Documentário "Quem Somos Nós?" - Uma crítica cristã




Esse texto é uma crítica parcial, segundo a perspectiva cristã, ao documentário “Quem somos Nós?”.

Outro dia recebi uma notícia que dizia; “Você pode conseguir tudo e mudar a sua vida, quer saber como?”. Ao ler a “super” notícia vi que não passava de mero positivismo alienador. Ora, alienador?

Algum tempo atrás em minha adolescência, fui influenciado por literaturas que advogavam o status de ciência, afirmando haver inúmeras provas para suas teorias e afirmações. Um dos materiais que me recordo e chamou-me bastante atenção pela pobreza dos seus argumentos, foi “Fundamentos Científicos da Parapsicologia”, do Frei Albino Aresi. Terminei a leitura e me perguntei: onde estão as fundamentações? Triste observar o quanto a ciência pode ser manipulada em prol das mistificações alheias e com isso ganhar aspecto de religiosidade empírica.

Outro livro dos que lembro foi “Use o Poder da Sua Mente”, assim como “Hei de Vencer” e outros dessa linha que enriquecem o bolso dos que vendem em nome da auto-ajuda, mas que na verdade prevalecem não pelo poder das suas mentes, mas pelo poder irônico do mais antigo método de sucesso; o marketing da necessidade!

Mais recentemente assisti o documentário “O Segredo”. Aspecto de seriedade, cientificidade, polêmica, então eu vi, porém me arrependi. Explico:

Contexto histórico:

Nos restringindo mais a era moderna, temos no século XVII, (perceba, meados de 1700!) um sujeito que ganhou certa notoriedade com suas teorias, Franz Anton Mesmer, mais conhecido como Mesmer. Seu movimento, o Mesmerismo, repercutiu muito na Europa empolgada com a revolução industrial, as novas descobertas das ciências e o novo cenário religioso mundial iniciado com o advento da reforma protestante culminado lá por 1517-45, porém iniciado uns 300 anos antes sob omissões e muita perseguição.

Mesmer advogava a ideia de que era possível curar, influenciar e alterar estados materiais e do consciente com a força magnética. Para isto desenvolveu diversos métodos, alguns semelhantes ao que é utilizado hoje na rabdomância, uma espécie de varinha metálica que segundo ele era capaz de detectar campos de força concentrada e, a partir daí, atuar nesse campo, fosse ele um corpo humano ou o ambiente, descentralizando ou canalizando tais forças para direções diferentes e assim curando o indivíduo ou modificando seu campo energético. 

O magnetismo mesmeriano dizia também que tais forças não apenas se encontravam livres no meio que nos cerca, mas que também partem do nosso consciente, e por isso podemos ter certo controle sobre as ações desse meio através da influência magnética. Portanto, era “controlando o poder do magnetismo que se podia manipular o meio” 

(Essa ideia não surgiu com Mesmer, ele apenas tentou atribuir cientificismo a uma filosofia religiosa milenar vinda do oriente)

Após isso, já no século XIX, Hippolyte Léon Denizard D'Rivail, mais conhecido como Alan Kardec,  resolveu escrever literaturas que, segundo ele, seriam compilações de uma nova doutrina ou conhecimento de forças espirituais a ele reveladas. A verdade, no entanto, é que Kardec inspirou-se não apenas nas teorias de Mesmer, como reorganizou escritos feitos décadas antes de suas principais publicações, ocorridas por volta de 1853 à 1858. 

O Espiritismo então organiza-se como algo revelado, embora seus conceitos sejam conhecidos a mais de 6 mil anos nos Vedas hindus, sendo esses (os Vedas) não apenas a fonte original para toda a teoria da reencarnação, evolução e divinização do ser humano, como a grande "mãe" para uma gama de filosofias religiosas modernas juntamente com o Taoismo chinês.

Já em 1875, a russa Helena Petrovna Blavatsky, após suas buscas na Europa e no Oriente por “elevação pessoal”, vai a Nova York e funda juntamente com outro místico chamado Henry Stel Olcot a Sociedade Teosófica, que semelhante ao espiritismo kardequiano suscita ares de ciência, filosofia, tendo como um dos credos principais a compreensão de que o humano é parte divina, de um imenso todo divino, em um grande tudo em evolução ( eita! ).

