A HUMANIDADE DO BICHO





A Vila Maravilha é o local onde a minha humanidade é posta constantemente à prova e onde as relações com os moradores, em sua diversidade, reduzem a pó os meus conceitos e preconceitos e me convidam a uma paciente e constante reconstrução. Na semana passada, levei para a Vila a bela e conhecida poesia de Bandeira:



Vi ontem um bicho

Na imundice do pátio

Catando comida entre os detritos

Quando achava alguma coisa

Não examinava vem cheirava

Engolia com voracidade

O bicho não era um cão

Não era um gato

Não era um rato

O bicho, meu Deus, era um homem...



Li essa poesia para um grupo amigo de pessoas da Vila, tentando extrair comentários, consciência e significado (especialmente significação político-ideológica), mas seu Sebastião (nome não verdadeiro), naquela sua maneira séria de pouquíssimas palavras, com o semblante mais sombrio do que nunca, somente insistia o tempo todo: “mas era um homem”.

Repeti a leitura lentamente para que fosse mais bem entendida a mensagem da construção poética, mas seu Sebastião obstinadamente repetia: “mas era um homem”. Então, eu me senti constrangido a refletir a minha reflexão.

E precisei admitir que fazer poesia da fome e da miséria alheia é um direito do poeta, mas reclamar e insistir na sua humanidade é um direito do homem, de todo homem e de qualquer homem.

O olhar de fora (de longe-perto) e o olhar de dentro (de perto-longe) são dois olhares diferentes. Do lixo de seu Sebastião, com toda a probabilidade, jamis brotará poesia, mas a sensibilidade do poeta de fora jamais conhecerá o significado pleno dessa teimosia do ser, do manter-se humano nos tênues limites da indigência.

Para entender do ser humano, do ser-ai ou do Da-sein, o filósofo alemão Heidegger precisou decompor o cotidiano e apertar a mão do camponês da floresta Negra. Para celebrar , talvez, a humanidade poética do indigente, o poeta teria de compartilhar do cotidiano do bicho-homem ou da agenda de sobrevivência do homem-bicho.

Nesse momento em que a humanidade aparece despida de qualquer adorno, paradoxalmente encantados e desencantados com a poesia de Bandeira, talvez precisemos todos recitar juntos o novo e brutalmente lebo poema da teimosia autoria de seu Sebastião: “mas é um homem”.


Pr. Marcos Monteiro

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