NO CAOS URBANO, PERCEBER AS FACES É UMA VIRTUDE

Naquele dia a luz do sol parecia fosca. Tudo bem, a poluição ajuda, mas não foi esta poluição que fez daquela luz algo fosco. Passei por muitas ruas daquele centro, pessoas andavam apressadas de canto a canto, tudo muito corrido, pouco percebido. Eu era mais um que poderia não perceber nada e aquele dia ser mais um dos muitos dias corridos. Mas “a luz do sol estava fosca” e isso me chamou atenção. Então olhei as faces, busquei nos rostos dos andantes expressões de almas. Almas como sentimentos, sentimentos como propósitos que através da expressão das faces refletiam cansaço, fadiga, entusiasmo, alegria, frustração, tédio, vazio, euforia. Eram muitas as faces, mas poucas tinham alma no sentido de quem sabe o que esta fazendo e o porquê esta fazendo. O de quem sabe a razão do seu dia.

Mesmo que por um pequeno instante me senti fora daquela realidade, parecia que todos aqueles andantes apressados estavam em outro mundo, e eu apenas os observava, analisando suas vidas, seus sentimentos, suas mágoas e alegrias. Por um pequeno momento toda aquela agitação parecia uma única imagem, que embora diferente em sentimentos e propósitos, trazia todos a um mesmo contexto. Eu, como que envolvido por um sentimento qualquer, mesmo que por um pequeno instante, pude enxergar Maria e ver nela o quanto se preocupou em cuidar do cabelo. Pude ver João e sua preocupação com a gravata que o incomodava (se pudesse ele tirava!). Também vi alguns que em meio a todos pareciam não ter identidade, como gente, mas naquele meio de um grande centro urbano movimentado gente não anda descalço, muito menos sem camisa. Não se agarra as janelas dos ônibus, nem “faz ponto” em avenidas. Mas eu vi e talvez fosse André, Ricardo ou Ritinha, não estavam apressados, incrivelmente nem pareciam incomodados, contrastavam a paisagem urbana do “mundo real”, eram figuras postais. Pôsteres que embora excluídos daquela correria estavam lá, presentes lado aos que caminhavam rápido, lentos, desesperados, tranquilos... Eram contrastes! Como "bichos", simplesmente não eram percebidos, mas este não é um “privilégio” só deles, muita coisa não era percebida, além dos objetos, a própria vida!

Notei mais do que a luz do sol fosca naquele dia. Vi que na imagem urbana diária, todos são elementos de um mesmo quadro. Não importa a expressão, quem ou como, numa mesma moldura todos tem a mesma face, porém muitos preferem não olhar do lado ou para cima quem sabe para ver se a luz do sol brilha menos ou mais, estes sim, são simplesmente pinturas, em suas próprias percepções nada diferentes dos que andam descalços fazendo ponto nos sinais. Na verdade esses outros ainda contrastam a imagem. E os demais, o que fazem? Paisagem...

Talvez eu fosse mais um apressado, mas naquele dia percebi que a luz do sol estava fosca e quando notei isso, então me diferenciei. Naquele momento não fui imagem, quebrei a moldura, fui algo capaz de enxergar Maria, perceber o outro, me juntar aos "bichos", fazer contraste. Ao menos, eu vi as faces!

Abraço e até a próxima...

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