"Por Uma Outra Globalização" - Será? Resumo Crítico!

 
Não é surpresa a utilização do termo – globalização perversa -, visto que em épocas anteriores, em sociedades que já se evidenciavam o poder, o status social e o bem material como parâmetros de comparação entre o ser importante e o ser utilitário, indícios dessa perversidade sistêmica já começava a surgir.

Ora, o próprio surgimento da política organizada na sociedade grega séculos a.c foi fruto da tentativa de situar a demo numa espécie de globalização territorial, de modo que, envolvesse todos os assuntos referentes ao interesse público sob as “régias” de uma única assembleia constituinte, assentada sobre o que foi tido como ideal democrático, mas, possuidor de um real interesse manipulador.

Claro, longe de uma comparação idêntica ao modelo de globalização atual, a intenção é apenas remeter a memória do leitor a tempos em que o globalitarismo no qual se refere Milton Santos, tem evidências embrionárias já mesmo na Grécia antiga, tida como berço da democracia. Afinal, foi esse mesmo globalitarismo autorgado pela competitividade pura em face do poder, que assassinou os irmãos Tibério e Caio Graco, que a exemplo da implementação da Lei Frumentária do pão, parecem não ter atendido as exigências e interesses de uma classe dominante e exclusivista.

Temos também exemplo deste globalitarismo no domínio católico durante o tempo que vai de 310 d.c à (históricamente falando) aprox. o séc. XVI. Uma globalização? Sim, da fé, do conhecimento científico restrito aos mosteiros e conventos isolados da população. Mas uma globalização que na verdade funcionava como globalitarismo eclesiológico espalhado aos vários setores da sociedade, dominando-o e moldando mediante as suas conveniências (de mercado?). E assim como também escrito por Santos, práticas políticas de interesses que antecedem uma ideologia, que embora sendo real, viável, concreta ou não, serviram de fundamento para um totalitarismo enfacetado.

Pois bem, mas o tipo de globalização modelo que hoje vemos, inicia-se realmente com o surgimento dos grandes capitais, e por trás destes, as grandes organizações mercantis que controlam estes capitais. Dos cavaleiros templários (considerados a primeira organização financeira internacional supostamente extinta em 312 d.c) às atuais praças de Nova Iorque, Londres e Tóquio, o pensamento globalizante nasce erguendo a bandeira de liberdade, consumo e poder, impulsionado pela primeira revolução industrial (industrial?) no séc. XVII.

Com o aumento das produções industrializadas e a extinção gradual cada vez mais evidente da manufatura, os grandes produtores necessitavam de um mercado consumidor cada vez maior. Um mercado aliado a conceitos de poder, riqueza e conquistas vistas como indispensáveis, pois uma vez que um ideal de boa vida esteja ligado a construção de um sujeito possuidor daquilo que é tido como característica de um ser importante aos olhos da classe “privilegiada”, logo, os esforços do indivíduo (menos esclarecido?) serão canalizados para a conquista do que lhe é “imposto”. 

Assim, se constroem as bases da conquista, onde, por esta, se traz a sensação do poder, evidenciando a competitividade e a superação em prol de uma meta estritamente coisificada.  

Impondo uma tirania de mercado consumidor, o que há como instrumento de manipulação? O controle da informação. Este controle, evidente que não se faz vetando-o em todos os sentidos, mas modificando o que não for conivente aos interesses exploratórios. Desse modo o tipo de informação que chega a sociedade, são “fabulações, a percepções fragmentadas e ao discurso único do mundo, base dos novos totalitarismos – isto é, dos globalitarismos – a que estamos assistindo”. Discurso único de que o acúmulo de capital é uma meta em si mesma, fazendo disto uma emergência ideológica capaz de ditar o comportamento social, até mesmo sua linha de pensamento.

É certo que há uma evidente globalização em alguns aspectos de forma positiva. Se há algumas décadas atrás levávamos dias para nos comunicar com alguém do outro lado do mundo, hoje precisamos apenas de alguns segundos. A comunicação disponível as mãos do consumidor é uma ferramenta de benefício indiscutível proveniente da globalização. Se um país A não comportasse/importasse a tecnologia X de um país B, a população do país C poderia não se comunicar com facilidade com a população do país A. Esse tipo de vertente globalizante deixa claro que, uma coisa são os interesses que dominam e motivam o processo de globalização, outra coisa, é o que a globalização de planejamento humanitário e voltado ao bem-estar da vida humana pode nos trazer como benefício, aqui então se justifica a proposta do autor – Por Uma Outra Globalização.

No entanto, sabemos que a ênfase dada ao processo de globalização está mais voltada para as estratégias dos grandes produtores  imperialistas, do que para a concretização de seus ideais humanitários:

“ É a partir dessa generalização e dessa coisificação da ideologia que, de uma lado, se multiplicam as percepções fragmentadas e, de outro, pode estabelecer-se um discurso único do “mundo”, com implicações na produção econômica e nas visões da história contemporânea, na cultura de massa e no mercado global... é uma forma de totalitarismo muito forte e insidiosa, porque se baseia em noções que parecem centrais à própria idéia da democracia – liberdade de opinião, de imprensa, tolerância - , utilizadas exatamente para suprimir a possibilidade de conhecimento do que é  o mundo, e do que são os países e os lugares”. 

Em meio a estes fatos, surge a influência negativa no que é chamado pela Psicologia Social de inconsciente coletivo. As massas populacionais tendem a serem arrastadas pelas correntes insidiosas dos veículos de massa, ou seja, os meios e instrumentos de manipulação utilizados pelas grandes empresas; isto é, a mídia, a ciência e até mesmo a política, que passam a atender não as necessidades reais da população humana que podem ir de encontro aos interesses da exploração sistêmica, mas sim aos benefícios concedidos, oportunizados de tais empresas para com estes meios.