Importante é saber e observar com essa minúscula exposição histórica, as raízes do que hoje vêm dar respaldo às muitas teorias filosófico-religiosamente-científicas (ufa!) que temos em mãos, suas principais correntes como a Metafísica (hoje personificada como Física Quântica, pois a física quântica foi a metafísica da mecânica clássica e continua tendo numerosas teorias metafísicas), a Parapsicologia, (hoje com vertentes como a Psicologia transpessoal ou Metapsicologia), a Rabdomância e agora a grande explosão das ciências orientais e seus efeitos mil e uma utilidade, enquadrando um corpo teórico difícil de peneirar, principalmente quando misturam elementos ditos científicos com interesses de capital financeiro.

Ao documentário "Quem Somos Nós?"

No documentário, para os cientistas que enfatizam dizendo “a Física Quântica é a ciência das possibilidades”, a contradição fica evidente quando no decorrer do mesmo fazem diversas afirmações conclusivas, ou seja; onde está a ciência das possibilidades? A conclusão elimina qualquer possibilidade. Mas, provavelmente, a ideia de "possibilidade" estava presente quando preparavam um arsenal de postulados teóricos a fim de convencer àqueles que, de fato, são mais propensos a crenças parciais embaladas pelo desejo de serem "deuses".

Estou criticando a Física Quântica? Claro que não! Sou contrário a Física Quântica? Também não! Estou apontando, limitadamente, àquilo que na apresentação dos teóricos apresentados no documentário foram pontos passíveis de contradição e de manipulação filosófica e mística travestida de ciência empírica.

O fato é que o documentário “Quem Somos Nós” em sua essência fala muito mais de puro positivismo e misticismo do que da Física Quântica como ciência das possibilidades. A A Química e a Biologia serviram apenas para ilustrar uma ideia filosófica que tem início na ciência com Franz Anton Mesmer, e  na Filosofia com o Humanismo de Franchesco Petrarca no século XV.
Refutando o conceito de realidade tratado no documentário:

Não importa onde esteja a realidade, existência ou o que seja classificado como tal, ao longo de algumas horas você continuará a sentir fome, cansaço e precisará dormir. Enquanto isso, sua mente continuará a processar reflexos e seu organismo dará as condições natas para lhe manter vivo. Isso não é real ou não existe por si mesmo? Claro que sim!

 
A realidade independe da existência e isso parece algo muito óbvio, pois se tudo é uma única existência/realidade, e nós, parte desse mesmo tudo, qual é o meio para o VIR-A-SER da existência que compreende a nós e o tudo? A consciência humana? Uma energia, princípio ativo, composto de material energético e fluidos imanentes? 
 
Ora, a consciência humana é uma expressão singular, reflexo e imagem (em atributos) daquele que é a condição para o vir-a-ser da existência no qual se encontra nós e tudo o que é existência. (obs; existir é vir-a-ser, pois nada existe que não tenha VINDO. Se existe, veio, e não é!)
Agora o que é a realidade? É a existência? Não, existir é, de fato, ser real, porém real enquanto existência, numa esfera que compete a própria existência humana. 

Em outras palavras, a existência é o fruto criado pela Realidade, que parte dela numa expressão categórica de seus atributos para com o ser humano, e numa expressão categórica da vida para com as demais criações. 

A Realidade transcende o existir, condição necessária para o vir-a-ser do existir, pois caso contrário nenhuma existência seria capaz de ser, pois seria em quê condição? Existência, portanto, não parte de existência. A existência parte do real. Em nossa esfera categórica de existência o real é a mente humana, da qual parte tudo o que podemos qualificar como sendo nossas criações, diferente dos animais que pertencem a mesma categoria de existência que nós, porém, com atributos diferentes dos nossos. 

No entanto, a mente humana, que representa nossa forma de realidade potencialmente criadora, é apenas o reflexo limitado do Real absoluto e transcendente que dá/É as condições necessárias não apenas de nossa limitada realidade mental, como de tudo o que existe. É por isso que na Realidade transcendente não há princípio, justificando-se quando diz, “Eu sou o Alfa e o Ômega, o Começo e o Fim”, pois a compreensão de tempo é uma percepção restrita a esfera da categoria das coisas existentes, por isso podemos dizer que a Realidade, apesar de real, NÃO EXISTE!, diferente de nós, que existimos e por isso percebemos o tempo.

