Estrutura Familiar e Aprendizagem - Comentário de Aula

          

Este artigo é um comentário, criado com o intuito de responder a colocação feita por uma professora, no curso de Psicologia, de que a Estrutura Familiar NÃO prejudica, necessariamente, o desenvolvimento do aprendizado, tendo como ênfase famílias monoparentais, conjugais, homoafetivas ou não. O texto aborda os aspectos afetivos, cognitivos e morais de uma criança sob a perspectiva do desenvolvimento humano, entendendo isso como parte integrande do processo ensino-aprendizagem, e não apenas a relação de capacidade, transmissão e assimilação de conteúdos. Isto é, o texto defende a ampliação do que se entende por dificuldade de aprendizagem, elevando nossa compreensão a um nível mais formativo não só do desenvolvimento intelectual, mas principalmente afetivo e moral de um sujeito.


Natureza do Comentário

 - O comentário não trata das capacidades biológicas do indivíduo, considera-se aqui o sujeito sem qualquer limitação cognitivo-física de aprendizado;
 

 - O comentário não trata das limitações materiais, como livros, cadernos, salas, etc. Considera-se aqui a existência de uma condição material mínima para o aprendizado;
 
 - O comentário trata do aspecto afetivo/emocional e moral/ético, como participante do desenvolvimento educacional, tendo como principal fonte de formação e influência, a família e sua estrutura.

         Vejamos a seguir os principais motivos pelos quais o autor defende, até então, sua forma de pensamento.



- Efeito Família, Efeito Escola



Segundo pesquisadores, estima-se que 30% do aprendizado de um indivíduo é construído pela escola, e 70% pela família. Este entendimento, porém, afirma estarem os dois “efeitos” interligados e operando simultaneamente, uma vez que o processo de aprendizagem é psicossocial e, portanto uma interação de fatores, ou seja; “a pedagogia familiar não deve esta desarticulada da pedagogia escolar” LIBÂNEO (2000, p.85).



Evidente também que esta compreensão não se refere a conhecimentos específicos, como conteúdos de Física, Biologia, etc., mas do interesse, motivação que tem o sujeito em querer aprender estes conteúdos. Ora, é fato considerar que o aprendizado não é por si só, uma transmissão de conteúdo, mas sim, e principalmente, a recepção e assimilação do mesmo. Entendido isso, é possível pensar que os elementos afetivos, motivacionais/éticos, são antes de qualquer boa estrutura didática ou mesmo da própria capacidade, os grandes propulsores do aprendizado. 


A família é a grande fonte de inspiração, ou repressão do aprendizado, o que parece não implicar em diminuição ou aumento das capacidades de um sujeito, mas em favorecer ou não as condições psíquicas suficientes para que o mesmo possa desenvolver suas capacidades. Para Maria Julia Scicchitano Orsi, a dificuldade de aprendizagem é um sintoma psicossocial, em que a família pode ser um dos principais responsáveis. Citando Elizabeth Polity, Orsi comenta:

Para Polity (2001), a dificuldade de aprendizagem pode ser definida como um sintoma psicossocial, com pelo menos três constituintes básicos: a criança, a família e a escola. Sua evolução está intimamente relacionada com a estrutura e dinâmica funcional do sistema familiar, educacional e social no qual a criança está inserida.

Orsi ainda em Família: Reflexos da Contemporaneidade na Aprendizagem Escolar destaca que novos arranjos familiares entendidos como desestruturação podem, de fato, acarretar não apenas desajustes no rendimento escolar, como na própria sociedade como um todo, haja visto que a família é uma célula social. Em outras palavras, podemos entender que nem toda reorganização familiar representa, de fato, uma evolução no aspecto humano do aprendizado, muito embora a didática e a política se adapte ao processo, o que muitos vêem como “evolução” cultural, pode ser na verdade apenas a conseqüência de uma adaptação imediata, até mesmo de anseios políticos, pensando nisso ela critica:

A educação e a formação do indivíduo estão hoje sobredeterminadas pelo sistema capitalista e pela ciência que, com seus saberes, define o tipo ideal de pai, de mãe, de filhos, de alunos e de escola que a sociedade de consumo necessita. Com isso, a família sofre os efeitos da industrialização, pois quando o modo de ser dos homens se torna padronizado, a família deixa de ser livre para educar. 

Como conseqüência desse processo, o efeito escola, que antes seria de transmitir conteúdos para aqueles que já poderiam ter a disposição de recebê-los, passa a ter outras responsabilidades, uma vez que uma maior disposição em aprender, construída pela boa relação afetivo-cognitiva com a família, vai sendo substituída por outros interesses, que não necessariamente a formação do sujeito. Assim, podemos pensar que ao entender o processo de aprendizado restrito às capacidades cognitivas e físicas, de modo individual, delegando ao indivíduo sua responsabilidade sobre a escolha de aprender e adaptando nossos métodos às alterações sociais sem uma análise criteriosa dos motivos, estamos eliminando a parte mais sensível desse processo, que influencia diretamente não apenas no modo de adquirir este aprendizado, como no rumo que poderá tomar. É pensando nessa assimilação/identificação com o meio (motivador ou repressor), que diz Vigotski:

