VIOLÊNCIA NA ADOLESCÊNCIA - ISSO É NORMAL?

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O vir-a-ser do adolescente é antes de tudo o que – foi – e é a sociedade em que o mesmo vive. Dessa forma a adolescência e os caracteres pelos quais definimos a adolescência são na verdade um conjunto de valores sociais aplicados ao comportamento do jovem em formação, que ao absorver esses valores reflete em suas ações transmitindo aos demais ajudando assim a solidificar sua cultura.


Desse modo entender adolescência antes de qualquer coisa implica em compreender a cultura social vigente numa determinada sociedade, os modelos de conduta que esta valoriza, exclui e omite, para só então poder enxergar no jovem as manifestações de sua idade que tão enfaticamente muitos qualificam como orgânicas.

Sem dúvida os fatores orgânicos que envolvem o período anterior a fase adulta favorecem uma maior evidência das reações comportamentais do jovem, visto estar agora apto a “concretizar” seus pensamentos, aliando-os/comparando a novos conceitos, o que caracteriza não apenas uma fase de afirmação, mas também de descobertas e conquistas, fazendo assim com que o adolescente esteja invariavelmente em evidência perante os demais. Contudo as transformações orgânicas que este vive não são, por si só, suficientes para determinar uma postura padrão A ou B, dado a diferença existente entre os indivíduos, o que pode demonstrar o fator social como grande causador dessa flexibilização do comportamento, e assim, sua caracterização.

Agressividade e Violência:
A violência humana não é nada senão reações do comportamento as frustrações do meio, que podem ser psicológicas ou sociais. É a dificuldade adaptativa que pode tanto ser provocada por circunstâncias cognitivas de origens patológicas, como principalmente pelas condições sociais que o indivíduo se encontra, ou sofre!  Desse modo as características da violência se manifestam oportunamente, isto é, a violência enquanto forma de adaptação/expressão positiva ou negativa, depende do ser-no-mundo para tomar parte do sujeito. Somos dessa forma levados a pensar que ao identificar um jovem adolescente como violento, estamos definindo primordialmente a sua condição de vida.

O adolescente é vítima/ativa de uma postura social, onde apenas manifesta as conseqüências de uma política humana moderna em que os valores familiares e do próprio ser humano são cada vez mais conflituosos, distantes de conduzir ao humano a compreensão de si-no-mundo, mas pelo contrário, atua relegando ao jovem o status de potência mirim, isto é, potência de consumo, de liberdade “underground” (o que significa quase sempre sem limites) canalizada também para a objetivação do poder e do ter.

Certamente, se pegarmos como exemplo a Grécia antiga veremos que a fase do adolescente não se compunha dos caracteres que hoje se compõe e pelos quais enxergamos adolescência, (rebeldia, agressividade, liberalismo, conflituosismos, sexualismo), pois a juventude grega era sinônimo de aprendizado. Eram privilegiados os jovens que podiam estar ao lado de grandes mestres. Isto, porque sabiam os gregos que tal fase deve (era) ser marcada pela ânsia do jovem em se firmar enquanto agente potencializador de suas idéias, sendo por isso valorizado o virtuosismo, criativismo, o intelecto e o vigor dos “da puberdade”. Não é por menos que a Grécia tornou-se o berço da filosofia e da política e é modelo até os dias atuais.

Mas qual é a Grécia dos nossos jovens atualmente? É a dos mestres da mídia, do incentivo ao consumo, a liberdade (que não se pensa o que é e como deva ser!). Da alienação por uma felicidade atada ao poder do ter, poder, ser – pra quem? E da erotização como fim último do prazer humano de forma tal, que é impensável desvincular a formação humana sem a educação do sexo-objeto (ou seria objeto-do-sexo?), estes que são ensinados nos manuais chamados TV & Cia.

Ora, se na fase em que se firma o virtuosismo, se incentiva o intelecto e busca-se conhecimento o adolescente obtém em troca a nossa nova realidade cultural, nada mais “natural” se produzir uma geração de jovens conflituosos, "cheios de vazios” para expressar aquilo que não lhes é natural enquanto humanos. Ao invés de vermos expressão de um auto-conhecimento observamos lamúrias de quem luta para ser alguém com as armas que dispõe.

Certamente Freud viu do que chamou de Instintos de Morte, não o poder de uma energia humana originalmente – de morte - mas a reação de uma única energia humana sendo canalizada por um conjunto de ações humanas que – e ai sim – caminham para morte. Freud internalizou o prisma social que é capaz de transformar o humano em bem ou mal, quando este dispõe de capacidade compreensiva para só então executar tarefas com base em sua escolha (diferente de ações básicas de reflexos para manutenção à vida).

Todo o jovem é por natureza detentor de potencialidades boas e frutíferas. Ao tomar capacidade de firmá-las apenas necessita de um meio que lhe dê a direção e o exemplo correto para o desenvolvimento de tal potencialidade. Uma vez que não encontra, “internaliza” convertendo sua potencia em múltiplos efeitos, dentre eles a violência. Portanto, se considerarmos que a violência assume formas diferentes sob fases diferentes, podemos atribuir as mesmas características do adolescente aos adultos, pois de onde vem o – não suprimento – as necessidades do adolescente senão das frustrações do adulto em decorrência do modo como vive? É justo então afirmar que o adolescente é violento?

Ora, a diferença entre um e outro (adulto e adolescente), quando aparente, é apenas uma questão de “altura”. Você é adulto, eu sou adolescente, porém vivemos os mesmos problemas sob faces diferentes de uma mesma moeda. A minha violência, portanto, nada mais é do que a sua vida manifesta em meu comportamento...

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