Torcedor e Vândalo? Sim, Você pode ser Igual a Ele!


Em mais um caso de violência no futebol, precisamente em estádios, com a morte de Paulo Ricardo Gomes da Silva, ao ser atingido por uma bacia sanitária no estádio do Arruda, em Recife, muitos falam de torcedores e vândalos, fazendo separação entre um e outro, mas será que realmente é possível separar a figura do torcedor e vândalo presente nos estádios de futebol

Se houver um erro de compreensão quanto ao papel das torcidas organizadas, bem como sua existência, será que nós, "torcedores comuns", estamos produzindo a violência atribuída aos que são chamados de vândalos? Leia com atenção.


Entram campeonatos e saem campeonatos, ao redor do mundo diversos casos de violência envolvendo torcedores de futebol temos noticiado. Não vou ter o trabalho de relatar casos, basta você digitar no Google "violência nas torcidas de futebol" e verás inúmeros registros onde pessoas foram agredidas e até mortas por amor (amor?) e ódio a um time de futebol

O que me chama atenção é que em todos esses, apesar da REPETIÇÃO, ao tentar compreender os motivos da violência presente dentro e fora dos estádios, ninguém parece ter pensado que a violência é uma PRODUÇÃO da CULTURA DE RIVALIDADE construída em torno desse esporte. Ora, o que significam, por exemplo, os longos debates entre torcedores diferentes em programas de TV, rádios, bares e praças? Qual é o significado de uma rivalidade quando a essência dessa consiste em dizer que um time presta e o outro não? Que um é "lixo" e o outro não? Que um é "elite" e o outro "escória"?

Segundo o famoso teórico da aprendizagem, Lev Semenovitch Vygotsky, na obra "A Formação Social da Mente", o humano é regido pelo que em sua mente é fruto dos signos culturais. Signos são também palavras, imagens, expressões frutos de uma ideia, que por sua vez influenciam o COMPORTAMENTO. Corroborando a isso, outro teórico e iminente autoridade da aprendizagem social cognitiva, Albert Bandura, afirma que é através de MODELOS CULTURAIS que somos influenciados e temos, por isso, a maneira de pensar e agir de modo específico.  

Traduzindo: quando o "torcedor comum" diz numa roda de conversa para outros "torcedores comuns" que o time rival não presta, é lixo e sua camisa serve como pano de chão, ele produz uma série de signos onde o valor mental (ideia) que carregam é de ódio e agressão.

Diferente de outros esportes, onde a competitividade não estimula o que podemos chamar de "rivalidade ofensiva", ou seja, a que se estende a outros ambientes e contextos que não apenas o palco de competições, no futebol essa rivalidade é carregada para o trabalho, parque, dentro de casa nas relações familiares, igreja, festas e praças, de modo que tal sentimento passa a caracterizar parte do seu comportamento. A rivalidade ofensiva não se restringe ao mero sentimento de competitividade, a torcida, ao ambiente de competições, seja ele um campo de futebol, piscina, ringue, quadra de vôlei, etc. Ela acompanha o sujeito no seu dia-a-dia, fazendo com que ele "tome as dores" do seu time sempre que necessário

A rivalidade sadia, por outro lado, não veste o sujeito de um comportamento ofensivo/rival fora do ambiente de competição, também não eleva o objeto de torcida ao nível de uma "religião", por exemplo. O sujeito sabe fazer separação entre ele e o esporte, pois tem consciência de que o melhor, na sua opinião, é meramente fruto de treinos, dedicação, ocasião, investimentos, não existindo, portanto, uma categoria fixa de conceitos ideais pelo qual se deva matar e morrer, como se deles dependesse a humanidade.

A rivalidade sadia não cria "devotos", mas sim torcedores cientes de que torcer pode ser um sentimento casual, circunstancial e assim passageiro. Mas será essa a compreensão das pessoas que dizem apenas torcer pelo seu time? Sinceramente, pense com honestidade, não é isso o que parece quando vemos pessoas discutindo, xingando, sobre um mísero lance no jogo, ou quando um pai abdica seu tempo com os filhos ante uma necessidade imediata, para ficar plantado na frente da TV. Não é o que parece quando pessoas são capazes de limitar o orçamento da família, apenas para não deixar de acompanhar as atividades do time, ou ainda passarem dias frustrados porque o "time do coração" perdeu o jogo, assim como gastar dinheiro abusivamente para comemorar a vitória do time. Ora, em todos esses casos, vemos claramente que não se tratam de simples torcedores, mas de DEVOTOS frutos da rivalidade ofensiva

A triste constatação que faço é que numa estimativa grosseira, 80% das pessoas que se dizem torcedores são na verdade DEVOTAS dos seus times. Você pode ficar se perguntando: mas o que isso tem a ver com atos brutais de violência e assassinatos? Eu digo TUDO, pois se o sentimento é de DEVOÇÃO, há um enlace emocional/psicológico entre o sujeito e o objeto que o faz pensar ser PARTE do objeto, por isso ele diz "EU sou Flamengo", "EU sou Santa Cruz", "EU venci o jogo", demonstrando em sua fala que EMOCIONALMENTE não há separação entre sua vida real e o esporte. 

