O NATAL QUE EXPULSOU A JESUS

Presépios não combinam com shopping center. Deve ser por isso que encontrar um presépio na decoração de Natal de uma dessas maravilhosas catedrais do consumo se tornou uma verdadeira tarefa de gincana. O Shopping celebra com naturalidade o Natal de Papai Noel, mas não tem lugar para o Natal do Menino pobre que nasceu na pequena cidade de Belém.

É verdade que o Natal do templo-shopping alimentado pelo desejo e pelas preferências de seus consumidores fiéis. O Natal do shopping põe em cena a imagem simpática de um velhinho, o "bom velhinho" Papai Noel, não por acaso um homem branco, dono de uma fábrica capaz de atender a todos os desejos materiais imagináveis. O Natal de Jesus, que é também o Natal da Bíblia e da tradição cristã, por sua vez, o que tem? Um menino pobre, com certeza de pele morena, sem nenhum presente material para oferecer. Oferece tão somente a sua presença como vitória da vida que surge às margens da opressão do império romano e dos impérios sucessivos na história.

É, o Natal de Jesus não poderia caber no shopping center. O Natal do shopping é o Natal das compras, do consumo, do dinheiro, da riqueza de poucos, do endividamento de muitos, da roupa nova, do celular novo "de graça". O Natal de Jesus é o Natal da manjedoura, é Natal de uma família de migrantes sem teto, Maria e José. Ela, grávida de nove meses. Excluídos da hospedagem nos hotéis da época, que não tinham lugar para eles, mas com certeza teriam se eles fossem ricos ou poderosos, vão dormir num curral na companhia de animais. Com certeza não era um lugar limpo, sem insetos, cheiroso. É, isso não cabe no ambiente limpo de um shopping center.

O Natal do shopping center com certeza barraria José, Maria e o Menino. Mas creio que Jesus também não se sentiria bem no shopping. Não é ai que Jesus celebraria o Natal. O Natal de Jesus combina muito mais com o Natal das crianças pobres da favela, que sonham inutilmente com presentes caros que a televisão lhes oferece, quando não dispõe sequer do essencial para a opressão e exclusão por que passam tantos brasileiros.

O Natal que expulsa Jesus e o troca por Papai Noel não tem lugar para os tantos severinos filhos de tantas marias dessa nossa região tão sofrida. Com as luzes do Natal de Papai Noel e dos shoppings, a face da exclusão e da miséria social se revela de uma forma mais cruel. Pessoas criadas à imagem e semelhança do Deus de Jesus, em frenético movimento das margens obscurecidas da favela para o brilho impassível do centro da cidade e do shopping, como cães anseiam por migalhas que caem da mesa do consumismo capitalista. Pessoas que se multiplicam pelas ruas e pelas margens como lázaros de nosso tempo, guardando não só a compaixão efêmera da esmola, mas que corram os rios de justiça com que sonhou o profeta Amós em tempos antigos e o profeta Martin Luther King em época bastante recente.

Deus nos permita que também nas igrejas, no seio das famílias e nos corações de todos cristãos Jesus não seja expulso do Natal. Que nossas celebrações não sejam dominadas pelo luxo e pelas luzes do consumo, mas impregnadas pela solidariedade, simplicidade e exultante alegria dos pastores nos campos de Belém. Deus nos conceda celebrarmos o Natal do Menino pobre e sem teto, e não o Natal do consumo e do endividamento. Deus permita que como pessoas vivenciamos no Natal um momento oportuno de conversão, kairós, plenitude de graça, da misericórdia e da justiça do Menino em nosso coração.

Um Natal assim nos permitirá sonhar um com Ano Novo mais humano, mais construtivo, mais marcado pela paz e pela fraternidade na terra, nossa casa comum.

Dr. Benedito Bezerra

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Anônimo
29 de dezembro de 2009 21:15

Excelente visão a respeito do comércio que se criou, em torno de uma celebração cristã.

Gostei muito!

Eva

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26 de dezembro de 2011 12:45

Um texto fantástico, que traz a evidência o real significado do Natal em contraste com as distorções que criamos.

Que Deus tenha misericórdia de nós. Que o seu amor nos corrija e quebrante nossos corações para nos fazer buscar o pleno entendimento de sua vontade, e assim poder viver o real propósito do Natal.

Deus nos abençõe.

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10 de dezembro de 2012 00:35

Fiz parte do movimento punk durante anos e sempre
víamos as comemorações natalinas como festas comerciais mesmo.

Vanusa

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