...o aprendizado humano pressupõe uma natureza social específica e um processo através do qual as crianças penetram na vida intelectual daqueles que as cercam. Vigotski (1996 p.115)

Ora, pais confusos emocionalmente, perturbados afetivo e psicologicamente, não seriam o campo no qual as crianças vão penetrar, como diz Vigotski? O motivo para o aumento de jovens com dificuldade de atenção, ansiedade, compulsão, hiperatividade e estresse, não seria majoritariamente o reflexo de suas vivências no lar? Pensando nisso, continua Orsi:
...essa atividade exacerbada da criança, que é uma das causas das dificuldades de aprendizagem e que compromete a capacidade de atenção, uma vez contextualizada, pode ser pensada como uma forma de ansiedade que reflete um modelo familiar que, por sua vez, é sobre-determinado pelo sistema social e econômico.

         Esta conseqüência refletida nas dificuldades de aprendizado do aluno delega ao sistema de ensino a responsabilidade de suprir o que seria de competência familiar, mas que ao ser entendido como “função educativa” do sistema, procura conferir um valor métrico ao que deveria ser, antes de tudo, de caráter afetivo e social daqueles que representam (ou deveriam representar), a maior fonte de identificação da criança, a família. “É na família que o indivíduo irá buscar energia, sustentação para enfrentar situações difíceis de serem vivenciadas”. (PORTES, 2000, p.70).


- Ambiente e Aprendizado

Um olhar mais cuidadoso sobre o processo ensino-aprendizagem nos faz pensar que a capacidade do sujeito em aprender, independe do que lhe motiva a entender este aprendizado útil para sua vida, e para a sociedade. Logo, a ideia de dificuldade assume também um significado mais formativo no âmbito conceitual, ou seja, o que pretendemos alcançar no entendimento futuro de uma criança com déficit de atenção, hiperatividade, compulsão, baixa estima, complexos diversos, transtornos de personalidade?

A resposta a essa questão, penso, não parece difícil por acaso, isso ocorre justamente porque ela não é de competência da escola, mas diz respeito à família, e isso também faz parte do processo ensino-aprendizagem, uma fez que ambos os efeitos, escola e família, atuam simultaneamente. O que acontece atualmente é exatamente a ausência do efeito família, em substituição por questões de interesse capital, ideológico, político, que não representam, necessariamente, uma evolução social saudável. Entender dificuldade no aprendizado, portanto, não é só identificar elementos cognitivos ou físicos que limitam este processo apenas na esfera individual da criança, mas principalmente no ambiente moral, afetivo, cultural, os quais subsidiarão não apenas a manutenção da aprendizagem de forma A, ou B, como permitirá um melhor ajustamento social, em forma de práticas políticas e culturais, no futuro. Este pensamento amplia o conceito do educador, porém, não lhe dando as responsabilidades da família ou do social, mas fornecendo a compreensão de uma educação que integra as diferentes capacidades do sujeito ao meio que pertence, permitindo que sua intervenção pedagógica leve em consideração outras construções, dentre tais a familiar, como parte desse processo, isto é:

Educação é o conjunto de ações, processos, Influências, estruturas que intervêm no desenvolvimento humano de indivíduos e grupo na relação ativa com o ambiente natural e social, num determinado contexto de relações entre grupos e classes sociais LIBÂNEO (2000, p. 22).

            Observamos então que a família como contexto de vida de um indivíduo está diretamente relacionada às dificuldades de aprendizado. Karl Max, por exemplo, verificou no século XIX o baixo rendimento escolar, aumento da mortalidade infantil, ausência de crianças nas escolas, por conseqüência da industrialização “forçada”, que "obrigava" as mulheres a trabalharem por longas horas nas fábricas, por necessidade de ajudarem seus maridos na renda da família, uma vez que a essência da industrialização não estava (nem está) no uso de máquinas, mas no aceleramento de uma produção a um custo reduzido, sendo assim, melhor do que pagar mão de obra especializada para operar máquinas, é pagar menos, porém, a um número maior de empregados, desempenhando a mesma função das máquinas, daí a entrada das mulheres e crianças nas indústrias. O que se vive então não é, necessariamente, o desenvolvimento de uma cultura humana, mas o que é chamado por alguns de "Cultura Material", onde os efeitos se revelam na educação e em todos os aspectos da sociedade, sendo a família uma pequena amostragem dos efeitos desse processo, e tendo a educação como o nosso maior desafio.
 
 
 
Referências





VIGOTSKY, L. S. A formação social da mente. São Paulo: Martins Fontes, 1988.

LIBÂNEO, José Carlos. Pedagogia e pedagogos, Para quê?. 3 ed. São Paulo: Cortez, 2000.

GOODE, Josiah William. Revolução Mundial e Padrões de Família. São Paulo. 1963.

ORSI, Maria Julia Junqueira Scicchitano.

http://www.abpp.com.br/abppprnorte/pdf/a08Orsi03.pdf  Acessado em 24 de setembro de 2012


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