 Jesus disse que somos deuses?


Quando Jesus nos deu entender que somos deuses, ele quis dizer que somos exatamente a concepção explicada acima, ou seja; somos imagem. Em todo caso, é conveniente salientar também que o termo deuses no hebraico utilizado por Jesus, tem suas raízes numa cultura retratada já no antigo testamento, que servia para designar “aqueles que compunham o tribunal”, uma espécie de espaço onde se reuniam os reis e seus principais oficiais para julgar as leis do seu povo, fato que pela responsabilidade foi taxado popularmente pelos povos como sendo “os deuses” do reinado. 

Portanto, além de Cristo evidenciar com este termo a relação, não de igualdade, mas de semelhança com o Deus Criador em atributos, não em divindade, ele faz uso de um termo que era compreendido em seu tempo popularmente como sendo “aqueles que detém o poder”, especialmente quando reflete que se somos filhos do Pai, temos, portanto, uma ligação direta com Ele, porém não em termos de igualdade de atributos, mas em semelhança.

Quanto ao positivismo fisicista:

O documentário apresenta uma violação radical as leis básicas da Biologia, pode parecer irônico, mas perceba: cada elemento do espaço existencial possui suas próprias leis, são identificados por elas e elas é que determinam a subsistência de tais elementos, caso contrário não poderíamos ao olhar uma maçã e uma pêra, dizer quem é a maçã ou a pêra. Isso mais do que uma simples aparência de manutenção a vida, é uma garantia de que os elementos existenciais respondem a uma ordem preestabelecida por leis naturais criadas harmonicamente para responder ao meio. Isto é:

 O meio se configura na garantia de que possamos sobreviver. As alterações deste, são alterações não em nossa mente por si só, mas em nosso modo de agir e interferir nas leis que regem este meio.

Desmatar milhões de equitares de floresta, liberar toneladas de clorofluorcarboneto na atmosfera, por exemplo, isto sim são alterações feitas pelo humano ao meio como consequência ao seu modo de pensar. No entanto, o que explica que este meio possa se reestruturar, recuperar e se reorganizar mesmo quando não há ação direta humana em prol de sua preservação? Consciência humana ou leis naturais preestabelecidas? Sendo assim:

“Meu” positivismo é barrado quando me deparo com as leis preestabelecidas que regem o curso das possibilidades no espaço existencial das coisas.  

Essas leis não excluem a existência de variações, isto é; possibilidades, porém as variações igualmente não excluem a existência de uma ordem no curso da existência. Posso pensar ser Deus, no entanto, continuo dependente de um conjunto de leis que sem as quais não vivo e sou dependente mesmo que eu queira pensar o contrário. Isso porque além de minha “realidade” (na verdade existência), existe algo maior que eu concentrando sob sua esfera de atuação toda a existência – a Realidade (Deus). 

Posso até pensar diferente e assim correr o risco de cair num mar de ilusão, acreditando que as ações dentro desse espaço existencial que nos IMPUTAM o conhecimento do que é certo ou errado são apenas (como diz Nietzsche) adjetivações linguísticas, embora minha realidade, imagem e semelhança do Deus, lá em meu íntimo se esforce para me dizer o contrário.

Não desconsidero a influência negativa dos nossos ânimos sobre os outros, até mesmo sobre a água, (como foi mostrado), no entanto essas possibilidades apenas demonstram que somos constituídos de atributos relacionados a algo superior a nós, e que se existe um algo que ao longo da história humana vem advogando através de inúmeras culturas e manifestações, instrumentos subjetivos e objetivos, não ser apenas algo, mas “Aquele de onde tudo vem”, então compreenderei esse algo como sendo a causa de tais efeitos e reações numa manifestação viva da relação para com o homem/existência criada.

COMPARTILHAR

Edição:

Somos uma mídia independente, oferecendo conteúdo com perspectiva cristã através de comentários sobre notícias do Brasil e do mundo. Para apoiar, compartilhe nossos textos e curta a página no Facebook.

Anterior
Proxima