WELLINGTON E UM BRASIL DE ASSASSINOS "CIVILIZADOS"


O texto abaixo fala sobre o Massacre de Realengo, chacina ocorrida em 7 de abril de 2011, na Escola Municipal Tasso da Silveira, localizada no bairro de Realengo, na cidade do Rio de Janeiro. Na época, o que escrevi já tratava o acontecido por outro ângulo. Agora, passado alguns anos e novas descobertas sobre o perfil do assassino Wellington Menezes de Oliveira, o enfoque do texto que foi escrito logo após o massacre, ganha ainda mais sentido, e por essa razão faço a republicação abaixo para que você leia e reflita esse conteúdo que se atualiza a cada nova notícia de tragédias semelhantes. Antes de continuar, peço que veja o vídeo abaixo e analise as palavras do próprio Wellington sobre o que para ele foram os motivos da tragédia em Realengo. Veja:



Assistiu o vídeo acima? Segue o texto:

Esse não é um texto para ser lido sem ser pensado com cuidado, pois a intenção aqui é mostrar a você, leitor, o outro lado dessa tragédia que coloca o assassino não como o principal autor do que aparenta ser um ato psicótico, mas apenas uma pequena peça num cenário no qual nós podemos ser os maiores cúmplices... 



Discutimos muito de quem é a culpa da tragédia de Realengo. Traçamos perfis diferentes para o assassino, procurando entender os motivos dessa tragédia. Nos revoltamos, choramos, entristecemos, estamos de luto. Sim, estamos de luto... Mas, em meio a toda essa barbárie o pior não é saber que este é apenas um único assassino, do qual iremos nos esquecer um dia por ter cometido algo diferente daquilo que estamos acostumados a ver, diariamente, como crime (você já estava esquecido, certo?). O pior é saber que NÓS podemos ser os principais responsáveis quando, muitas vezes, sem saber, não apenas CRIAMOS, mas também incentivamos esses e outros POSSÍVEIS assassinos como Wellington Menezes.

Qual a diferença daquele que expõe todas as suas alienações numa atitude brutal, daquele que vivencia as mesmas alienações, tão brutais quanto, no dia-a-dia de uma sociedade de aparências através do modo como é tratado por essa mesma sociedade? Ora, pensemos; não é aparência julgar que desfrutamos de leis, quando na prática o que vemos não são “medidas que garantem o direito dos indivíduos, mas sanções que preservam o controle das “massas” e resguardam o poder dos que fazem uso da justiça em prol de seus interesses”? 

Não é aparência julgar que lutamos por uma política de paz e amor, quando em nossas casas, ante aos olhos, você e eu damos lugar privilegiado aos filmes terroristas de Hollywood? Isso não é, também, uma espécie de alienação progressiva da mente?

Não é aparência julgar que educamos nossos filhos ao amor e respeito ao próximo, quando na verdade o que fazemos é jogá-los à educação feroz dos jogos de terror, crimes e destruição em massa? Mais que aparência de uma sociedade “civilizada”, isso é hipocrisia social.

De quem é a maior culpa para tragédias como a de Realengo? Do assassino Wellington Menezes? Tendemos à julgar que sim, e julgamos certo, pois o que julgamos é o que podemos ver pela consumação dos fatos, e ele foi quem consumou os fatos. Porém, deixando os fatos de lado e olhando as CIRCUNSTÂNCIAS que produziram e culminaram nesses fatos, nos deparamos com nada mais do que um sujeito qualquer, oriundo de um contexto familiar conturbado, confuso? talvez, mas afinal, e não há confusão em muitos contextos semelhantes, porém, com resultados positivos? talvez também! Isso depende do que entendemos por 'positivo' e da dimensão da dor sofrida por cada sujeito dentro desse contexto. É fato, porém, que cada um sabe a dimensão da própria dor e age por ela segundo às suas capacidades ou entendimento. Em todo caso, falamos de um sujeito fruto circunstancial de uma sociedade alienante, onde nós ditamos os costumes. Tachá-lo de psicologicamente doente é fácil, quando queremos ignorar os muitos fatores culturais que influenciam e/ou até determinam isso que chamamos de "doença".

Fico pensando; o que separa Wellington Menezes de nós e nossos filhos? Talvez (e assustadoramente), seja apenas a incapacidade dele em lhe dar com seus monstros de forma “civilizada”, precisando, como a maior parte dos lunáticos, criar para si um mundo paralelo às suas invencíveis frustrações, onde ELE DITA OS PRÓPRIOS COSTUMES... (!!!)

Contrário ao que imaginamos, nossas atitudes não correspondem ao que desejamos. O humano parece já não querer paz. Claro, a mídia não vive sem os lucros da violência-show. Nossos filmes, seriados, novelas, desenhos, programas, jogos e brincadeiras, todos tem em seu conteúdo uma bagagem de violência que sem ela parece não haver sentido e, sem perceber, estamos traduzindo toda essa "bagagem" em comportamento psicótico massivo.

A paz que buscamos não é a paz de um mundo disposto a abdicar de velhos costumes, mas a que nos interessa. A paz que nos cabe e atende apenas nos momentos que mais precisamos. Porque quando não, a falta dela é a garantia de grandes “espetáculos”, e enquanto assim for, estaremos sempre sujeitos ao ataque de outros Wellingtons!

Abraço e até a próxima...

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Jon
13 de abril de 2011 17:53

É interessante ver como todos agem com surpresa diante desse caso tão compátivel a natureza humana. Jornalistas, opiniões, oportunismos da mídia, análises psicológicos.. Ontem assisti uma reportagem que deu muita relevância às contradições de Wellinton, só não dei risadas dela porque um sentimento de tragedia me vetou. Tenho uma seguinte frase que resumo o homem e seu meio: "O homem em todo seu histórico anda em círculos e nunca fica tonto!"
Muito bom seu texto! Gostei de sua visão do "todo" que poucos conseguem fazer!

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15 de abril de 2011 11:27

Obrigado Jon, será sempre um prazer dividir com você um pouco de opinião.

Abraço.

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16 de maio de 2012 09:31

Deus o abençoe sempre!
Sua visão é certa e precisa contagiar outros.
Doce Paz!

Katya Maia

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