UFC, MMA e Psicologia, Tem Algo em Comum?


As lutas de MMA vem ganhando cada vez mais destaque no cenário mundial, especialmente no Brasil. Como pioneiros na modalidade, com os integrantes da família Gracie, treinando e desenvolvendo campeões de jiu jitsu mundo a fora, somos o país que melhor representa essa modalidade de luta. Mas, será que ser apenas um bom lutador de UFC é suficiente para se consagrar campeão? Após a derrota de Júnios dos Santos, o Cigano, para Cain Velazques, no UFC 155, ficou evidente para o mundo que bom condicionamento físico e habilidades não são os únicos ingredientes para um campeão.

Ora,  claro que não vou falar aqui da luta física, apesar de já ter praticado Karatê (amarela) e Taekwondo (azul), certamente não é esta a minha "praia". Mas posso falar sim, da Psicologia aplicada a luta, ingrediente indispensável à formação de qualquer atleta, o que dirá dos lutadores de MMA?

Acompanho assiduamente, praticamente todos os eventos do UFC, e os que não pude ver na época do Pride e início do UFC (década de 90), assisto fazendo downloads dos eventos completos e, portanto, acredito ter uma boa noção dos elementos decisivos na hora da luta. Por acreditar também que não existam muitos profissionais da Psicologia voltados à essa questão (apesar da Psicologia Esportiva ser uma especialidade da profissão), nada melhor do que um fã de MMA, ex-atleta, e também acadêmico de Psicologia, para falar de como a condição emocional/psicológica pode afetar, até mesmo decidir uma luta de Mixed Martial Arts.

O que muitos treinadores e lutadores desconsideram nos treinamentos é a postura diante de seu oponente. Eles sabem que estár com a mente "equilibrada", com foco e concentração é importante, mas será apenas isso? A Psicologia procura compreender o ser humano através do seu comportamento, exatamente porque este é o meio pelo qual falamos, mesmo sem dizer uma única palavra. Em outras palavras, nossos gestos e atitudes falam por sí só, as vezes com muito mais precisão do que as palavras ditas. Sendo assim, a grande questão  é; do que adianta estár com a mente "equilibrada", se não traduzir esse equilíbrio em atitudes que favorecam a vitória? Chegamos no grande ponto "G" da questão; todo atleta pode usar a Psicologia como ferramenta de auxílio para obter seus resultados. No caso das lutas de MMA, por exemplo, é plenamente possível aliar o conhecimento psicológico às estratégias dentro do octogono. Existem vários exemplos de como isso pode ser feito. Vou dar alguns exemplos, utilizando a luta de Cigano e Velasquez, pontuando com outros lutadores, tais como Anderson Silva, Vítor Belfort e Jon Jones, vejamos:

 01 - Estímulos certos, respostas erradas! 

Observando o adversário, é possível responder de forma diferente aos estímulos que ele espera receber durante a luta. Foi exatamente o que o Cain Velasquez fez com o Cigano. Ele sabia que Cigano esperava ser derrubado, por isso ficou de "meia guarda" durante a maior parte do tempo com intenção de facilitar a defesa de queda. Velasquez então condiciona Júnior Cigano à ficar focado nisso utilizando alguns ataques de single led, double leg, mas na verdade, se conseguisse derrubar, seria "lucro",  pois ele estava mesmo era preparado para atacar com socos diretos e cruzados, uma vez que já havia desviado a atenção do brasileiro de sua guarda alta e esquiva. Resultado: jabs, diretos, cruzados na "cara" do Cigano. Outro exemplo foi a vitória de Vítor Belfort contra o inglês Michael Bisping. O inglês esperava os famosos e perigosos socos do brasileiro, esses eram os estímulos esperados, mas a resposta, mais uma vez foi diferente. Resultado: nocaute com "canela" na cara do inglês.

Vendo as lutas de Anderson Silva e Jon Jones, percebemos que eles são mestres em dar respostas diferentes aos estímulos que oferecem aos seus adversários. De onde vem o soco? De onde vem o chute? De onde vem a cotovelada? "Ombrada"? Esquiva? Não é por acaso que são os campeões "fenômenos". A arte da imprevisibilidade na luta é um dos grandes ingredientes para formar grandes campeões. Para isso, é preciso dar ao adversário os estímulos que ele espera receber, mas estando pronto, na verdade, para dar respostas completamente diferentes.

02 - Domínio do Octogono não é por acaso!

Dominar o centro do octogono/ringue significa estár impondo ao seu adversário a sua dinâmica de jogo/luta, e isso, acredite, é uma batalha muito emocional. Exige não apenas a tecnica correta, mas também atitudes que caracterizem esse domínio, como por exemplo, a forma de pisar o chão, "esquivar" o adversário e dar a ele estímulos. De modo geral, a primeira atitude conta muito nesse processo, por isso alguns lutadores correm contra seu oponente quando o round começa. Existem estímulos passivos e ativos, ambos falam ao adversário qual é a sua condição emocinal naquele exato momento, permitindo a ele (principalmente se for um bom intérprete) que "cresca" ainda mais sobre você. Vejamos algumas:

                 a) Andar para trás - O ideal é andar em círculos, sempre que possível, de preferência respondendo com contra-golpes. (veja Lyoto Machida);
                            b) Dar as costas ou "correr" de canto à outro
                         c) Socos e chutes "vazios" jogados ao vento - A mensagem que passa é de receio por ter o adversário se aproximando. O bom lutador não desperdiça energia, quando ataca, é para acertar!
                   d) Planta dos pés "coladas" no chão, geralmente com pisadas fortes - Refletem cansaço, lentidão e limitação tecnica, pois dificilmente atacará com chutes.

Por fim, esses são apenas alguns exemplos de como a Psicologia pode influenciar na vitória ou derrota na luta. Conhecendo a relação entre estímulos e respostas, é possível criar estratégias de atuação que confunda a mente do adversário, fazendo ele esperar por algo que, na realidade, não existirá. A atitude dentro do octogono, além da tecnica, é também um excelente golpe de mestre que afetará a percepção de muitos oponentes. A imprevisibilidade e criatividade, facilidade de adaptação, são atualmente os grandes ingredientes do sucesso em muitos esportes, especialmente nas lutas de MMA. Temos como exemplos os grandes campeões Spider, Jon "Bones" Jones, Aldo, Velasquez que exemplificam muito bem isso. Por outro lado, temos aqueles que exemplificam o quanto a falta dessa percepção pode influenciá-los à derrotas seguidas, é o caso, na minha opinião, do Wanderlei Silva.

É inegável a história e pioneirismo do "Cachorro Louco", mas o fato é que assim como tudo "evolui", a luta também. Vemos, portanto, um Wanderlei que em suas últimas lutas não apresenta algo diferenciado, senão a excelente explosão e cruzados perigosíssimos (sem falar do jiu jitsu). Mas diante de um lutador estratégico, que o fará cansar, defenderá suas quedas e atacará à meia distância (fazendo-o quase sempre andar para trás), será suficiente para vencer? Eis o caso do Rich Franklin, que usou exatamente dessa estratégia e anulou a luta do brasileiro no UFC 147. O Wand é um exemplo de que um lutador previsível e, consequentemente, facilmente estudado, dificilmente chegará (nos dias de hoje) a ser um grande campeão. Torcemos para que os brasileiros percebam essa nova realidade e continuem dominando as "arenas" do mundo pós-moderno.

Abraço e até a próxima...

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