As "Vadias" de Cristo - Uma Crítica a Religão



E algumas mulheres que haviam sido curadas de espíritos malignos e de enfermidades: Maria, chamada Madalena, da qual saíram sete demônios;
E Joana, mulher de Cuza, procurador de Herodes, e Suzana, e muitas outras que o serviam com seus bens.
(Lucas 8:2-3)


Inspirado pelo texto onde faço uma crítica ao blogueiro Hermes Fernandes, intitulado "As Vadias e Hermes Fernandes - Para ser Subversivo" (leia AQUI), resolvi fazer uma pequena abordagem, especificamente de Jesus com as "Vadias". 


Citado por muitos como exemplo de compaixão e justiça, Jesus Cristo certamente tem muito a nos ensinar como devemos tratar as "Vadias" do nosso tempo, certo?

Não há na bíblia referência ao termo "Vadia", o que existe são situações em que Jesus lidou com mulheres consideradas rejeitadas, "impuras", pecadoras pela sociedade e religiosos da época. Como exemplo do que iremos pensar, leia a passagem que está no livro de Lucas 7:36-39:

E rogou-lhe um dos fariseus que comesse com ele; e, entrando em casa do fariseu, assentou-se à mesa.
 
E eis que uma mulher da cidade, uma pecadora, sabendo que ele estava à mesa em casa do fariseu, levou um vaso de alabastro com ungüento;

E, estando por detrás, aos seus pés, chorando, começou a regar-lhe os pés com lágrimas, e enxugava-lhos com os cabelos da sua cabeça; e beijava-lhe os pés, e ungia-lhos com o ungüento.

Quando isto viu o fariseu que o tinha convidado, falava consigo, dizendo: Se este fora profeta, bem saberia quem e qual é a mulher que lhe tocou, pois é uma pecadora.



Essa fantástica passagem nos mostra muita coisa sobre a cultura da época e o comportamento de Cristo. Ele vai a casa de um Fariseu, classe religiosa conhecida pela devoção à Torá, tradicionalmente considerada de pessoas "separadas", "santas", e por isso nada mais natural a primeira vista que o Filho de Deus aceitasse o convite para ir até sua casa, certo? 

Mas não é esse o motivo pelo qual Jesus aceita o convite. Ele sabia que a devoção e o tradicionalismo dos fariseus eram apenas aparência, pois a verdade das suas intenções não eram boas perante Deus. Então, o que Jesus foi fazer na casa de um hipócrita? 

Dentre outros motivos possíveis, uma das razões foi a de que Jesus queria exatamente revelar essa hipocrisia de homens que se consideravam "santos". E como Jesus ensinava com exemplos simples do cotidiano, nada melhor lhe aconteceu do que aparecer aquela "vadia" chorando aos seus pés, pois foi justamente ela, a "mulher sem nome", que num gesto de humildade e aparente humilhação obteve atenção do Mestre.

Enquanto todos ali presentes certamente enxergavam nada mais do que uma "vadia pecadora", Jesus enxergou o gesto simples e profundamente sincero de uma mulher comovida por estar diante dele. Ele não viu uma "vadia" aos seus pés, mas um ser humano carente de atenção e palavras de conforto, misericórdia e perdão. 

Não foi a "santidade" do fariseu conhecedor das leis que deu acolhida àquela mulher, mas o amor de um "favelado" de Nazaré e carpinteiro chamado Jesus, disposto a perdoar. 

A concepção de profeta do fariseu não admitia que uma mulher pecadora pudesse lhe tocar. O símbolo de pureza associado ao distanciamento dos ímpios, fez com que o fariseu não enxergasse em Cristo o verdadeiro Messias, pois ao contrário do que imaginava, esse Profeta fazia questão de se aproximar dos ímpios, excluídos e miseráveis taxados pela sociedade "pura" da época. 

Por isso o fariseu julga: "Se este fora profeta, bem saberia quem e qual é a mulher que lhe tocou, pois é uma pecadora". Porém, como resultado, a "vadia" tornou-se filha de Deus, perdoada pela fé depositada naquele que afirmavam ser o Mestre, enquanto o "santo fariseu", iludido por sua santidade meramente religiosa, teve de Cristo uma crítica fatal sobre seu comportamento, quando disse:


"...voltando-se para a mulher, disse a Simão: Vês tu esta mulher? Entrei em tua casa, e não me deste água para os pés; mas esta regou-me os pés com lágrimas, e os enxugou com os cabelos de sua cabeça.

Não me deste ósculo, mas esta, desde que entrou, não tem cessado de me beijar os pés.


Não me ungiste a cabeça com óleo, mas esta ungiu-me os pés com ungüento.


Por isso te digo que os seus muitos pecados lhe são perdoados, porque muito amou; mas aquele a quem pouco é perdoado pouco ama.


E disse-lhe a ela: Os teus pecados te são perdoados.
"



Trazendo para os dias atuais, vemos em diversas doutrinas a mesma postura dos fariseus na época de Cristo. Compreendem a santidade como sendo a separação do ser humano mais necessitado de misericórdia, acolhimento e perdão, quando Jesus ensina exatamente o contrário. 

Uma espécie de "pureza" traduzida na maneira de vestir, falar, andar. Na beleza de templos revestidos com mármore, púlpitos dourados e equipamentos sofisticados, quando, na prática, os verdadeiros anseios humanos são ignorados face a vaidade cultural.

As "vadias" de Cristo anunciam um Deus de misericórdia, pronto a receber o coração aflito, pois delas o que vemos não são pessoas reivindicando o direito de errar, mas de serem acolhidas quando dispostas a compreender a necessidade de mudança. 

Por outro lado, Deus anuncia através das "vadias" o repúdio a religião enquanto sistema dogmático, burocrático e não humano, "Porque eu quero a misericórdia, e não o sacrifício; e o conhecimento de Deus, mais do que os holocaustos." Oséias 6:6.  

Não é a necessidade de se voltar para Deus (re-ligare) que Ele rejeita, mas o fazer disso algo maior que a essência da sua vontade.

Finalmente, podemos dizer que Jesus Cristo é o modelo pelo qual devemos entender como devem ser tratadas as "vadias" da nossa época. Para começar, não como vadias, mas seres humanos. Não como intocáveis, mas pessoas carentes de afeto.  Não como segundo plano, mas o objetivo pelo qual Deus queira fazer disso exemplo aos hipócritas. Isso não é um método ou doutrina, mas a experiência de quem, como Deus encarnado, pode traduzir a lógica da sua Vontade lado às necessidades humanas anunciadas pela religião, como é até hoje.
E rogou-lhe um dos fariseus que comesse com ele; e, entrando em casa do fariseu, assentou-se à mesa.
E eis que uma mulher da cidade, uma pecadora, sabendo que ele estava à mesa em casa do fariseu, levou um vaso de alabastro com ungüento;
E, estando por detrás, aos seus pés, chorando, começou a regar-lhe os pés com lágrimas, e enxugava-lhos com os cabelos da sua cabeça; e beijava-lhe os pés, e ungia-lhos com o ungüento.
Quando isto viu o fariseu que o tinha convidado, falava consigo, dizendo: Se este fora profeta, bem saberia quem e qual é a mulher que lhe tocou, pois é uma pecadora.

Lucas 7:36-39

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