Transtorno Mental ou Sintoma de Reação à Norma Social?




A definição do “normal” nem sempre se dá por uma condição patológica ou psicopatológica. Ela é muitas vezes uma rotulação daquilo que dentro de uma maioria simplesmente veio a ser diferente. Acredite, parece chocante e até pode ser desafiador, mas tal concepção se entendida como uma “verdade” inclui até mesmo a ideia tradicional de “loucura”. Duvida?

Tendemos a olhar o outro como unidade, individualidade, um sujeito pensante em meio aos demais. Esquecemos, porém, que o outro simplesmente não – está – no meio dos demais, ele é – parte – dele, constituinte de um todo que se torna visível tanto na individualidade, como na representação do grupo. O fato é que, pensemos, quando olhamos para o grupo tendemos a desconsiderar que as regras válidas para o grupo nem sempre são absorvidas pelo individual. Aqui temos uma situação interessante, se pensarmos: de quem é o problema, do grupo ou do indivíduo pertencente a ele? 

Justamente por seguirmos a regra de uma cultura de grupo, temos a maior probabilidade de afirmar que o problema está no indivíduo, que por algum motivo não se adaptou as condições do grupo. Mas se ocorrer justamente o contrário?

 Será que existe a possibilidade da alienação do indivíduo ser, na verdade, a projeção que fazemos nele, enquanto grupo, das falhas do próprio grupo, como forma "inconsciente" de acobertamento em detrimento da conveniência? Penso que sim.

O grupo em seu poder de maioria tem nisso a capacidade de normatizar até mesmo suas próprias alienações. Neste caso, quando isso acontece, o indivíduo que por algum motivo não se adaptar ao grupo será visto como – desviante – da norma e possivelmente rotulado como sujeito anormal. Não quero dizer com isso que assassinos, estupradores, pedófilos, roubadores, estelionatários, traficantes, “psicopatas”, etc. são apenas desviantes de uma normatização estabelecida por um grupo, necessariamente “correta”. Quero dizer que:

Fazendo análise do indivíduo sob a ótica normativa de um grupo dominante, podemos deixar de lançar olhar sobre a situação em que, dentro desse grupo, o sujeito tem no seu comportamento uma reação ao que para ele pode ser um objeto de alienação -- do grupo --, da normatividade constituída e, portanto, não dele.

Poderíamos estender o assunto para uma discussão muito abrangente que colocaria em cheque muito de nossa estrutura social vigente, mas não é esse o objetivo. Quero apenas deixar uma exclamação sobre o julgamento que fazemos de muitos indivíduos – desviantes -- cujas características de comportamento, pensamento, na qual convencionamos taxar de “anormalidade”, podem sugerir muito mais do que perfis de uma personalidade conflitiva consigo mesmo. Podem o ser, sim, uma “inflamação” social da norma, onde a doença que degenera não tenha raízes na individualidade conturbada do sujeito, apenas, mas sim na constituição que este adquiriu em convívio com a própria cultura dominante. 

Abraço e até a próxima...

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