 A violência acontece quando esse indivíduo trás para a vida real as frustrações com essa ilusão, levando-o a manifestar atos violentos como consequência da revolta que lhe toma conta por ter sido "derrotado"... no jogo! Faça um paralelo com algumas religiões extremistas, por exemplo. A violência difere apenas na forma como é manifesta, uns xingam, ofendem, não frequentam os mesmos ambientes, perdem amigos, o emprego, as relações amorosas, o humor, controle financeiro. Outros ATIRAM BACIAS, cadeiras, jogam bananas, copos, latas e fazem bagunça nas ruas! No final das contas, o tipo de violência possui consequências diferentes, porém O SENTIMENTO É O MESMO! 

Quem vai cometer determinado tipo de ofensa ou não, depende da condição psicológica desenvolvida nessa devoção. Quanto mais dependente (afetivamente) se sentir o sujeito do seu objeto, mais propenso a cometer atos graves. O contexto onde está inserido esse sujeito pode ser um determinante, é por isso que torcidas organizadas são as grandes vilãs, pois criam uma atmosfera onde o indivíduo se vê acolhido e motivado pelo mesmo tipo de sentimento dos demais, encorajando-o!

Então não há diferença entre Torcedores, Vândalos ou Devotos?

Sim, existe diferença, porém ela não é compreendida corretamente. O erro está no fato de que a maioria acredita ser um torcedor, quando na verdade são devotos propensos a cometer vandalismo. O futebol, mesmo sendo um esporte, está marcado por uma devoção semelhante a religiões extremistas. O vandalismo "brando" dos chamados "torcedores" (discussões, xingamentos, ações exageradas, supervalorização) é o tipo de rivalidade ofensiva que vem modelando culturalmente as pessoas para deixarem de ser simplesmente torcedoras, para se tornarem devotas e consequentemente criminosas.

Existe Solução?

Penso que é necessário um processo de DESVALORIZAÇÃO a toda forma de rivalidade ofensiva dentro do futebol. As pessoas conscientes precisam demonstrar uma atitude de DESPREZO para com os "torcedores", programas de TV, rádios e jornais que incentivam debates intermináveis sobre futebol, servindo apenas para acentuar a rivalidade ofensiva e fomentar uma alienação cultural quanto às práticas esportivas

Diferente das mídias privadas que não possuem interesse nesse tipo de conscientização, uma vez que lucram com a "idiotização das massas", é importante que os setores independentes façam esse trabalho. A escola, comunidades religiosas, redes sociais, bloggers (como faço com esse texto), sites independentes e formadores de opinião de modo geral. Educar os filhos para que enxerguem o futebol apenas como MAIS UM esporte, não fazendo dele uma razão de vida, objeto desenfreado de consumo e valor, mas apenas uma OPÇÃO DE ENTRETENIMENTO. 

Outra medida importante é deixar de alimentar em excesso a indústria do futebol, não aceitando pagar somas absurdas para ingresso nos estados, bem como adquirir acessórios dos times. Pode não parecer inicialmente, mas tudo isso quando demasiadamente enfatizado pela mídia, atribui uma ideia de valor cada vez mais forte ao sentimento de DEVOÇÃO. Em outras palavras, quanto mais FANÁTICO (torcedor?) você for, mais lucro é para o time e seus patrocinadores. Isso repercute diretamente no comportamento dos que não sabem separar sua devoção (a ilusão de ser alguma coisa junto com o time) da realidade (um mero espectador da riqueza dos outros).

Finalmente, em ano de Copa do Mundo esse não é um texto fácil de digerir para os amantes do futebol, mas escrevo em nome da sanidade coletiva e bom uso do esporte, seja ele qual for. Diante de mais uma morte em nome do futebol, deixo registrada minha colaboração para que outros se conscientizem e passem a tratar o ser humano como sujeito digno de respeito, proteção e valor, acima de qualquer rivalidade, especialmente a que se diz esportiva.

Abraço e até a próxima...

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