"Globalitarismo" - A Realidade Por Trás da Globalização


Podemos usar com propriedade, a exemplo de Milton Santos, o termo – globalização perversa -, visto que em épocas anteriores, em sociedades que já demonstravam o ideal de poder, status social e o bem material como parâmetros de comparação entre o ser importante e o ser utilitário, indícios dessa perversidade sistêmica já se via surgir.

Ora, o próprio surgimento da política organizada na sociedade grega séculos a.c foi fruto da tentativa de situar a demo numa espécie de globalização territorial, de modo que, envolvesse todos os assuntos referentes ao interesse público sob as “régias” de uma única assembleia constituinte, assentada sobre o que foi tido como ideal democrático, mas, possuidor de um real interesse manipulador.

Essa crítica não está distante do que vemos em muitos movimentos políticos/ideológicos atualmente. O poder é criticado quando fora das mãos de quem critica. Não importa o conceito por trás da crítica, ele será realmente testado após o poder adquirido.

Claro, longe de uma comparação idêntica ao modelo de globalização atual, a intenção é apenas remeter a memória do leitor a tempos em que o globalitarismo no qual se refere Milton Santos, tem evidências embrionárias já mesmo na Grécia antiga, tida como berço da democracia. Afinal, foi esse mesmo globalitarismo autorgado pela competitividade pura em face do poder, que ironicamente assassinou os irmãos Tibério e Caio Graco, onde a exemplo da implementação da Lei Frumentária do pão (qualquer semelhança NÃO é mera coincidência), parecem não ter atendido as exigências e interesses de uma classe dominante e exclusivista.

Temos também exemplo deste globalitarismo no domínio católico durante o tempo que vai de 310 d.c à (históricamente falando) aprox. o séc. XVI. Uma globalização? Sim, da fé, do conhecimento científico restrito aos mosteiros e conventos isolados da população. Mas uma globalização que na verdade funcionava como globalitarismo eclesiológico espalhado aos vários setores da sociedade, dominando-o e moldando mediante as suas conveniências (de mercado?). E assim como também escrito por Santos, práticas políticas de interesses que antecedem uma ideologia, que embora sendo real, viável, concreta ou não, serviram de fundamento para um totalitarismo enfacetado.

Pois bem, mas o tipo de globalização modelo que hoje vemos, inicia-se realmente com o surgimento dos grandes capitais, e por trás destes, as grandes organizações mercantis que controlam estes capitais. Dos cavaleiros templários (considerados a primeira organização financeira internacional supostamente extinta em 312 d.c) às atuais praças de Nova Iorque, Londres e Tóquio, o pensamento globalizante nasce erguendo a bandeira de liberdade, consumo e poder, impulsionado pela primeira revolução industrial no séc. XVII.

Com o aumento das produções industrializadas e a extinção gradual cada vez mais evidente da manufatura, os grandes produtores necessitavam de um mercado consumidor cada vez maior. Um mercado aliado a conceitos de poder, riqueza e conquistas vistas como indispensáveis, pois uma vez que um ideal de boa vida esteja ligado a construção de um sujeito possuidor daquilo que é tido como característica de um ser importante aos olhos da classe “privilegiada”, logo, os esforços do indivíduo (menos esclarecido?) serão canalizados para a conquista do que lhe é “imposto”

Assim, se constroem as bases da conquista, onde, por esta, se traz a sensação do poder, evidenciando a competitividade e a superação em prol de uma meta estritamente coisificada.  

Impondo uma tirania de mercado consumidor, o que há como instrumento de manipulação? O controle da informação. Este controle, evidente que não se faz vetando-o em todos os sentidos, mas modificando o que não for conivente aos interesses exploratórios. Desse modo o tipo de informação que chega a sociedade, são “fabulações, a percepções fragmentadas e ao discurso único do mundo, base dos novos totalitarismos – isto é, dos globalitarismos – a que estamos assistindo”. Discurso único de que o acúmulo de capital é uma meta em si mesma, fazendo disto uma emergência ideológica capaz de ditar o comportamento social, até mesmo sua linha de pensamento.  

Diante desses fatos é possível imaginar que somos diariamente manipulados na maneira de pensar e agir. O que defendemos ou combatemos não é, necessariamente, resultado de uma compreensão imparcial à influência que recebemos. Por outro lado existe a possibilidade dessa avaliação "neutra", quando na percepção dos fatos notamos o sistema que lhe mantém funcionando. É como abrir um objeto eletrônico e depois montá-lo novamente, o que a princípio era visto de modo superficial, torna-se compreensível, pois sua estrutura de funcionamento foi revelada e é possível, por isso, modificá-lo para bem ou mal.

De forma semelhante, na humanidade existem os que estão "satisfeitos" com o objeto pronto, já funcionando, recebendo de outros a maneira que lhe foi determinado que funcionasse, enquanto outros (uma minoria) tem a curiosidade de desmontar o objeto para enxegá-lo na íntegra. O grande problema é que nem sempre os interessados em compreender o funcionamento do "sistema" aplicado ao objeto contribuem para a melhoria dele visando os demais, pois há sempre entre os curiosos alguns que fazem disso uma diversão/satisfação, reinventando sistemas, não para torná-los suficientes e adequados às reais necessidades da população, mas apenas iscas de um falso desejo, falsa felicidade, falso ideal, falsa cultura, falsa sabedoria, no fim de torná-la dependente de quem possa reinventar, sempre!

Abraço e até a próxima...

COMPARTILHAR

Edição:

Somos uma mídia independente, oferecendo conteúdo com perspectiva cristã através de comentários sobre notícias do Brasil e do mundo. Para apoiar, compartilhe nossos textos e curta a página no Facebook.

Anterior
Proxima