Dessa forma se cria uma esfera de interesses que vai sendo incutida a mente do social, de maneira que suas ações e pensamentos se moldem ao modelo de vida que for ideal não a vida humana, mas sim ao capitalismo exploratório. 

O sujeito já prepara sua vida pensando nas exigências de um mercado explorador, para que da mesma forma que ele for explorado, um dia possa explorar. Da mesma forma que for controlado, um dia possa controlar. Esta mecanização da vida humana camuflada por termos publicitários que só servem para vender o ideal de crescimento, ambição e poder, se infere no inconsciente social de modo maciço através da mídia e de uma política atada ao poderio das grandes empresas.

Despertados para um lema de competitividade radical, os indivíduos fazem de suas metas regras de condutas competitivas, onde o espaço a generosidade e compaixão dão lugar a busca tenaz e muitas vezes, corrupta, pelo poder almejado.

“Agora, a competitividade toma o lugar da competição”. A concorrência atual não é mais a velha concorrência, sobre tudo porque chega eliminando toda forma de compaixão. A competitividade tem a guerra como norma. Há, a todo custo, que vencer o outro, esmagando-o, para tomar seu lugar. “Essa guerra como norma justifica toda forma de apelo à força, a que assistimos em diversos países, um apelo não dissimulado, utilizado para dirimir os conflitos e conseqüência dessa ética da competitividade que caracteriza nosso tempo”.        

É como conseqüência dessa implementação e influência sobre o inconsciente social que até mesmo as áreas de estudos humanos perdem sua força, pois os valores humanos não são postos em foco, mas sim os interesses de um mercado globalizado. É uma exaltação a um sistema autômato que por si mesmo é excludente de princípios que o deveria reger e impor limites a sua violação de utilidade e importância social;

“para tudo isso, também contribuiu a perda de influência da filosofia na formulação das ciências sociais, cuja interdisciplinaridade acaba por buscas inspiração na economia. Daí o empobrecimento das ciências humanas e a conseqüente dificuldade para interpretar o que vai pelo mundo, já que a ciência econômica se torna, cada vez mais, uma disciplina da administração das coisas ao serviço de um sistema ideológico. É  assim que se implantam novas concepções sobre o valor a atribuir a cada objeto, a cada indivíduo, a cada relação, a cada lugar, legitimando novas modalidades e novas regras da produção e do consumo”. 

O tipo de unificação a que se busca se fundamenta sobre o eixo do dinheiro e do consumo. Suas bases são muito mais sólidas do que se pensa, pois estão arraigadas a aprendizagem social de que o que vale é o ter e poder. O conhecimento de que a importância do ser e do caráter humanizado constitui o verdadeiro objetivo a ser buscado não passa de um mito, que só funciona nas oportunidades de manifestação em atos públicos e em campanhas onde certamente, (sejam empresariais ou políticas, na verdade tudo é política!) alguém sairá publicitariamente beneficiado. A ética como norma de conduta para um bem, de que fala o professor da USP Gabriel Sharita, perde quando em jogo está o montante de dinheiro do faturamento anual obtido sobre a mão de obra compensatória (pra não dizer assalariada!). Neste caso, é a compreensão de uma ética como norma de conduta... e ponto!  Assim, tudo quanto convir, desde que seja para o bem do consumo e produção, pode ser chamado ético.

“É também a partir desse quadro que se pode interpretar a serialização de que  falava J.-P. sartre em Questions de méthode, Critique de la Raison dialectique, 1960. Em tais condições, instalam-se a competitividade, o salve-se-quem-puder, a volta ao canibalismo a supressão da solidariedade, acumulando dificuldades para um convívio social saudável e para o exercício da democracia. Enquanto esta é reduzida a uma democracia de mercado e amesquinhada como eleitoralismo, isto é, consumo de eleições, as “pesquisas” perfilam-se como um aferidor quantitativo da opinião, da qual acaba por ser uma das formadoras, levando tudo da política. Na esfera da sociabilidade, levantam-se utilitarismos como regra de vida mediante a exacerbação do consumo, dos narcisismos, do imediatismo, do egoísmo, do abandono da solidariedade, com a implantação galopante, de uma ética pragmática individualista. É dessa forma que a sociedade e os indivíduos aceitam dar adeus à generosidade, à solidariedade e à emoção com a entronização do reino do cálculo (a partir do cálculo econômico) e da competitividade”.) 

Sem dúvidas. É necessário uma reformulação de valores éticos humanos para que só assim possamos pensar na possibilidade de um outro tipo de globalização. Uma globalização de valores livres da violência estrutural imposta as populações, livre da busca pelo dinheiro puro, do competitivismo radical excludente do ser em primeiro lugar, em substituição pelo produto de uma ordem sistêmica perversa.

Certamente Milton Santos tem em seu trabalho não apenas uma visão reformuladora de novos ideais, mas também reflexo de apenas um dos poucos que discernem os problemas que estamos, e vamos enfrentar durante as próximas gerações.   

Deixando aberta a idéia de um novo desfecho para os acontecimentos tratados nesse pequeno resumo crítico, termino com as palavras de esperança do professor:

“Mas não há apenas um caminho e este não é obrigatoriamente o da passividade. Por conseguinte, não é verdade que a globalização impeça a constituição de um projeto nacional. Sem isso, os governos ficam à mercê de exigências externas, por mais descabidas que sejam... Cremos, todavia, que sempre é tempo de corrigir os rumos equivocados e, mesmo num mundo globalizado, fazer triunfar os interesses da nação”.  (Milton Santos)

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