importa a coerência do seu discurso, seus efeitos e, PRINCIPALMENTE, consequências, pois o que mais vale é o seu PODER de REPRESENTAÇÃO. 

Representamos o que nos interessa, inicialmente o que mais atende o conforto daquilo que está a nossa volta

É assim que somos conservadores, liberais, de esquerda ou direita, não porque necessariamente entendemos a razão de cada uma dessas coisas, mas absurdamente porque tal como torcidas de futebol, estamos familiarizados com uma, e não outra.  Em meio a esse emaranhado de rótulos criamos raças, culturas e preferências, e não definimos apenas o que cada indivíduo defende, mas o que ele é, como se pudéssemos dizer por ele tudo o que pertence a sua dimensão de experiências.

Encerramos no discurso "rotuleiro" as possibilidades humanas, inibindo o diálogo, as aberturas, as análises do que o "outro" tem para me dizer. Pensando sob o prisma humano, apenas humano, vejo que é justamente o humano que perde, ao se deixar empobrecer pelo discurso de fronteira, ao invés de crescer pelo entendimento jamais acabado, mas sempre em construção...

Pergunto, o que é ser conservador ou liberal? O que é ser de esquerda ou direita? As características que definem um e outro, na maioria não passam de "bases" para o que se pretende impor como evidências de algo que possamos palpar e dizer que acreditamos.  

Os rótulos também são crenças, filosofias também não religiões. As diretrizes também são dogmas, os idealistas também são messias. E o que sobra, ao final, senão mais rótulos e segregações? O efeito danoso disso tudo é que o verdadeiro propósito se perde, o ser humano, a vida, a razão das coisas que podem nos fazer felizes se tornam menos importantes do que o sentimento de representação, conquista e "vitória", é o resultado de uma luta da representação pelo poder

Deixamos de fazer girar nossos interesses em torno do que possa melhorar a vida do outro, para resumir em nós mesmos a concretização de um "ideal", o qual exclui, também, o outro, apenas por não concordar com ele. Ora, as diferenças existem e para que se tornem evidentes precisam ser representadas. No entanto:

 ...quando a ênfase na representação se torna maior que as necessidades humanas, deixamos de lutar pelo humano em troca da pura representação! 

Nossos posicionamentos e reflexões se tornam quase irracionais, pois a fronteira dos rótulos não nos permite mais enxergar, no outro, as possibilidades do seu discurso, antes, porém, já o envelopamos. Por isso temos representantes políticos, de partidos, bandeiras, empresas, ONGs, mas não de pessoas, comunidades, sociedade. Na grande maioria a luta é pelo rótulo ali representado, cujos interesses vão muito além do bem comum.

Em tempos de eleição, vemos com facilidade nos debates a defesa dos rótulos, mas não de ideias. Ganha-se uma eleição não mais (ou jamais!) pela coerência de uma "visão política", mas pela articulação de interesses  que, por sua vez, geram favorecimentos

Não é diferente na religião, muitos são católicos, evangélicos, espíritas, budistas, satanistas, não pelo conhecimento que possuem acerca do que afirmam acreditar, mas pelo poder de representação que a religião ganhou em suas vidas, ao ponto de rotulá-los como A, B ou C. O sujeito se enquadra num sistema em que possa "palpar" e se sentir parte, para que defenda e isso lhe dê significado a vida, mesmo que não compreenda devidamente as suas razões. 

Também não é diferente nas ciências, enquanto uns investigam considerando possibilidades e deixam "em aberto" suas compreensões, outros encerram no discurso fronteiriço a falsa certeza de que o mundo não foi criado, ou foi, rotulando-se em Evolucionistas ou Criacionistas

É assim em diversas culturas, onde os povos são classificados por rótulos, tais como os Judeus e Islâmicos no Oriente ou as "castas" Hindus, na Ásia, os "Bárbaros" da antiguidade e a "Burguesia" do presente. O trágico disso tudo é que ultrapassando a barreira do bom senso, proporcional a segregação ideológica, são também nossas práticas, bem como a capacidade de pensamento crítico. Ou seja, o tipo de relação que desenvolvo com o próximo é proporcional ao tipo de rótulo que ele possui. Os rótulos não apenas dificultam as relações entre os humanos, como ditam a forma como devem ser tratados. Mas afinal, existe algo diferente disso?

Sim, em se tratando de relações humanas, nenhum outro personagem na história foi capaz de romper com os "rótulos", do que Jesus Cristo. Caberia aqui outro texto, apenas para descrever um pouco das atitudes do verdadeiro Messias que fizeram frente as segregações humanas baseadas em rótulos, mas cito algumas: um Rei que nasceu na "miséria", sua sabedoria foi considerada loucura. Não exerceu juízo através da espada, mas por palavras de arrependimento, amor, justiça e a própria morte. Sua autoridade estava baseada na vivência do que ensinava. Comeu e bebeu com pecadores, conversou e uniu povos historicamente separados. Deu sentido ao templo, rituais e leis com a moral. Deu esperança a quem não tinha. Confundiu os sábios, desafiou a ciência. Morreu por amar a todos sem distinção. Pregou conceitos de vida e não uma religião. Não se fechou ao diálogo, foi desafiado até por quem se declarou seu pior inimigo, Satanás. Modificou os conceitos de riqueza e pobreza sobre os quais giram as motivações humanas, etc. Essas são algumas características do Cristo, onde os rótulos e representações não tiveram significado algum. Só foi possível fazer isso porque possuía uma razão sob a qual estava muito bem fundamentado, mas sem fazer dela um discurso fronteiriço entre suas Verdades e a dos outros. Pelo contrário, Cristo punha à prova seu pensamento, para que outros "testassem" e tivessem a chance de compreender. É muito interessante observar que sua morte foi justamente por consequência da intolerância dos que não suportaram ver seus rótulos sendo desmascarados por seus ensinamentos. 

Finalmente, quando defendemos algo, lidamos com pessoas, nos posicionamos, afinal, o que estamos realmente fazendo? Lutando pela representatividade dos rótulos ou pela coerência que eles trazem em benefício do povo?  

Estabelecemos um discurso fronteiriço como forma de segregar e proteger nosso conforto mental, econômico, social, ou ampliamos o diálogo para que outros possam "testar nossas verdades" e terem a chance de agregar valor a nossa vida, ou como terem de nós o conhecimento de que precisam? Pense nisso cada vez que opinar e agir em favor de algo, certamente não é o caminho mais fácil, talvez você seja crucificado por outros que não estarão dispostos a verem seus rótulos vencidos ou simplesmente desafiados. Porém, penso que essa é a forma mais coerente de se viver. Se você pensa o mesmo, então viva!

Abraço e até a próxima...  

COMPARTILHAR

Edição:

Somos uma mídia independente, oferecendo conteúdo com perspectiva cristã através de comentários sobre notícias do Brasil e do mundo. Para apoiar, compartilhe nossos textos e curta a página no Facebook.

Anterior
Proxima